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Wellington Freire

A Rússia já não luta apenas na Ucrânia - ela luta contra o Ocidente inteiro

Wellington Freire - 27 de Maio de 2026 | 06h 58
A Rússia já não luta apenas na Ucrânia - ela luta contra o Ocidente inteiro

Durante muito tempo, líderes europeus insistiram em interpretar a guerra da Ucrânia como um conflito regional. Uma disputa territorial limitada ao espaço pós-soviético. Uma guerra de fronteiras. Mas os acontecimentos recentes demonstram algo muito maior: Moscou já não combate apenas Kiev. A Rússia passou a enfrentar o próprio sistema estratégico do Ocidente.

A declaração da diretora do GCHQ (Quartel-General de Comunicações do Governo Britânico), Anne Keast-Butler, afirmando que a Rússia “ataca implacavelmente infraestruturas críticas, processos democráticos, cadeias de abastecimento e a confiança pública”, possui enorme significado histórico. Não se trata apenas de espionagem tradicional. Trata-se da consolidação de uma guerra híbrida permanente entre Moscou e a ordem atlântica.

A frente de batalha contemporânea já não termina nas trincheiras de Donetsk. Ela se estende até Londres, Varsóvia, Berlim, Bruxelas e o Mar do Norte. A transformação mais importante da guerra moderna talvez seja exatamente esta: a dissolução das fronteiras entre guerra e paz. No século XX, conflitos começavam com declarações formais e invasões visíveis. Hoje, Estados podem atacar uns aos outros sem jamais reconhecer oficialmente que estão em guerra. A Rússia opera precisamente nesse espaço cinzento. Não é necessário bombardear Londres para atingir o Reino Unido. Basta atacar: redes elétricas; sistemas bancários; cadeias logísticas; A guerra híbrida permite desgastar adversários sem desencadear imediatamente uma resposta militar direta da OTAN.

É nesse contexto que devem ser entendidos episódios aparentemente desconexos das últimas duas décadas: o assassinato de Alexander Litvinenko com polônio radioativo; a tentativa de assassinato de Sergei Skripal com o agente químico Novichok; os ataques cibernéticos contra infraestruturas europeias; as campanhas digitais de desinformação; e até a atuação da chamada “frota paralela” russa para driblar sanções internacionais.

Nada disso é isolado. Tudo faz parte de uma mesma lógica estratégica: pressionar o Ocidente abaixo do limiar da guerra convencional. A Rússia compreendeu algo que muitas democracias ainda relutam em aceitar: sociedades abertas são extremamente vulneráveis à sabotagem contínua. Democracias dependem de estabilidade econômica, confiança institucional e normalidade cotidiana. Quando essas estruturas começam a falhar, mesmo parcialmente, instala-se um desgaste psicológico coletivo.

Por isso a guerra híbrida é tão eficiente. Ela transforma energia em arma geopolítica. Transforma redes sociais em campo de batalha. Transforma hackers em unidades estratégicas. Transforma migrantes, navios mercantes, vazamentos de informação e até algoritmos em instrumentos de poder estatal. A antiga distinção entre civil e militar começa a desaparecer.

Hoje, um cabo submarino de internet possui importância estratégica semelhante à de uma ferrovia durante a Segunda Guerra Mundial. Um ataque digital pode produzir danos econômicos equivalentes aos de um bombardeio convencional. Um drone barato pode gerar efeitos psicológicos desproporcionais sobre cidades inteiras. A própria noção de retaguarda praticamente deixou de existir.

Guerras híbridas raramente possuem fronteiras definidas ou armistícios claros. Elas avançam lentamente pelos sistemas nervosos das sociedades modernas: energia, informação, logística, finanças e comunicação. A guerra do século XXI talvez não seja marcada pelo avanço de colunas blindadas sobre capitais inimigas. Talvez seja definida pela capacidade de paralisar infraestrutura, manipular informação, sabotar economias e corroer a confiança pública.

E nesse novo tipo de guerra, a distância entre Donetsk e Londres tornou-se muito menor do que imaginávamos.



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