O prefeito José Ronaldo de Carvalho (União) anunciou a revitalização de dez praças da Feira de Santana. Parte delas está localizada no centro da cidade e encontra-se em situação lastimável. Espaços urbanos bem cuidados geram uma série ampla de impactos, transpondo a dimensão da zeladoria e produzindo efeitos sociais, econômicos e – sobretudo – ambientais.
Circular pelas praças do centro comercial da Princesa do Sertão, hoje, é bem pouco convidativo. Há sujeira, há equipamentos quebrados, há mato, há árvores mal-cuidadas e quase não há jardins. Há, também, muita insegurança. Ninguém busca as praças como espaços de lazer, entretenimento e socialização. Servem mais como pontos de vans e ônibus, para apressados embarques e desembarques.
Praças bem cuidadas, equipadas, iluminadas e seguras funcionam como atrativo – de forma gratuita - para a população. Nelas, há possibilidade de lazer e de práticas esportivas, o que se reverte em benefícios para a saúde. Também é um importante instrumento de socialização, pois contribui para aproximar as pessoas. Sem contar, claro, os benefícios para o comércio do entorno.
Os impactos sociais e econômicos são mais óbvios e alcançáveis no médio prazo. Há, porém, o complexo e negligenciado impacto ambiental, cujos efeitos são visíveis no mais longo prazo e exigem intervenções contínuas. É o caso de iniciativas de ajardinamento e, sobretudo, plantio e cuidado com as árvores. Qualquer observador sabe o quanto as árvores das praças feirenses estão maltratadas.
Não faz sentido falar em revitalização de praças, portanto, sem o cuidado permanente com suas árvores. Cuidar das árvores existentes, remover aquelas que estão condenadas e plantar novas mudas são atividades que precisam ser incorporadas à rotina da Feira de Santana.
Os efeitos das mudanças climáticas estão aí, sendo sentidos por todo mundo. Creio que, sensibilizada pela realidade que o noticiário traz todos os dias, a gestão municipal pretende promover uma guinada na forma de abordar a questão ambiental. Isso passa pelo cuidado com as árvores nas praças.
Fevereiro chegou com sensação térmica próxima dos 40 graus. Talvez exatamente por isso, o anúncio aconteceu em um momento oportuno.
Em
Salvador fala-se, há anos, sobre a necessidade de revitalizar o comércio de rua
na Baixa dos Sapateiros. Durante muito tempo a via foi o centro mercantil pulsante
da capital. Para ele afluía toda a cidade, em busca dos produtos baratos expostos
em bancas defronte às lojas. Destacava-se, então, entre outros, o segmento de confecções,
com propagandas que se sucediam nas emissoras de tevê.
Aos
poucos, no entanto, o comércio nos bairros foi se oxigenando, subtraindo o
protagonismo da antiga Baixa dos Sapateiros. Liberdade, Calçada, Cidade Baixa e
Itapuã foram consolidando um vibrante comércio de rua, que tornou dispensáveis
os deslocamentos até o Centro Antigo de Salvador. Com a expansão da malha urbana,
regiões ocupadas nas últimas décadas, como Cajazeiras, também ganharam pujantes
núcleos comerciais.
O
movimento não foi exclusivo de Salvador, verificando-se também – muito antes –
em capitais como São Paulo ou o Rio de Janeiro. O fenômeno, porém, irradia-se e
alcança cidades do interior, como a própria Feira de Santana. Quem observa a
dinâmica comercial da Princesa do Sertão percebe.
No
Tomba, a feira-livre que funciona nos finais de semana certamente ajudou a
fecundar o intenso comércio do bairro. Dois fatores adicionais certamente
contribuíram para impulsionar o processo: a população significativa dos bairros
do entorno e a distância do centro da cidade, que desincentiva demorados e onerosos
deslocamentos. Some-se a isso a tradicional precariedade do transporte público.
Fruto
de processo semelhante é o comércio do bairro Cidade Nova. Por lá também há uma
feira-livre tradicional e, no entorno, aos poucos, foram surgindo
estabelecimentos comerciais diversos que, em grande medida, suprem a demanda da
população da região. Note-se também que, nas cercanias, houve um boom
imobiliário há pouco anos.
Mais
recente, mas igualmente vistosa, é a expansão comercial no bairro SIM. Palco de
uma intenso processo de ocupação habitacional e distante do centro, a região reunia,
desde o começo, as condições necessárias para alavancar um polo comercial
autônomo e diversificado. Foi o que aconteceu ao longo dos últimos anos. Por
lá, o comércio fervilha.
Qual
o efeito do fenômeno sobre o comércio de rua do centro da cidade? Um relativo
esvaziamento, já que parte da população compra no próprio bairro, evitando deslocamentos.
É algo que exige mensuração, mas que já é alvo de observações empíricas.
É
claro que, no centro da Princesa do Sertão, concentra-se boa parte dos postos
de trabalho do município e funciona uma ampla rede de serviços públicos e
privados. Sem contar a afluência de visitantes de cidades vizinhas, o que
sustenta o movimento do dia a dia.
Mas
é bom notar que os elementos essenciais do fenômeno observado em outras cidades
também já estão presentes na Feira de Santana. O que é natural, fruto
incontornável da dinâmica urbana. O que fazer, então? É necessário pensar
alternativas que, no médio prazo, convertam-se em um processo estruturado de planejamento
urbano.
Antes
que o centro da Feira de Santana se torne, mais à frente, uma nova Baixa dos
Sapateiros...
Colega
de trabalho e amigo de longa data, o repórter fotográfico Luiz Tito me pediu
para fazer um texto sobre o Rio de Janeiro. Algo positivo, que fugisse do
tradicional noticiário de violência, de crimes, de corrupção. Ano passado fiz
algumas viagens à Cidade Maravilhosa e – tarefa difícil! – fiquei matutando
sobre o que escrever. Os encantos mil estão lá, à vista do visitante,
desafiando-o a lançar um olhar diferente daqueles que já se lançam há tantas
décadas.
Acostumado
a palmilhar centros de cidade – hábito antigo, legado pelos incontáveis
passeios ao comércio da Feira de Santana – pensei em escrever sobre o centro do
Rio Janeiro. Lapa, Santa Teresa, Praça XV, Praça Mauá, Cinelândia, mesmo o
agitado Saara, tudo veio feito onda, mas sem entusiasmar. Escrever sobre
monumentos, patrimônio arquitetônico, fatos históricos é tarefa espinhosa, exige
tempo e estudo. Então, desisti.
A
breve intimidade estabelecida com o Rio de Janeiro, porém, permitiu uma
constatação: nenhuma cidade no Brasil oferece tantas opções de lazer
gratuitamente. Neste cardápio não estão só as praias deslumbrantes ou a
contemplação das montanhas magníficas que circundam a cidade, imortalizadas em
cartões postais.
Depois
de muita hesitação, espasmos de entusiasmo e recuos cautelosos, menciono aqui
três atrações, pouco conhecidas de quem chega de fora. Um deles é o Parque
Penhasco Dois Irmãos, acessível pelo Leblon. Vou poupar quem lê dos detalhes
sobre a subida íngreme – mas por via pavimentada – e as paisagens deslumbrantes
que se sucedem nos mirantes. Pássaros coloridos, macacos e a exuberância da
Mata Atlântica acompanham o visitante.
Trilha
de fato, no coração do Rio de Janeiro, é a do Morro da Catacumba, cujo acesso é
pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá existiu a Favela da Catacumba, removida
décadas atrás. Quem sobe não deixa de perceber o contraste entre o trânsito
infernal da Avenida Epitácio Pessoa e a paz em meio à mata, centenas de metros acima.
Ao fim da caminhada, a recompensa: um mirante de tirar o fôlego que resta, com
vista ampla de Ipanema e da Zona Sul.
Por
fim, a Pista Cláudio Coutinho, que margeia o Morro da Urca e o mar defronte à
Praia Vermelha, em Botafogo. A proximidade do mar dá a sensação de que se está navegando,
numa embarcação, sobretudo quando as ondas se agitam. A estreita faixa de areia,
cercada pelas montanhas limosas, é visível no retorno da trilha, de 1,25
quilômetro. Lá, quem se dispõe, acessa também a trilha do Morro da Urca.
Além
destas, há inúmeras outras opções de passeio no Rio de Janeiro, gratuitas, vivenciadas
ao ar livre. Nenhuma cidade brasileira – repita-se – oferece tantos atrativos a
quem se dispõe ao contato com a natureza, com a fruição ao ar livre. É claro
que o turismo convencional adota outra perspectiva, movida pelo consumo. Neste,
há maior impacto ambiental, diferente de caminhadas e passeios.
Pesquisa
e planejamento são essenciais para se viver estas experiências inesquecíveis. Entusiasmado
por sua cidade natal, o carioca Luiz Tito está certo: o Rio de Janeiro vai
muito além dos clichês sobre violência e corrupção, visíveis no noticiário.
As fotos que ilustram o texto são da Pista Cláudio Coutinho, na Praia Vermelha, em Botafogo.
A
inauguração do novo terminal rodoviário de Salvador, em Águas Claras, atiçou as
discussões sobre uma nova rodoviária também na Feira de Santana. O assunto surgiu
mais como uma reação à obra em Salvador que, propriamente, como um debate estruturado,
com números e argumentos claros em defesa da proposta. Esvaiu-se, portanto, no
vertiginoso suceder de assuntos das mídias eletrônicas.
A
discussão sobre o transporte intermunicipal na Feira de Santana segue como essencial,
mas sob outro viés. Por aqui, não se precisa de uma nova rodoviária, mas
de estruturação e organização das múltiplas “rodoviárias” já existentes,
espalhadas pelo centro da cidade.
Trata-se
dos pontos de embarque e desembarque por meio de vans, micro-ônibus e veículos
de passeio que, todos os dias, transportam milhares de pessoas. Boa parte opera
via cooperativas ou na informalidade. Os destinos são os mais diversos, desde municípios
próximos – como Anguera e Antônio Cardoso – até cidades mais distantes, como
Capim Grosso e Itaberaba.
Há,
ainda, o incessante vaivém da gente dos distritos da Feira de Santana, que,
somados a povoados e pequenas comunidades, contam-se às dezenas. Assim, as
múltiplas “rodoviárias” que embarcam e desembarcam estão em praças, como as do
Tropeiro, Froes da Mota e Matriz e, também, em ruas, como a Papa João 23, Visconde
do Rio Branco e Barão de Cotegipe.
As
múltiplas “rodoviárias” feirenses são bem precárias: não dispõem de cobertura,
nem de assentos – menos ainda de sanitários – e, muitas vezes, nem da
sinalização mais básica. Fica-se de pé, sob sol ou sob chuva. Quem enfrenta
estas viagens intermunicipais conta com até menos conforto que os passageiros do
transporte urbano.
Não,
não defendo a construção de pomposos terminais rodoviários pelo centro da
cidade, com toda a infraestrutura para os viajantes. É óbvio que não se trata
disso. Mas se trata de oferecer um conforto mínimo para quem, afinal, desloca-se
para a Feira de Santana e, aqui, gasta seu dinheiro contribuindo para o desenvolvimento
do município.
Em
Salvador, o transporte para o interior não se dilui pelas diversas regiões da
cidade, como se vê aqui na Feira de Santana. Mas a capital ganhou um merecido –
e moderno – terminal rodoviário. Como se disse, o problema da Feira de Santana
não é de um terminal novo, mas dos múltiplos terminais miúdos que
recebem gente todos os dias.
Sendo
assim, o governo estadual deveria mexer-se, propor um projeto, obviamente em
parceria com a prefeitura, e contribuir para estruturar as múltiplas “rodoviárias”
feirenses. Custaria bem menos que o terminal de Salvador e ajudaria a melhorar
a vida de muita gente.
“E
os recursos?” Indagará alguém. Poderiam vir – por exemplo – das polpudas
emendas parlamentares...
O
tsunami mercantil chinês acelerou-se na segunda metade da década de 2000. À medida
que os produtos chineses se diversificavam e agregavam qualidade, os mercados
mundo afora foram se abrindo. Note-se, porém, que o avanço se deveu não apenas
à qualidade crescente, mas sobretudo aos preços. O engenhoso “Capitalismo de
Estado” chinês produzia com custos baixos e câmbio subvalorizado, o que tornava
seus produtos atrativos.
No
Brasil havia um ingrediente adicional, já mencionado no texto anterior: o
câmbio permanentemente sobrevalorizado e a extorsiva taxa de juros reais, o que
foi letal para boa parte da indústria brasileira. Some-se a isso a ausência de
um projeto – implementado via políticas públicas – para a indústria nacional.
A
conjuntura favoreceu a entrada abundante de produtos chineses no Brasil. Na
Feira de Santana, a condição de entroncamento rodoviário estratégico e
principal polo comercial do interior da Bahia, obviamente atraiu a atenção dos
empresários chineses. O tsunami mercantil, então, ganhou forma, reconfigurando
o centro da cidade, favorecendo o acesso a bens de consumo pela população mais
pobre e tornando os orientais protagonistas do comércio local.
As
transformações suscitadas pelo processo são evidentes. Quem vai ao Feiraguay
percebe que, para além do entreposto, o comércio se irradiou pelas ruas e praças
próximas, dinamizando toda a região. Note-se que não são apenas os produtos
chineses que estão ali, mas muitos empresários estão presentes com suas lojas e
– até mesmo – trabalhadores chineses e coreanos.
O
tsunami mercantil, porém, não se limitou às cercanias da praça Presidente
Médici. Avançou também em direção à histórica rua Conselheiro Franco,
tornando-a uma espécie de embrião da 25 de Março, a rua de comércio popular no
centro de São Paulo, famosa pela presença de comerciantes chineses. Ou à rua da
Alfândega, no centro do Rio de Janeiro ou, ainda, à avenida Sete de Setembro,
em Salvador.
Talvez
seja precipitado comparar a Conselheiro Franco à 25 de Março, no que se refere
à presença mercantil chinesa, mas a famosa artéria feirense também está se
reconfigurando. As lojas tradicionais saíram de cena, arrebatadas pelo tsunami
mercantil chinês.
Não
falta quem alimente sentimentos xenofóbicos no que se refere à presença chinesa
no Brasil. Na relação entre os dois países, porém, há fatos incontornáveis. Um
deles é a sólida parceria comercial. O outro é que, indiscutivelmente, a
entrada dos produtos chineses baratos favoreceu a entrada de milhões de
brasileiros no circuito do consumo de diversos produtos.
Assim,
é necessário constatar que, no jogo mercantil que se dá em via dupla, o Brasil
também vem ganhando muito.