A proposta de redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40, com a adoção da escala 5 por 2 para boa parte dos trabalhadores, empacou no Senado. Na Câmara dos Deputados, apesar das resistências, as discussões andaram, os prazos foram céleres e a aprovação foi esmagadora. Mas Davi Alcolumbre (UB-AP) – presidente do Senado – resolveu colocar o projeto em banho-maria, retardando sua votação pelos senadores.
Noutra frente, senadores da oposição tentam emplacar uma proposta que institui o sistema de trabalho por horas. Nas mídias sociais, foi apelidado de “escala 7 por 0”. O argumento para aprová-lo é o de sempre: livre negociação entre patrões e empregados. Como se trabalhador dispusesse desse poder de barganha para impor suas condições.
O modelo por horas trabalhadas é comum nos Estados Unidos. O valor mínimo é de US$ 7.25, sem férias regulamentadas, sem décimo-terceiro salário, sem vale alimentação ou transporte e sem Fundo de Garantia. Demitir também é mais fácil do que aqui. Inspirados nesse modelo, os representantes do povo em Brasília querem aprovar algo similar, mas com direitos proporcionais, segundo dizem.
A visão que se dissemina sobre os Estados Unidos é sempre a da potência econômica, de um paraíso liberal, de riqueza disseminada. Pouco se sabe sobre a realidade do trabalhador, atual ou pretérita. Muito do que há possui forte ranço ideológico Fui encontrar um relato cru e contundente em Charles Bukowski, poeta e escritor de grande sucesso.
Bukowski relatou, em diversos romances, suas experiências como trabalhador pouco qualificado, às vezes braçal, em dezenas de empresas. Antes de consagrar-se como escritor, permaneceu mais de uma década nos Correios. As longas jornadas, os baixos salários, as condições aviltantes, as demissões frequentes, o desamparo de quem trabalha e a indiferença de quem contrata estão em suas páginas.
Na estreia, em “Cartas da Rua”, ele ofereceu um panorama da realidade dos Correios, onde trabalhava em ritmo frenético durante até 11 ou 12 horas diárias. Para suportar as jornada extensas, as tarefas enfadonhas e os movimentos repetitivos que corroeram sua saúde, ele recorria à bebida nos curtos períodos de folga.
“Factotum”, um dos seus romances mais importantes, narra sua epopeia circulando por diversas cidades dos Estados Unidos em busca de trabalhos precários, disputados por multidões de desvalidos, mesmo no próspero período pós-guerra. Nua e crua, a literatura de Bukowski não oferece espaços para lamentações ou queixas, centrando-se em uma fria e estoica objetividade.
Ao contrário do que muitos podem imaginar, Bukowski não foi comunista, nem exerceu nenhum tipo de militância política. Apenas teve a oportunidade de, a partir funções braçais ou muito modestas, enxergar a realidade do mercado de trabalho norte-americano. Justamente a realidade engendrada pelo modelo que querem copiar por aqui.
Como se, no Brasil, precisássemos de mais precariedade ainda...
O distrito tem um nome bem solene: Governador João Durval Carneiro. Foi rebatizado pela lei estadual 4.224, de 26 de dezembro de 1983, na própria gestão de João Durval, que é natural da localidade. Mas, até hoje, na média, as pessoas costumam chamá-lo de Ipuaçu. Não imagino que nenhuma antipatia ao ex-governador justifique a opção: no fundo, o antigo nome é mais simples e mais poético. Daí a insistência em se utilizá-lo, mesmo tantas décadas depois.
O sul do distrito de Ipuaçu é cercado pelas águas escuras do Rio Jacuípe. Localidades como Cumbe, Mocó, Pedra Funda e Bom Jardim são próximos do rio. O distrito – ao sul da Feira de Santana – contrasta com Bonfim de Feira, Maria Quitéria, Tiquaruçu e Matinha, situados em regiões mais áridas, típicas de Caatinga. Em Ipuaçu há, além do Jacuípe, vegetação típica de Mata Atlântica.
No distrito residem 3.692 pessoas, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. A população é, em sua maioria, negra: pretos (1,3 mil) e pardos (2 mil), coexistem com apenas 323 brancos, menos de 10% dos moradores locais.
O distrito possui a segunda maior extensão territorial da Feira de Santana, com 168 quilômetros quadrados, perdendo apenas para Jaguara. A densidade populacional é baixa: 21,9 habitantes por quilômetro quadrado.
As mulheres são maioria por pequena diferença (51,1% a 48,8%) e o analfabetismo é grande entre os moradores de Ipuaçu: 22,57% da população com idade superior a 15 anos é analfabeta.
A exemplo do que ocorre em outros distritos feirenses, a população de Ipuaçu envelhece e há poucas crianças: menos de 10% dos moradores locais tem idade igual ou inferior a 14 anos. Na faixa acima de 60 anos, por outro lado, estão 9,5% das mulheres e 7% dos homens. Cerca de 7,5% de homens e mulheres tem idade entre 30 e 39 anos, a faixa com maior número de pessoas no distrito.
Na média, Ipuaçu não tem aquelas famílias enormes, comuns em comunidades rurais décadas atrás: cada residência abriga, em média, três pessoas. O que se mantém como no passado é a forma de habitação: 100% das residências de Ipuaçu são casas. Não há apartamentos, casas de vila ou condomínio, nem cortiços ou malocas, para usar as categorias empregadas pelo IBGE.
Em Ipuaçu existe a igreja de Santa Luzia, erguida em 1656. Imagina-se que a ocupação, por lá, começou a partir de surgimento dos primitivos núcleos de povoamento nos limites da Baía de Todos os Santos. Por via fluvial, chegou-se a Ipuaçu. Mas isso é só especulação, porque deu preguiça de pesquisar para confirmar a informação...
Faz muito tempo que, neste espaço, discute-se a escassa arborização da Feira de Santana. Mundo afora, a questão ambiental está incorporada às discussões sobre políticas públicas, por conta das mudanças climáticas e de seus impactos sobre a vida humana. Como boa parte das populações reside em áreas urbanas, é inevitável que a gestão das cidades passe pelo desenvolvimento de políticas que tornem mais confortável a vida nestes ambientes.
Muitas cidades – sobretudo as metrópoles – vem desenvolvendo iniciativas que ajudam a mitigar os efeitos adversos do aquecimento global. É o caso da implantação de corredores verdes, que envolvem faixas contínuas de vegetação planejadas para interligar fragmentos ecológicos. Aplica-se, sobretudo, a regiões de cidades que não dispõem de áreas disponíveis para parques e jardins. Como Feira de Santana, por exemplo.
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traz um diagnóstico nada alentador sobre a presença do verde em áreas públicas da Feira de Santana. Nada menos que 57,4% das residências não dispõem de árvores no entorno; 19,9% contam com, no máximo, duas árvores; 8,6% de três ou quatro árvores e só 13,8% dispõem do privilégio de cinco ou mais árvores.
Considerar os números agregados do município, porém, envolve um problema. Diversa, a cidade abriga múltiplas realidades, o que se observa também em relação à distribuição do verde. Metodologicamente, então, é bom aplicar algum recorte para entender melhor a realidade.
O bairro Capuchinhos, por exemplo, tradicionalmente habitado por gente abastada, enfrenta situação menos dramática. Lá, 30% da população reside onde há cinco ou mais árvores no entorno; 17,8% dispõem de três ou quatro árvores; vivem sem árvores (23%) ou com no máximo duas (28,3%) uma minoria em relação à média da população feirense.
Obviamente, não se pretende exaurir aqui o assunto, menos ainda chegar a conclusões científicas. Mas tome-se como exemplo outro bairro associado à elite local. O cenário no bairro Santa Mônica é menos vistoso, mas mais confortável que a média da cidade. Sem árvores (40,6%) e com apenas uma (25,1%) representam bem menos que o conjunto da cidade. E, claro, supera a média do município as residências com cinco ou mais árvores (18,3%) ou entre três e quatro (15,9%).
E nos bairros em que reside a população mais pobre? Nas Baraúnas, nada menos que 79% das residências não dispõe de nenhuma árvore no entorno; 19,4% contam com, no máximo, duas; só 1,36% contam com três ou quatro árvores e nenhuma residência tem cinco ou mais árvores no entorno. Não é à toa que a população local pena com as ondas de calor.
Bem perto das Baraúnas localiza-se a Queimadinha. Por lá, a realidade não é muito diferente: 69,4% dos imóveis não contam com árvores nas cercanias; em 18,7% há até duas; 5,5% dispõem de três ou quatro árvores e 6,7% são privilegiados, com cinco ou mais árvores. Ironicamente, no passado, os dois bairros possuíam vegetação abundante por abrigarem lagoas.
As informações acima constituem um recorte e não tem validade científica, claro. Mas sinalizam para o que diversos pesquisadores apontam em seus trabalhos: o aquecimento global não atinge as pessoas de maneira uniforme, penalizando sobretudo os mais pobres, que residem em áreas em que o verde é mais escasso.
Em 1986 alimentei grande expectativa em relação à Copa do Mundo que aconteceu no México. Menino, acompanhava atento o noticiário sobre o Mundial, que destacava a competição ainda em meados do ano anterior. Além da televisão, emissoras de rádio, jornais e revistas ofereciam uma ampla cobertura, rica e detalhada. Diferente de agora, naquela época o Mundial mobilizava a torcida com meses de antecedência.
Quatro anos haviam se passado desde que Zico, Sócrates, Falcão e companhia haviam encantado o mundo com seu futebol na Copa de 1982. Mas havia a esperança de que o desempenho se repetisse, dessa vez com o título. O treinador também era o mesmo, Telê Santana, que retornou em função dos apelos da torcida.
Para mim, a copa começou numa ensolarada tarde de domingo no Sobradinho. O placar foi magrinho: 1 a 0 sobre a Espanha, sem o futebol vistoso do Mundial anterior. No jogo seguinte, novo 1 a 0, desta vez sobre a Argélia. Econômica nos gols, sem aquele encantamento de antes, o time pelo menos mantinha uma defesa invicta.
O entusiasmo cresceu com o 3 a 0 sobre a Irlanda do Norte. Naquele jogo, o lateral-direito Josimar fez um golaço e a empolgação cresceu. Que viesse a Polônia, já nas oitavas-de-final. Pois ela veio e a certeza do título cresceu: 4 a 0, com novo golaço de Josimar e um futebol mais solto, contagiante.
Estava muito ansioso para ver Brasil x França. No histórico das copas anteriores, os brazucas tinham aplicado 5 a 2 em 1958. “Está no papo”, pensei, com meu raciocínio de menino. O começo do jogo confirmou minhas expectativas: pressão inicial e o 1 a 0 não tardou, gol de Careca após jogada trabalhada.
Mas aí a partida tomou um rumo que eu não esperava: a França equilibrou o jogo, pressionou e no fim do primeiro tempo empatou, com Platini aproveitando desatenção da defesa brasileira. Que decepção: saí desalentado, disposto a não ver mais o jogo. O convite de um amigo vizinho para ficar flanando pelas ruas próximas, desertas, facilitou a decisão.
As pernas curtas avançavam pelas ruas vazias, mas a cabeça permanecia no jogo. Imprecações, lamentações, gemidos e urros traduziam como o segundo tempo estava sendo tenso, difícil. Curiosamente, nossa vadiagem nos levou às cercanias do estádio Joia da Princesa.
De um bar superlotado de marmanjos bebendo cerveja, perto do estádio, veio uma algazarra infernal. Gol? Não, pênalti para o Brasil. Tenso, aguardei a cobrança à distância, do outro lado da rua. Quem cobraria? Um gordo careca e sem camisa, involuntariamente, nos deu a resposta: “Vai Galinho, vai Zico”, berrou, em êxtase.
Esperei, então, a cobrança e a apoteótica comemoração. Mas, primeiro veio um urro coletivo, caretas de dor. Depois, o mesmo gordo gritou, colérico, indignado: “Filho da puta, filho da puta”. Zico perdera o pênalti e, estranhamente, eu e o amigo decidimos voltar para casa.
Na Rua da Palma a tensão era muito grande. O jogo chegava ao fim e as pessoas temiam a prorrogação, os pênaltis. Tudo parecia tão fácil até aquela partida... Confesso que não lembro se acompanhei as cobranças defronte a tevê em casa, se fiquei na calçada junto com as crianças que não acompanhavam futebol.
Só sei que, dois dias depois, a garoa miúda e fria arrefeceu muito o ânimo infantil na noite de São João. Os adultos bebiam licor para espantar o frio, mas no fundo dos olhos deles eu enxergava, com minha sensibilidade de criança, a frustração de quem curtiu o São João com a Seleção Brasileira já eliminada da Copa...
O cenário foi um mercadinho, um daqueles estabelecimentos comerciais de bairro em Feira de Santana. O cidadão chegou com um garrafão de água e estendeu uma nota de vinte reais. Apressado, o proprietário e dublê de balconista recolheu a nota, abriu a gaveta e ficou examinando as escassas cédulas disponíveis. Recolheu algumas, estendeu o troco.
“Hoje ninguém usa mais dinheiro. É um sufoco nessa hora!”, comentou.
Aproveitou para emendar a observação com o assunto do momento: as ameaças norte-americanas de retaliar instituições financeiras brasileiras, sob o pretexto de combater o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). No bojo das medidas, especulam-se restrições ao Pix.
– Todo mundo paga hoje com Pix. Ninguém usa mais dinheiro. Aí vem aquele lá [Donald Trump] querendo proibir. Um absurdo!
Observei que restrições ao Pix vão favorecer as empresas de cartão de crédito, que são norte-americanas. Pelo menos as maiores delas, as mais aceitas. O sujeito concordou com veemência, acrescentando que as bandeiras dos cartões cobram taxas. Já o Pix, é gratuito, não há taxa de intermediação.
Saí de lá com uma lição: nesse imbróglio – arranjado pelos familiares e acólitos de Jair Bolsonaro, o “mito” – quem sentirá na pele os efeitos tem muita clareza sobre o que está acontecendo. Está menos suscetível às narrativas. A medida alvejará sobretudo os empreendedores, a vasta e diversa categoria que a extrema-direita diz defender há tempos.
Depois daquela conversa saiu a notícia de que o desgoverno Trump estuda sobretaxar produtos brasileiros em 25%. E já entrarão em vigor, nesta semana, medidas contra PCC e CV, que podem servir de pretexto para sanções ao Pix. Afinal, o meio de pagamento foi utilizado em transações realizadas por organizações criminosas, ao que tudo indica.
No fundo, como já foi mencionado, pretende-se atingir o sistema financeiro brasileiro utilizando PCC e CV como pretexto. Só que os impactos são abrangentes, com potencial de alcançar boa parte da população brasileira, caso as ameaças se efetivem. Calculo que será necessário muito malabarismo para a extrema-direita explicar tanta efusão para celebrar medidas que vão contra o Brasil.
No provável conturbado segundo semestre, quando acontecerão as eleições presidenciais, a ingerência norte-americana, a depender da escala, pode produzir o caos por aqui. O que seria excelente para quem pretende chegar ao poder sem passar pelo crivo das urnas...