A Rocinha é a maior favela do Brasil, com cerca de 72 mil habitantes, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Encravada na sofisticada zona sul do Rio de Janeiro, a gigantesca comunidade é fronteiriça com dois badalados bairros cariocas: a Gávea e São Conrado, ambos figurando entre os metros quadrados mais caros do Brasil.
Em São Conrado há uma estação de metrô que dá acesso à favela. O movimento no seu sopé é indescritível: carros, vans, motos e ônibus trafegam num vaivém incessante, desembarcando e embarcando gente, que sobe com o corpo cansado, que desce apressada para seus compromissos, contornando a multidão de ambulantes. Quem observa a comunidade de fora impressiona-se com seu casario irradiando-se morro acima, numa aglomeração sufocante.
Nos anos 1980 a Rocinha carioca já era famosa Brasil afora, por conta de episódios de violência. Seus bandidos, lendários, frequentavam a crônica policial em vívidas descrições de tiroteios, mortes e acirradas disputas pelo poder. Imagino que a fama inspirou o batismo de inúmeras “rocinhas” Brasil afora.
Aqui na Feira de Santana, por exemplo, existe uma delas. O nome é alusivo à Rocinha carioca? Não encontrei resposta. O fato é que a Rocinha feirense, com seus 3.470 habitantes distribuídos por 1.488 domicílios, em 0,462 quilômetro quadrado de área, ostenta a condição de maior favela feirense, segundo o mesmo IBGE.
Alguns indicadores são até favoráveis na Rocinha feirense. Acesso à rede de água (99,18%), banheiro de uso exclusivo (99,92%) e coleta de lixo (98,6%) aproximam a comunidade dos bairros mais bem servidos da cidade. Por outro lado, há apenas uma escola e nenhum estabelecimento de saúde. Em compensação, há 10 igrejas.
Há outros indicadores que afastam a Rocinha dos bairros mais bem cuidados da cidade. É o caso da pavimentação: quase metade dos domicílios (49,3%) não conta com via pavimentada no entorno; com relação à existência de boca de lobo ou bueiro, nada menos que mil domicílios (82,4%) não dispõem destes equipamentos nas proximidades.
As dificuldades da comunidade não se encerram aí. Dos 1,4 mil domicílios da Rocinha, 1,2 mil não contam com ponto de ônibus no entorno, o que corresponde a 92,2%. Outro problema é a arborização: 81,2% das residências não têm árvores nas imediações; 4,78% dispõem de uma ou duas árvores e só 7,25% têm cinco ou mais árvores.
Como é corriqueiro, os negros são maioria na população residente na Rocinha. Pardos (51,5%) e pretos (39,5%) superam, em muito, os brancos, que somam apenas 8,7% dos moradores da comunidade. Há também mais mulheres que homens: para cada 100 delas, há apenas 84 homens.
A Rocinha abriga a hoje badalada Lagoa Grande, que fica nos limites da comunidade. Nos últimos anos, intervenções do governo estadual promoveram a revitalização da lagoa, que se tornou um dos – poucos – cartões postais da Feira de Santana. Mas, como os números permitem perceber, falta muito para melhorar a vida na maior favela da Princesa do Sertão.
Abril é o mês em que, no Brasil, costuma-se homenagear os povos indígenas. Durante muito tempo informações sobre este segmento da população foram escassas ou inexistentes. Mas os números do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, trazem informações interessantes sobre a presença indígena no Brasil, mas também na Feira de Santana.
O que mais chama a atenção, à primeira vista, é que a quantidade de autodeclarados indígenas cresceu significativamente: eram 1.118 em 2010 e, no levantamento mais recente, tornaram-se 6.621. Crescimento de impressionantes 592%. Isso significa que, na Princesa do Sertão, há 1,07% de indígenas no conjunto da população.
O detalhe é que 87% (5,6 mil habitantes) não sabem ou não indicaram a etnia à qual pertencem. Outros 12,1% (792 moradores) apontaram uma etnia de origem e 50 pessoas (0,77%) indicaram duas etnias. O idioma português ou a língua de sinais é falada por 6,4 mil pessoas. Somente 18 indígenas não se comunicam em nenhuma das duas línguas.
Com relação aos idiomas indígenas, 6,4 mil declararam que não falam nenhum deles, o que corresponde a 99,1% da população total. 47 informaram que falam uma língua; e somente uma pessoa comunica-se em dois idiomas indígenas. Não se conseguiu obter a informação em relação a oito entrevistados.
No que se refere à alfabetização, 5,1 mil, com idade acima de 10 anos, sabem ler e escrever. O número corresponde a 91% da população. Outros 506 não são alfabetizados. Entre quem tem até 19 anos, 97,7% são alfabetizados; entre aqueles com idade superior a 80 anos, cerca de 70%.
A idade mediana dos indígenas feirenses é 39 anos. A medida estatística sinaliza que metade da população tem idade superior à mediana e, a outra metade, inferior. Para cada grupo de cem mulheres, há 80 homens, conforme também apuraram os pesquisadores.
Os indígenas feirenses moram, majoritariamente, em casas: 3,2 mil ou 82,6% do total. Mas residem também em apartamentos, conforme declararam 330 deles ou 8,3% dos entrevistados no grupo. Outros 350 residem em vilas e condomínios e há sete morando em cortiços.
O que mais chama a atenção no conjunto de informações é o crescimento na quantidade de indígenas na Feira de Santana. Salto vertiginoso, que suscita indagações. As pessoas estão reconhecendo mais sua identidade? Talvez seja isso. Migração não foi: por aqui aportaram refugiados venezuelanos de origem indígena, mas não foram tantos. Mas fica, lançado, um tema interessante de pesquisa.
Meses atrás escrevi alguns textos sobre o tsunami mercantil chinês na Feira de Santana. Pulverizado pela Princesa do Sertão, o comércio de manufaturados da China não se limita ao centro da cidade, alcançando também os bairros comerciais e, inclusive, lojas minúsculas na remota periferia feirense. A estrutura tentacular do comércio de rua desdobra-se engajando comerciantes miúdos que atuam no varejo e que veem no mercadejar uma oportunidade de renda.
Estes tentáculos, que se irradiam pelas longínquas periferias, também integram o muito mais robusto ecossistema mercantil chinês, espacialmente concentrado em artérias específicas no centro da Feira de Santana. Basicamente, no entorno do Feiraguay, onde se veem dezenas de lojas tocadas por chineses e que, inclusive, contam com orientais até no atendimento.
Conforme mencionado em texto anterior, a Rua Conselheiro Franco e as ruas próximas à Praça Presidente Médici abrigam boa parte do ecossistema. Fora dali, existem lojas de confecções que, em alguma medida, vinculam-se a empresários chineses. Mas afastam-se um pouco da vocação manifesta pelos orientais por aqui, de comercializar eletrônicos e produtos afins.
Curiosamente, no Shopping Popular e cercanias – bem no antigo e maltratado Centro de Abastecimento – não se veem os chineses com suas lojas e seus produtos ocupando boxes ou estabelecimentos próximos. Em outras palavras, não se instituiu – e nem se insinua – a constituição de uma superestrutura mercantil observável nos moldes do Feiraguay.
A crônica das ruas feirenses é fértil em cogitações sobre os “verdadeiros donos” ou sobre “quem deve assumir lá na frente” o Shopping Popular. Nos corredores estreitos do Feiraguay, nos galpões do Centro de Abastecimento, nos espaços agora largos da Sales Barbosa, na ensombreada Froes da Mota, na agitada Marechal Deodoro, em todos esses lugares esses comentários circulam.
Mas, até aqui – lá se vão seis anos – o Shopping Popular não mostrou a que veio e, à primeira vista, os chineses não tem nenhuma conexão com o equipamento. Senão, talvez já estivessem lá dentro, ou, no mínimo, ocupando o comércio na Olímpio Vital, na Avenida Canal, na Praça do Tropeiro, enfim, naquelas cercanias.
Caso estivessem, a desolação e a estranheza certamente seriam menores. Afinal, estabeleceu-se na Feira de Santana uma curiosa dicotomia. Nos estreitos e acanhados quarteirões que circundam o Feiraguay, muita agitação e comércio, sobretudo nos tempos de festa; no Shopping Popular, a tristeza dos grandes espaços desertos, sem gente, abandonados.
Embora lento, o processo de reconfiguração mercantil é incessante. O que se vê, no momento, como estático, mais à frente sempre se transfigura. Quem imaginaria, décadas atrás, que o comércio de rua declinaria, golpeado pelas vendas digitais? Quem enxergaria o avanço avassalador do comércio de bairro?
Enfim, o tema é palpitante e, mais à frente, renderá novos textos e análises, sem dúvida...
Bonfim de Feira é o distrito mais a oeste da Feira de
Santana. Também é um dos mais distantes da sede do município: pouco mais de 30
quilômetros. Para chegar até lá é necessário deixar a cidade pela BR 116 Sul e,
mais à frente, após a ponte sobre o Rio Jacuípe, seguir à direita pela Estrada
do Feijão, a BA 052. Percorrendo mais alguns quilômetros, alcança-se o acesso
mais à frente, num retorno sinalizado. Bonfim de Feira faz fronteira com
Anguera, Serra Preta e Ipecaetá, municípios vizinhos.
Em Bonfim de Feira a herança cultural da pecuária parece ser
mais acentuada que nos demais distritos feirenses. É que, por lá, muitas
décadas atrás, havia criatório e fazendas de gado extensas, propriedades da
antiga elite rural feirense. Lá também era caminho de boiadas e boiadeiros. A
igreja imponente e o casario acanhado, ainda hoje de pé, testemunharam a época
em que o distrito viveu o seu apogeu.
Inteiramente imerso na caatinga, Bonfim de Feira fica próximo
de serras que se estendem em direção a Anguera, a Serra Preta e Ipirá, a
Ipecaetá também. Lá estão, silenciosas e azuladas nos dias de estio, a Serra da
Caboranga (570 metros de altitude), a Serra do Sebastião (435m), a Serra da
Guariba (599m) e, mais distante, a Serra da Caboronga (589m), mais perto de
Anguera.
Assim como na Matinha, a população de Bonfim da Feira é
majoritariamente negra, de acordo com o Censo 2022 do IBGE: pardos (1.418)
somam-se aos pretos (1.354), totalizando 2,7 mil afrodescendentes. Os brancos
somam apenas 122 pessoas. Não há, por lá, indígenas ou amarelos.
O distrito soma só 2.895 pessoas, distribuídas por 85,5
quilômetros quadrados. A densidade populacional é muito baixa: só 33,8
habitantes por quilômetro quadrado. Boa parte das residências localiza-na na
porção urbana do distrito: 1.910 ou cerca de 66%. Os 985 restantes
distribuem-se pelos vastos espaços rurais.
As mulheres são maioria: há 1.520 delas e 1.375 homens. O
analfabetismo permanece como um desafio: 1.668 pessoas são alfabetizadas, o que
representa 75,2% dos moradores. Por outro lado, 549 pessoas – quase 25% dos
maiores de 10 anos – não sabem ler e escrever.
A população de Bonfim de Feira envelhece: cerca de 12% dos
residentes tem idade superior a 60 anos. Note-se que, nestas faixas etárias, a
quantidade de mulheres é bem superior à de homens. Até os 14 anos de idade,
também há cerca de 12% de crianças e adolescentes. Ou seja: para cada criança,
há um idoso.
Na faixa etária dos 30 aos 49 anos também há cerca de 12% de
homens e mulheres. Há, percentualmente, menos pessoas nas faixas inferiores de
idade, entre os 19 e os 29 anos. O que explica o fenômeno? Talvez, neste
segmento, tenha ocorrido a opção pela migração, em busca de melhores
oportunidades de vida. É que ocorre em boa parte dos pequenos municípios e
distritos brasileiros.
Registros apontam que Senhor do Bonfim – o nome antigo era
Itacuruçá, que significa pedra da cruz – é anterior à própria Feira de Santana.
Sua ocupação, certamente, remonta à expansão da pecuária pelo remoto interior
do País. Hoje é denso de memórias sertanejas, plantadas pela frenética
atividade bovina de séculos atrás.
Já faz um tempo que o mundo está do jeito que o diabo gosta. Guerras, ditaduras, ameaças à liberdade e à democracia, fanatismo religioso, proliferação de discursos do ódio, governantes promovendo e locupletando-se com fraudes e falcatruas, episódios de pirataria de Estado, fome, miséria, desigualdade, migrações forçadas por conflitos bélicos e – novidade assustadora! – pelas mudanças climáticas.
Talvez seja por isso que Donald Trump – irretocável
caricatura de anticristo – esteja se coçando para escalar a guerra que promove
no Oriente Médio, recorrendo – quem sabe? – a artefatos nucleares. Inquietantes
notícias na imprensa norte-americana dão conta de que o imperador alaranjado andou tentando acessar os códigos da famosa mala
nuclear que pode decretar o armagedom. Foi contido por um general.
Enquanto o armagedom não vem, os argentinos
substituem, em suas refeições, carne bovina por muares. É isso mesmo: os hermanos
estão recorrendo à carne de burro como fonte de proteína. Na tevê, uma repórter
provou a iguaria, com ar de repugnância, para provar à população que o produto
é uma opção palatável. Tudo para manter Javier Milei, o histriônico mandatário
de lá, em alta.
Notícias recorrentes informam, com orgulho, que os
fundamentos macroeconômicos estão sólidos por lá. Nos anos 1990, o Brasil
também atravessava uma época assim. Alguém até definiu, de maneira lapidar, o
cenário brasileiro, naquele momento: a economia vai bem, mas o povo vai mal. A
Argentina foi fisgada em arapuca semelhante.
Aqui, no Brasil, parte da chamada grande imprensa
entusiasma-se, cada vez mais, com Flávio Bolsonaro, o filho do “mito”. A razão?
Seu desempenho nas pesquisas, emparelhado com Lula. Além de livrar os golpistas
da cadeia, o candidato, até aqui, não revelou nada do que pretende fazer.
Entende-se: pelo visto, não pretende fazer nada.
Com relação à carne de burro, os brasileiros podem ficar
tranquilos. Ninguém a comerá. Caso a extrema-direita ascenda ao poder,
certamente, dezenas de milhões roerão ossos, farão sopa com embalagem de
charque, comerão pequenos roedores no interior do Nordeste. Esse é o passado
que essa turma pretende resgatar, retomando o próprio cenário do governo de
Jair Bolsonaro, o “mito”, de uns poucos anos atrás. Isto se o armagedom
de Donald Trump não nos atropelar antes.