Há guerras que avançam por conquistas territoriais. Outras
avançam por erosão psicológica. A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou, há muito
tempo, nessa segunda fase. O drone
russo que atingiu um edifício residencial em Galati, na Romênia, não abriu
apenas um buraco num bloco de apartamentos às margens do Danúbio. Abriu uma
fissura conceitual no coração estratégico da Europa: até onde vai a guerra
antes que a Otan seja obrigada a admitir que já está dentro dela?
O detalhe mais perturbador do episódio talvez não seja a
explosão. Nem mesmo os civis feridos. É o intervalo de tempo. Quatro minutos.
Foi esse o tempo disponível entre a detecção do drone e o impacto. Quatro minutos para radares identificarem a
ameaça, para operadores militares decidirem protocolos, para autoridades
ponderarem regras de engajamento e, finalmente, para nada acontecer.
A frase do general romeno Gheorghe Maxim sintetiza a tragédia
estratégica contemporânea: “A Ucrânia está em guerra, mas a Romênia está em paz”.
A declaração parece lógica. Mas, talvez, já não corresponda à realidade. Porque
o que se vê, hoje, no leste europeu é uma condição híbrida inédita: países
formalmente em paz convivendo, diariamente, com fenômenos típicos de guerra.
Drones atravessam fronteiras, sinais
eletrônicos bloqueiam sistemas civis, cabos submarinos sofrem sabotagens
misteriosas, satélites são perturbados, aeroportos interrompem operações,
navios mercantes mudam rotas e populações vivem sob alertas constantes, sem que
exista uma declaração formal de conflito.
A guerra moderna dissolveu as fronteiras jurídicas que antes
separavam paz e combate. A Otan compreende isso. Por isso a reação foi tão
rápida. Mark Rutte falou em “comportamento imprudente”. Ursula von der Leyen
afirmou que Moscou “ultrapassou mais um limite”. Mas a escolha das palavras
revela um cuidado quase cirúrgico. Nenhum líder europeu deseja utilizar termos
que obriguem a aliança atlântica a responder militarmente, de maneira direta.
Eis o paradoxo: a Otan precisa demonstrar força sem agir de forma que
transforme incidentes fronteiriços em escalada nuclear.
Essa tensão explica o caráter estranho da defesa aérea no
leste europeu. Os caças existem. Os radares existem. Os drones são detectados. Mas as regras políticas tornam a reação
lenta, limitada ou, simplesmente, impossível. O resultado é uma espécie de “dissuasão
impotente”: enorme capacidade militar combinada com mínima liberdade
operacional.
Moscou percebe isso. A Rússia compreendeu que o grande campo
de batalha contemporâneo não é apenas o território ucraniano, mas a zona
cinzenta psicológica da Europa. Cada drone
que cruza uma fronteira da Otan testa não apenas sistemas antiaéreos, mas,
sobretudo, a coesão política da aliança. A pergunta implícita é sempre a mesma:
quantos incidentes são necessários até que o Artigo 5º deixe de ser uma
abstração diplomática e se transforme numa obrigação militar real?
Por enquanto, a resposta ocidental parece ser: ainda não chegamos
lá. Mas o episódio de Galati introduz um elemento novo. Até aqui, fragmentos de
drones já haviam caído em países da Otan.
Agora, houve feridos civis dentro de um edifício residencial. A guerra deixou
de ser ruído distante para se materializar dentro de apartamentos europeus.
Existe, ainda, uma dimensão geográfica frequentemente
ignorada. O delta do Danúbio tornou-se um dos pontos mais delicados do continente.
Os portos ucranianos de Reni e Izmail converteram-se em alvos constantes,
porque representam rotas essenciais de exportação após o bloqueio parcial do
Mar Negro. Isto cria um problema quase insolúvel: drones russos operam, literalmente, colados ao espaço aéreo da
Romênia.
Na prática, a Otan enfrenta uma situação absurda: possui
superioridade tecnológica esmagadora, mas opera dentro de restrições políticas
que lhe impedem de agir com liberdade total. A Rússia, por outro lado, explora
exatamente essas hesitações.
O resultado é uma guerra de nervos. Talvez, seja esse o
verdadeiro significado estratégico do incidente em Galati. Não se trata apenas
de um drone fora de rota. Trata-se da
transformação gradual da Europa Oriental numa vasta zona de atrito permanente,
um espaço onde paz e guerra coexistem simultaneamente. E, talvez, o dado mais
inquietante seja, justamente, este: o continente começa a se acostumar.