Talvez
os mais jovens não saibam, mas o Feiraguay não começou no atual Feiraguay, cujo
nome oficial é praça Presidente Médici. Começou bem no início dos anos 1990, na
praça do Lambe-Lambe e na Sales Barbosa. Até então, a indústria chinesa
engatinhava e os produtos daquele país chegavam ao Brasil como contrabando,
transportados a partir do Paraguai em longas viagens clandestinas.
Naquela
época, minúsculas barracas exibiam relógios metálicos de parede e rádios de
pilha, produtos da então incipiente indústria chinesa. O desemprego era
alarmante e a pobreza endêmica: quem ia ficando de fora do mercado de trabalho,
que passava por uma profunda crise e por um acelerado processo de
reestruturação, aventurava-se pelas ruas, vendendo contrabando.
O
processo não era, exatamente, novidade na mercantil Feira de Santana: as
feiras-livres e o comércio de rua inspiravam os empreendedores que debutavam. O
que trazia uma mudança profunda era o produto: frutas, verduras, ervas
medicinas e pequenos utensílios de fabricos artesanais foram substituídos pelos
produtos eletrônicos chineses, uma novidade então.
Naquele
tempo – no famigerado governo Fernando Collor – a economia atravessava uma
profunda recessão e a indústria brasileira cambaleava após a abertura comercial
açodada. Cenário perfeito para a introdução de produtos chineses
contrabandeados, vendidos a brasileiros que enfrentavam uma feroz escassez de recursos.
Quem
debutava no novo – e precário – nicho comercial penou muito. O “rapa” perseguia
os camelôs de maneira implacável, apreendendo mercadorias; sucediam-se
manifestações pelas ruas da cidade; discursos inflamados retumbavam na imprensa,
mas não se chegava a qualquer solução. Quem empreendia insistia, até por falta
de alternativa.
A
solução, em grande medida, foi providenciada pelos próprios camelôs. Depois de
sucessivas expulsões, fixaram-se na abandonada praça Presidente Médici. Aquilo
ali ficava distante das artérias mais valorizadas, como Sales Barbosa e Senhor
dos Passos e incomodava pouco os lojistas tradicionais. Isso ainda em meados
dos anos 1990.
Mais
à frente, acordos comerciais viabilizaram a importação legal de produtos
chineses, cuja qualidade cresceu vertiginosamente, a indústria brasileira
arruinou-se com décadas de câmbio sobrevalorizado e o Feiraguay só cresceu,
tornando a região outrora esquecida um dinâmico centro de comércio.
Neste
século XXI, o entreposto contribuiu para a projeção da Feira de Santana Brasil
afora, rendendo inclusive muito folclore. Mas, com folclore ou não, o Feiraguay
e seu ecossistema geram milhares de postos diretos e indiretos de trabalho e
movimentam a economia feirense, ajudando a sustentar a Feira de Santana como
polo comercial de extensa região.
Mas mais detalhes sobre isto ficam para o próximo texto...
Carregadores,
cabos, fones de ouvido, capas, películas, suportes, caixas de som, fones
bluetooth, cartões de memória, HDs externos, mouses, teclados, caixas de som
USB. Tudo está ao alcance da mão, disponível nos balcões envidraçados que, simetricamente,
ajustam-se aos boxes minúsculos e iluminados com profusão.
Também
é possível encontrar confecções: camisas e camisetas, calças, saias, vestidos,
blusas, meias, bonés e as disputadas camisetas de times de futebol. Centenas de
boxes apertam-se em dezenas de corredores estreitos que dão a quem os percorre
a sensação de mergulhar num labirinto. Nele há conversas, gritos, pregões e
música estridente, um vertiginoso ir-e-vir que desorienta.
A
variedade de rostos e tons de pele emprestam ao ambiente um ar assemelhado ao
destes enclaves que reúnem gente de diversas partes. Movem-se pelos corredores
e detrás dos balcões, numa frenética ânsia mercantil. Pretos, brancos, pardos,
amarelos, altos, baixos, magros, gordos, jovens, adultos e idosos misturam-se,
comprando, vendendo, circulando.
O
mercadejar extrapola boxes e corredores, irradia-se para além do quarteirão que
abriga aquele frenesi. Nas vias limítrofes vicejam lojas, dezenas de lojas que
oferecem uma amplitude de mercadorias ainda maior: os mesmos eletrônicos, utilidades
domésticas, brinquedos e artigos infantis, produtos de limpeza e organização,
além de itens de beleza.
Densos
de prateleiras e produtos, estes estabelecimentos anunciam-se com chamativos painéis
multicoloridos. A baixa padronização visual, o fluxo incessante, a sufocante
exposição de mercadorias, o infindável vaivém de clientes, tudo contribui para
uma sensação de confusão, de caos até. Ali, todavia, impõe-se a lei do produto
barato, a ordem do crédito e das parcelas, a lógica varejista que concilia
também com o atacado.
Mas,
se o caos é aparente no mercadejar, ele é literal no trânsito. Apinhados, os
estacionamentos do entorno ofertam centenas de vagas que, raramente, estão
desocupadas. O ir-e-vir de veículos, então, é assustador. Atravancados, os
fluxos se retardam, produzindo gritos, imprecações, buzinas escandalosas. No
meio de tudo, pedestres aventuram-se em calçadas estreitas, entre os carros, nas
portas das lojas.
É
difícil circular sob o calor do verão, árvores são miragens naquela selva de
concreto, aço e vidro. A selva urbana, porém, permanece em expansão, placas e
estruturas de concreto prometem novas construções, sinalizando crescimento, avanço
em direção às artérias próximas.
Quem leu até aqui – presumo – já percebeu que trata-se de uma descrição pálida do Feiraguay, um dos mais eminentes símbolos da Feira de Santana nas últimas décadas. Mas vou parando por aqui: o Feiraguay exige muita palavra e algumas considerações, que ficam para o próximo texto.
A semana começa com uma tremenda novidade no cenário político baiano: o senador Otto Alencar (PSD), em entrevista, garantiu que, caso deseje, o senador Ângelo Coronel (PSD) disporá da legenda para lançar candidatura avulsa ao Senado. Como se sabe, o petismo deseja rifar Coronel, lançando os nomes dos ex-governadores Jaques Wagner e Rui Costa para as duas vagas disponíveis em 2026.
Coronel ascendeu ao Senado como beneficiário de uma manobra semelhante em 2018: naquele ano, a concertação da chapa vitoriosa envolveu a exclusão da então senadora Lídice da Mata (PSB) para a inclusão de Coronel, indicado por Otto Alencar. Pelo visto, o atual senador não deseja repetir o enredo, desta vez figurando como excluído.
Quem acompanha a política baiana sabe que o PSD não é o PSB, nem Coronel é Lídice da Mata. Sustentáculo de centro-direita no consórcio petista que governa a Bahia há 20 anos, o PSD elegeu 115 dos 417 prefeitos baianos em 2024, ocupa postos importantes Executivo estadual e dispõe de bancada numerosa na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional.
Caso Rui Costa e Jaques Wagner não recuem – e Coronel mantenha a disposição da candidatura avulsa – o embate será bom nas eleições. Os petistas recorrerão à figura de Lula para vitaminar suas candidaturas; Coronel contará com a retaguarda pessedista e com o trânsito grande – segundo se comenta – entre dezenas de prefeitos baianos.
A chamada chapa puro-sangue petista – o governador Jerônimo Rodrigues é candidato à reeleição, frise-se – não deixa de revelar certa prepotência petista. Afinal, julgam-na imbatível, capaz de alavancar a reeleição do presidente Lula (PT) aqui na Bahia.
Quem se arvora a opinar sobre política não se deve se restringir às conversas com os atores políticos e o eleitorado esclarecido, nem somente à leitura do que os jornalistas escrevem ou dizem. É preciso o sentimento da rua, aquele que o povo transpira. Captá-lo é um exercício constante e, também, fascinante.
Na Feira de Santana e na Bahia, quem conversa nas feiras-livres, nas esquinas, nos bares, nos pontos de ônibus e nas periferias sabe muito bem que o chamado povão é muito mais lulista que petista. Não foi o PT da Bahia que alavancou Lula em 2022. Foi o contrário: Lula foi quem impulsionou os candidatos da legenda aqui no estado.
Pelo jeito, os caciques do petismo baiano não aprenderam – ou ignoraram – a lição. É o que sinaliza, até aqui, a chapa puro-sangue. A sorte deles é que ainda há tempo para aprender...
Enquanto escrevo, a Lavagem do Bonfim se desenrola em Salvador. Mas vi diversas fotografias e imagens e posso, desde já, reiterar que a tradicional celebração católica segue desfigurando-se, como muita gente aponta há tempos. A secular manifestação de fé transformou-se num interminável – e profano – cortejo político-partidário em que polos opostos se digladiam.
Neste 2026, a propósito, as demonstrações de força são ainda mais intensas, por conta das eleições que ocorrerão em outubro. Longos cortejos cercam os líderes políticos, distinguindo-se pelos balões, bonés, bandeiras, cartazes e camisetas personalizadas, orquestras particulares e – ao fim e ao cabo – comida e bebida à farta. Farra para eletrizar os cabos eleitorais...
É óbvio que as manifestações políticas são legítimas e compõem a festa há tempos. Esta, a propósito, não se limita aos rituais religiosos, envolvendo também as festas profanas que caracterizam o longo verão baiano. Mas é nítido que o Senhor do Bonfim – e Oxalá – perdem o protagonismo à medida que o enredo religioso cede lugar à instrumentalização política.
A própria imprensa, hoje, privilegia aquelas declarações protocolares dos políticos – qualquer político, aliás – ignorando a cobertura mais global da celebração. Dezenas destas declarações já estão disponíveis, a propósito, para quem quiser se entreter nos sites da vida.
Estas observações não refletem nenhuma inclinação ranzinza, mas buscam trazer uma reflexão mais abrangente – embora despretensiosa – sobre a pulsante sinergia entre fé, religiosidade e cultura na Bahia. É visível que o outrora festejado ciclo de festas populares da Salvador perdeu fôlego e, em grande medida, ganhou sentido diverso.
Na Lavagem do Bonfim, há a apropriação política. Quem não se identifica com os cortejos partidários fica deslocado, o desafio de percorrer os oito quilômetros da Conceição da Praia à Colina Sagrada impõe mil malabarismos a quem repele as claques. Mais à frente, a Festa de Iemanjá, por sua vez, ganhou uma inquietante conotação mercantil.
Com o tempo tudo muda, é verdade. As sociedades são dinâmicas e se transformam. Mas que é chato constatar que a mercantilização e a partidarização empobrecem a fé e a cultura baianas, lá isso é...
Neste janeiro, o calor está insano na Feira de Santana. Sempre há nuvens e, às vezes, até cai uma chuva fina e passageira. Nada, porém, que ajude a mitigar as altas temperaturas. Os termômetros marcam, invariavelmente, temperaturas acima de 30 graus. Nos momentos mais agudos, a sensação térmica bordeja os 40 graus.
Os recorrentes rigores do clima já provocaram mudanças na rotina das pessoas. A partir do final da manhã e até a metade da tarde, por exemplo, vê-se menos gente pelas ruas. Quem sai – sobretudo as mulheres – abriga-se sob sombrinhas ou guarda-sóis.
Muita gente, porém, não dispõe do direito de regular os próprios horários, nem de abrigar-se no conforto do ar-condicionado. É o caso de ambulantes, camelôs e prestadores de serviços miúdos no centro da Feira de Santana. Quase sem arborização, o miolo comercial da Princesa do Sertão registra temperaturas inclementes. Quem labuta por lá, sofre.
A situação é ainda pior nas ondas de calor, quando a temperatura, sempre causticante, alcança patamares insuportáveis. Isso acontece com cada vez mais frequência, como se sabe. São as tais mudanças climáticas – sobre as quais tanto se fala – mostrando-se na prática. Como se vê, as pessoas precisam se adaptar. Os governos também deveriam.
Ações simples de hidratação, por exemplo, deveriam ser adotadas nas ondas de calor. Distribuir água é essencial para impedir a desidratação e problemas de saúde mais graves, que exijam internações e elevem os custos com a saúde pública.
Trabalhadores que exercem seu ofício nas ruas – como camelôs e ambulantes – deveriam contar com a iniciativa durante as severas ondas de calor; crianças e idosos em áreas de grande circulação comercial, também.
Sales Barbosa, Marechal Deodoro, Centro de Abastecimento e Feiraguay, por exemplo, seriam espaços interessantes para a implantação de pontos de hidratação. Água, no verão, é essencial. Quem não carrega sua própria garrafa e não tem dinheiro sobrando para comprar água mineral passa sede e corre o risco de se desidratar.
Mas quem, afinal, deveria arcar com a iniciativa que, a propósito, já existe em São Paulo e no Rio de Janeiro? Por lá, a Sabesp e a Cedae, respectivamente, concessionárias de água e saneamento, assumem o papel. Aqui na Feira de Santana temos a Embasa que cobra uma leonina taxa de esgoto, mas cujos retornos sociais são mínimos. A empresa poderia debutar nesta frente.
A iniciativa – pontual – tornaria o centro da cidade melhor e contribuiria na prevenção de desidratação e insolação, dois males decorrentes das irrevogáveis mudanças climáticas.