Ser ingênuo é agir com inocência, franqueza e sem malícia. É uma característica de quem confia facilmente nas pessoas e não costuma suspeitar de segundas intenções. Embora demonstre um bom coração, essa falta de senso crítico pode deixar a pessoa mais vulnerável a ser enganada. Eis uma das definições para a palavra.
Dizem que Brasília não é para amadores. Há razões óbvias para tal afirmação. Mas ventilar que um ingênuo não pode ser presidente do Brasil é afirmar que apenas os intelectuais, espertalhões, os gatunos, aqueles que tem a índole do atual presidente estão aptos, preparados para ocupar o cargo. Claro, não aqui estou focado nas questões ideológicas, mas comportamentais. Isto é preconceito.
Conversas do candidato a presidência Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro foram divulgadas pela imprensa. Pedia dinheiro para o filme sobre o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, O que esta turma tem de conversas gravadas e vídeos comprometedores de autoridades palacianas não está no gibi. Será que participar das ditas festas do cabide promovida por Vorcaro foi ingenuidade?Recebê-lo, com ares de ilegalidade neste encontro, para conversar sabe-se la qual o assunto, é ingenuidade?
Flávio Bolsonaro vai ter que enfrentar a máquina trituradora de reputações que o PT aciona sempre que o seu candidato não está como protagonista em uma disputa – quem não se lembra a que reduziram Marina Silva quando ela ameaçou a eleição de Dilma. Bem que tentaram fazer o mesmo com Jair Bolsonaro, mas não conseguiram. Todos sabem que escrúpulo passa longe das barricadas esquerdistas.
Que Flávio se prepare para os embates. Partiu para cima da esquerda, desafiando-a a assinar a CPMI do Master. Deputados e senadores comprometidos com o sistema fogem da lista como o diabo da cruz. Comentaristas e jornalistas de esquerda não os perguntam ou escrevem sobre o por que da recusa, mas sabem a reposta. Quem a assinar o chefe vai puxar as orelhas, dar uma dúzia de bolos de palmatória, mais umas lapadas com uma peia nas costelas.
Terá que responder e ser convincente nas respostas às acusações que lhe pesam sobre os ombros – lógico que grande parte da imprensa, sem focar em questões ideológicas, não vê nada demais nas acusações que condenaram um certo sacerdote dono de uma certa ideologia que em nome da democracia comete os mais abjetos crimes contra ela. É um sujeito sem defeitos? Pau de galinheiro.
Não seria justo chamar de ingênuo ao extremo o eterno candidato da esquerda ao Planalto, com toda sua malandragem, esperteza, nunca saber de nada de ruim que acontece no seu entorno, envolvendo diretamente familiares, ministros e correligionários? Se ele nada vê ou sabe, nada que lhe atinge. E assim pensam os seus seguidores, intelectualmente bloqueados de pensar diferentes ou falar alguma coisa que vá contra as determinações da organização partidária.
Claro que Lula nada sabe das falcatruas de ex-ministros seus com o banqueiro Daniel “Master” Vorcaro, com o Petrolão, Mensalão, com o "INSSzão" no currículo – o "sufixo ão", na Ásia, denota pertencimento, apenas convence os idiotas úteis que formam a militância do partido. Portanto, todos os escândalos não tem apenas as digitais da esquerda caviar, mas a alma partidária. Eram ingênuos os políticos, de todos os aspectos partidários, que buscavam recursos disponíveis pelos irmão Baptista?
Flávio explicou aos pares os contatos com Daniel Vorcaro por não ser dono de legenda. Como não tem poder, e nem deveria, para impor suas versões, e exigir que todos a aceitem como verdades, colocou na mesa sua história. No outro lado, a ninguém é dado o direito de contestar as verdades, versões dos fatos e narrativas que o grande líder, o timoneiro apresente, mesmo que estejam pejadas de mentiras.
Ser ingênuo é acreditar no que Lula diz, que de nada sabe, que é inocente dos crimes que o condenaram à cadeia e que a esquerda é um espectro político que prioriza a justiça social, a igualdade de oportunidades e a redução das desigualdades. Se assim pensa, és um ingênuo irremediável e merece ter o presidente que aí está. Se o ingênuo não pode ser presidente, Sancho Pança nunca seria. Mas Lupin, com seu charme, se elegeria com folga – e no primeiro turno.
*JOÃO BATISTA CRUZ DE SOUZA É JORNALISTA, UM DOS FUNDADORES DO JORNAL TRIBUNA FEIRENSE E EX-SECRETÁRIO MUNICIPAL DE COMUNICAÇÃO