Em tempos de Copa do Mundo, o otimismo é uma arma poderosa. A arrogância que volta de quatro em quatro anos às mãos de um povo acostumado à lata de lixo funciona como uma espécie de respiro para toda uma nação. Não é fácil se preparar para a soberba; existe um modus operandi milimetricamente pensado para experienciar esse momento de valentia coletiva.
Frases como “Nós temos cinco!”, “Pelé fez mil gols” e “Todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta” fazem parte do vocabulário do exército verde e amarelo — por vezes azul — que vive esse momento de unidade. Mais do que ninguém, nós merecemos. É raro sermos os melhores; nessas raras oportunidades, temos que apunhalar o cutelo e girar até faze-lo sangrar.
Pode parecer agressivo, eu sei, mas já se viu euforia de paz?
A humildade em Copas do Mundo nunca foi exatamente o forte do povo brasileiro. Mas isso é relativamente recente. Ou melhor, corrigindo minhas próprias palavras: trata-se de um ciclo repetitivo de altos e baixos causado por tragédias anunciadas.
Há quem diga que a Seleção nunca mais foi a mesma depois do 7 a 1. Eu nunca vi essa moral abalada da forma como relatam. O vexame é inesquecível, mas não me impressiona. Apesar de haver, sim, uma ferida aberta, estamos falando mais de vergonha do que da famosa quebra de salto alto. E as quedas costumam ensinar mais do que as humilhações.
Para falar mesmo de construção de caráter, precisamos voltar a 1950. Como adoro fazer isso.
O Maracanazo tem tomado grande parte do meu tempo nos últimos dias. Que fenômeno interessantíssimo. Um roteiro irretocável de barba, cabelo e bigode, com direito a um herói improvável, um patinho feio e a queda de um império construído sobre a soberba.
A Copa acontecia no Brasil e a seleção contava com um time estrelado. “O Esquadrão de Ouro”, como a chamavam. E ainda assim isso foi quebrado.
A decisão aconteceu em um Maracanã com mais de 200 mil pessoas. Um prefácio de uma arena sangrenta, a verdadeira arquibancada de um Coliseu moderno. Os jornais já estampavam, um dia antes da partida: “Eis os campeões do mundo”.
A Seleção havia sido coroada antes mesmo de a bola rolar.
E então veio a lembrança de que a justiça talvez exista.
Em um chute quase sem ângulo, contando com a infelicidade do goleiro Barbosa, Alcides Edgardo Ghiggia silenciou o estádio. Fez 2 a 1 para o Uruguai e conquistou o título mais improvável da história. “Apenas três pessoas calaram o Maracanã: O Papa, Frank Sinatra e eu” era o que dizia nosso Perseu cisplatino após o último voo da seleção charrua.
Talvez as expressões “pés no chão” e “respeitar o adversário” tenham nascido naquele dia. Ou, pelo menos, tenham se tornado unanimidade em território nacional depois dele.
Após o acontecido, mudamos radicalmente. Nem de branco jogamos mais. Hoje vestimos amarelo ou azul. O branco eterno do Maracanazo permanece proibido até segunda ordem.
Às vezes, a decepção vem para colocar as coisas no lugar. Para promover a volta uma consciência real limitadora.
Eu amo o Maracanazo porque amo a Seleção Brasileira. Já sabemos o que acontece depois dele.
Texto do escritor e jornalista Dudu Machado, para o Tribuna Feirense.