Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador da República, filho de Jair Bolsonaro, o “mito”, não tem condições de ser presidente do Brasil. Não, não vou desfiar aqui razões políticas, ideológicas, morais, éticas ou – até mesmo – criminais. Observo que o representante do Rio de Janeiro na Câmara Alta – o Senado – é demasiado ingênuo, bondoso, bobo mesmo, para assumir cargo de tamanha relevância. É bom começar recordando uma frase corriqueira nos meios políticos: na política, perdoa-se tudo, menos a ingenuidade.
Qualquer pesquisa na Internet revela as suspeitas de que Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi investigado por peculato, a popular “rachadinha”. O crime implica em, por exemplo, embolsar parte dos salários de assessores. O senador, em sua defesa, alegou que não sabia da prática. Atribuiu-a a seu antigo faz-tudo, Fabrício Queiroz. O episódio revela um político ingênuo, incapaz de enxergar a maldade no coração do outro. Talvez até displicente.
O patriótico senador já foi acusado, também, de excessiva proximidade com milicianos e familiares destes. Condecorou até um deles, Adriano da Nóbrega, ex-PM já morto, com a maior honraria do Legislativo fluminense: a Medalha Tiradentes. Este até estava preso quando foi homenageado. Flávio Bolsonaro alegou que, até então, a conduta do finado não o desabonava. Faltou malícia no episódio, pelo visto. Talvez o senador imaginasse que o futuro chefão do Escritório do Crime estivesse preso por alguma boba infração administrativa ou fosse vítima da perseguição de algum inimigo.
Para o texto não ficar muito longo, a linha do tempo precisa correr. Cheguemos, pois, a Vorcaro e ao Banco Master. Pilhado num áudio requisitando algumas dezenas de milhões de reais para o filme sobre o pai, Flávio Bolsonaro defendeu-se: alegou que, até a data do contato, nada desmerecia o então banqueiro hoje domiciliado na carceragem da Polícia Federal, em Brasília. Engano: investigavam-no há tempos. Vá lá que o coração do senador seja enorme – uma figura bondosa mesmo – mas faltou-lhe, pelo menos, uma assessoria bem informada.
Injustamente acossado, o parlamentar reuniu-se com a bancada do seu partido. Pediu 30 dias para prestar contas do destino das dezenas de milhões de reais requisitados ao amigo Vorcaro. Mais uma vez, o senador revelou-se mal-assessorado, talvez desorganizado em sua contabilidade, mesmo sendo sócio de uma prodigiosa loja de venda de chocolates.
À altura que este texto se aproxima do seu desenlace, talvez já tenha surgido por aí mais uma explicação do senador para reforçar sua inocência. Mas vou parar por aqui. Resgatando o fio dos episódios mencionados acima, é impossível não chegar à conclusão de que o Brasil não pode ser entregue a uma pessoa ingênua. Excelente coração, generoso, bondoso, gente fina, mas sem malícia nenhuma para tocar o Brasil adiante. Na política, é pecado capital ser ingênuo.
Talvez a ingenuidade do senador – aqui já há especulação – venha de sua condição de cristão, de homem temente a Deus, defensor da família, patriota inflexível. É comovente vê-lo compenetrado nos cultos, olhos cerrados orando a Deus. Certamente ali ele encontra força e sabedoria – imagino que disponha destas de sobra -, mas não o traquejo necessário para tornar o Brasil de fato o florão da América.
Mais maduro e calejado, quem sabe lá adiante Flávio Bolsonaro não consiga fazer-se entender pelos brasileiros, que teimam em não aceitar suas explicações, forçando-o a elaborá-las em série...
O distrito de Tiquaruçu possui uma peculiaridade em relação a outros distritos feirenses: não faz divisa com a sede da Feira de Santana. Localizado bem ao norte do município, a área do distrito é fronteiriça apenas com a Matinha e Maria Quitéria, mais próximos da sede. Um dos limites de Tiquaruçu, a oeste, é cortado pela BR 116 Norte. Já a BA 504, que liga a rodovia a Santanópolis e Irará, atravessa todo o território do distrito.
Apesar da relativa distância da sede da Feira de Santana, Tiquaruçu é um dos distritos em que a cultura pulsa mais forte na Princesa do Sertão. Lá acontece, no começo do ano, a afamada Festa de Reis, que mobiliza a comunidade e atrai vistantes para conhecer a celebração.
O distrito também ostenta outra curiosidade, esta de caráter econômico. Lá se produzem bonsais com flores típicas da Caatinga. O bonsai é uma técnica milenar japonesa, que promove o cultivo de plantas em miniatura, mantendo todas as características de uma planta adulta. A iniciativa emprega tecnologia social e constitui um dos atrativos de Tiquaruçu.
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, indica que 4.348 pessoas residiam no distrito naquele ano. Estavam distribuídas em 2.313 domicílios, localizados na sede e em comunidades como Alto dos Santos, Caatinga e Socorro. A área total do distrito é de 78,48 quilômetros quadrados, com 55,41 habitantes por quilômetro quadrado.
A exemplo do que se verifica nos demais distritos ao norte da Feira de Santana, há poucos brancos em Tiquaruçu: somente 214. Os pretos são 1.404 e os pardos, 2.727. Estes últimos constituem a imensa maioria negra da comunidade. O Censo 2022 também registrou a presença de três indígenas vivendo no distrito.
Há mais mulheres que homens, mas a diferença é pequena: 2.248 mulheres e 2.100 homens. A população é mais escolarizada que em outros distritos (81,6%), mas está abaixo da média do total do município, de cerca de 93%. A distribuição etária da população – com média de idade mais elevada – ajuda a entender a questão da alfabetização.
Há poucas crianças e adolescentes em Tiquaruçu: apenas cerca de 10% da população tem idade até 14 anos. A maior parte dos moradores (cerca de 14% entre homens e mulheres) tem idade entre 30 e 49 anos. O número de idosos também é elevado: 9% acima de 60 anos entre as mulheres e 7% entre os homens.
Para visitar Tiquaruçu é necessário percorrer cerca de 17 quilômetros pela BR 116 Norte, mais 13 quilômetros até a sede do distrito. Além da Festa de Reis, Tiquaruçu tem imóveis com fachadas antigas e uma pedra – a “pedra grande” - que desperta a atenção dos visitantes.
O salseiro que sacode a extrema-direita desde a revelação do áudio vadio do senador Flávio Bolsonaro (PL) enviado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro pode respingar no cenário político da Bahia. Aliás, não só da Bahia, mas do Brasil inteiro. Afinal, Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai, Jair Bolsonaro, o “mito”, constitui até aqui o único rival à altura de enfrentar o presidente Lula (PT), candidato à reeleição. Em pesquisas recentes, ambos aparecerem emparelhados na disputa pela presidência da República, replicando a chamada “polarização” das últimas eleições.
O governador Jerônimo Rodrigues (PT) se elegeu usando fartamente a imagem de Lula durante sua campanha. Era praticamente um desconhecido, mas conseguiu obter pouco mais de 50% dos votos válidos, superando o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, tido como franco favorito nas pesquisas. A sólida transferência de votos de Lula ajudou o atual governador baiano.
Para Jerônimo o cenário não se altera: tornou-se conhecido, dispõe das realizações de seu mandato para mostrar, mas deve ostentar como grande trunfo, mais uma vez, a proximidade com o presidente da República. Talvez Lula não repita o desempenho do último pleito, mas de qualquer maneira segue líder com larga vantagem entre os eleitores baianos.
ACM Neto, por sua vez, depara-se com as mesmas dificuldades das eleições passadas: embora lidere as pesquisas realizadas até aqui, não enfrente concorrentes no seu campo político e conte, inegavelmente, com os votos de quem rejeita o petê, ele não dispõe de uma candidatura presidencial sólida no estado para ajudar a impulsioná-lo. Em 2022, isso lhe fez falta.
Flávio Bolsonaro – ora candidato, embora acossado pelo escândalo recente – se dispõe a apoiar ACM Neto a anseia pelo apoio deste; mas os Bolsonaros não contam com grande simpatia do eleitor baiano e podem, inclusive, prejudicar quem lhes dê a mão; Ronaldo Caiado (União) e Romeu Zema (Novo), por sua vez, não dispõem de musculatura para alavancar candidaturas na Bahia. Pelo menos até aqui.
Isso quer dizer que ACM Neto está fadado a uma nova derrota? É precipitado dizer. Mesmo que a decisão do eleitor envolve diversas variáveis, não se restringindo ao apadrinhamento em âmbito nacional. É bom lembrar, também, que o ex-prefeito de Salvador quase venceu em 2022 e seu piso eleitoral é elevado, como mostram as pesquisas.
Mas, de qualquer maneira, o cenário nacional tende a produzir reflexos no âmbito dos estados. Hoje, há incertezas e especula-se, inclusive, a substituição de Flávio Bolsonaro como candidato da oposição. Caso ocorra, pode surgir um nome competitivo, que reembaralhe o cenário das eleições presidenciais. Com evidentes reflexos na Bahia também, diga-se...
Lembro do entusiasmo das pessoas com o Orkut há cerca de duas décadas. Foi a pioneira entre as chamadas redes sociais e, portanto, uma grande novidade. Atraiu a gente mais jovem, mas também pessoas mais maduras, encantadas com a possibilidade de reconectar-se a amizades antigas, pessoas que moravam longe ou que, simplesmente, tinham ficado estacionadas no passado. Começava, naquele tempo, o fenômeno que, hoje, ocupa posição central na vida de muita gente.
Mais afeito à vida real – era possível uma rotina analógica naqueles tempos – demorei a ingressar na plataforma. Usava pouco, até por óbvia falta de tempo. Mas não foi isso que despertou certa indiferença. É que, basicamente, encontrava por ali bobagens infantis ou a nostalgia de um passado emoldurado. Nem tão jovem, mas nem tão velho, não enxergava atrativos.
Pouco depois houve o boom de redes sociais. Surgiram plataformas mais aprimoradas, conectando os mesmos amigos em novos ambientes, surgiram plataformas de relacionamentos amorosos, de conexões de trabalho, enfim, de tudo que pode representar afinidade entre pessoas e – mais que isso – lucro para os donos das plataformas. Por fim, com a evolução dos aparelhos celulares, as mídias chegaram à palma da mão.
Junto com tudo isso veio o ódio, no vácuo do fortalecimento dos extremismos. É claro que o ódio, o rancor, o ressentimento, a raiva e o niilismo sempre existiram nestes ambientes digitais. Mas, após sua massificação, veio um direcionamento assustador, certamente impulsionado pelos algoritmos, que foram se sofisticando. O ódio, nestes espaços, só perde para as propagandas.
Às vezes, na imprensa, vê-se alguma notícia alvissareira: as pessoas estão cansadas do ódio, da discórdia, dos ressentimentos, dos algoritmos. É bom saber: pensava que lidava sozinho com o desconforto. O que elas fazem, então, para manter a sanidade, impedir que sua saúde mental seja ainda mais comprometida? Em grande medida e dentro do possível, desconectam-se.
É um exercício valioso. Fazê-lo dá uma indescritível sensação de liberdade. Sobretudo porque, em todos os lugares, o que se vê são pessoas reféns das telas, dos vídeos, dos áudios, do mundo inteiro que cabe no celular e na palma da mão. É de se imaginar qual a relação ideal com a tecnologia, dados os excessos que se veem por aí. Inclusive os que atingem as crianças.
Depois de tantos avanços tecnológicos, alcançáveis com uns poucos cliques, muitas pessoas tornaram-se ansiosas, nervosas, neuróticas, adoecidas pela exposição excessiva ao universo digital. Chegou, portanto, o momento de lidar de maneira equilibrada com as redes, seja no âmbito do trabalho, seja no das relações pessoais. Passou o momento da ânsia de integrar-se ao digital e chegou a hora de equilibrá-lo com os muitos prazeres que a vida analógica oferece.
No começo dos anos 1990 antigos ônibus começaram a substituir os paus-de-arara que transportaram os feirenses da zona rural para a sede do município, às segundas-feiras. Neles, penduravam-se placas que identificavam os destinos. Ali na subida do Sobradinho, habituei-me com os ônibus que iam para Jaguara e para algumas de suas comunidades rurais: Morrinhos, Sete Portas e Barra, esta última bem num dos extremos do município.
Hoje, na Praça do Tropeiro e no entorno, é comum encontrar ônibus e vans com destino ao longínquo distrito. Percorrendo a Estrada do Feijão e vias empoeiradas, chega-se à sede de Jaguara, distante 35 quilômetros. Lá também predomina, como marcante traço cultural, a memória pastoril que forjou a ocupação da região, com seus vaqueiros e a pecuária como principal atividade econômica.
Em extensão, Jaguara é o maior distrito feirense: impressionantes 358,92 quilômetros quadrados. Daí a baixa densidade demográfica: só 11,08 habitantes por quilômetro quadrado. Nos 2.252 domicílios recenseados no distrito, foi registrada a presença de 3.977 moradores. A população vem declinando rápido: em 2000, havia 6.434 habitantes.
Jaguara possui múltiplas fronteiras: com Tanquinho e Candeal (Norte), Serra Preta e Anguera (Oeste), com Ipuaçu (Sul) e Maria Quitéria (Leste). Em seu território extenso, localizam-se serras como as de São José (631m), do Pote (591m), da Passagem (518m) e Queimadinha (431m), menos íngremes que aquelas localizadas em Bonfim de Feira.
Assim como os distritos localizados ao Norte da Feira de Santana, Jaguara conta com população majoritariamente negra. Há, por lá, só 115 brancos, que convivem com pardos (2.221) e pretos (1.639). O nível de alfabetização é dos mais baixos da Princesa do Sertão: só 77,89% é alfabetizada, contrastando com os índices acima de 90% do município.
Não existem amarelos ou indígenas residindo no distrito. Há mais homens que mulheres, – contrariando a regra – mas a diferença é pequena: 2.025 homens e 1.952 mulheres. Quem vive em Jaguara não mora em apartamento, condomínio, maloca, casa de vila ou cortiço: 100% da população reside nas 1.433 casas recenseadas. Em cada casa há, em média, 2,8 pessoas.
No passado, Jaguara tinha outro nome: Bom Despacho. Tornou-se Jaguara somente em 1943. No distrito existe a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, com uma igreja que constitui uma dos atrativos do distrito. Também emblemática é a barragem que garante oferta hídrica à população. Quando a temporada de chuvas é boa e a barragem sangra, as imagens circulam fartamente nas mídias sociais.