Os jornais anunciam tratados. Os governos anunciam cessar-fogos. Os mercados comemoram. Os diplomatas sorriem diante das câmeras. Por alguns dias, talvez algumas semanas, instala-se a sensação de que a tempestade passou. Os comentaristas falam em "novo capítulo", os investidores celebram a redução dos riscos e as sociedades exaustas permitem-se acreditar que o pior ficou para trás.
Mas a história, assim como eu, possui o desagradável hábito de desconfiar das celebrações prematuras. Ela sabe que a maioria das guerras não termina realmente quando os homens proclamam a paz apenas muda de forma.
Convido o leitor a observar o Oriente Médio neste exato momento. Os Estados Unidos e o Irã anunciam um acordo destinado a encerrar uma das mais perigosas crises internacionais das últimas décadas. O estreito de Hormuz, cuja interrupção ameaçou o comércio global, caminha para uma reabertura gradual. Os mercados respiram aliviados. O espectro de uma guerra regional de grandes proporções parece ter recuado.
Contudo, basta olhar um pouco além dos comunicados oficiais para perceber que a paisagem permanece repleta de brasas acesas. O Hezbollah continua armado. As tropas israelenses continuam ocupando partes do sul do Líbano. A navegação em Hormuz ainda depende da remoção de minas marítimas. As disputas entre Teerã e seus adversários permanecem vivas. E, enquanto isso, milhares de quilômetros ao norte, a guerra na Ucrânia prossegue sem qualquer perspectiva clara de encerramento.
O que exatamente terminou? Talvez muito menos do que os anúncios sugerem.
Existe uma tendência recorrente, especialmente nas sociedades modernas, de imaginar a paz como uma condição definitiva. Como se os conflitos fossem acidentes temporários numa ordem naturalmente estável. Como se fosse possível estabelecer um momento preciso em que a guerra termina e a normalidade retorna.
Os historiadores, porém, costumam enxergar as coisas de maneira diferente. Eles sabem que os tratados raramente eliminam as causas profundas dos conflitos. Na melhor das hipóteses, administram seus sintomas. Congelam tensões. Criam mecanismos de contenção. Compram tempo. Mas o tempo não é a mesma coisa que a solução.
O Congresso de Viena, em 1815, prometia encerrar a era das guerras revolucionárias e napoleônicas. Conseguiu preservar uma relativa estabilidade europeia durante décadas. Ainda assim, sob a superfície da ordem restaurada, nacionalismos, rivalidades imperiais e disputas territoriais continuaram se acumulando até explodirem em novas crises.
O Tratado de Versalhes, em 1919, foi apresentado como a paz que encerraria todas as guerras. Menos de vinte anos depois, o mundo mergulhava em um conflito ainda mais devastador.
Mesmo a Guerra Fria, frequentemente descrita como um período de estabilidade estratégica, esteve repleta de conflitos indiretos, guerras civis, insurgências e disputas regionais que produziram milhões de mortos.
A paz, vista de perto, raramente é tão pacífica quanto parece.
Clausewitz talvez compreendesse isso melhor do que ninguém. Sua famosa definição da guerra como continuação da política por outros meios costuma ser citada à exaustão. Menos lembrada é a implicação inversa dessa ideia: a política frequentemente continua a guerra por meios diferentes.
Quando os combates cessam, as disputas não desaparecem. Mudam de terreno. Saem das trincheiras e entram nas negociações. Abandonam os campos de batalha para reaparecer nos mercados, nos tribunais internacionais, nos corredores diplomáticos ou nas campanhas de influência. Os instrumentos mudam. Os interesses permanecem.
É por isso que regiões como o Oriente Médio parecem viver em permanente estado de transição. Não porque estejam condenadas à guerra, mas porque carregam uma enorme concentração de conflitos históricos ainda não resolvidos.
Questões religiosas. Disputas territoriais. Memórias de derrotas. Humilhações nacionais. Ambições geopolíticas. Nenhum acordo assinado em uma mesa de negociações consegue apagar instantaneamente esse patrimônio de ressentimentos acumulados.
A mesma observação vale para a Ucrânia. Ainda que um cessar-fogo fosse assinado amanhã, ele não eliminaria os problemas que alimentaram a guerra. Apenas inauguraria uma nova fase da disputa.
Talvez o maior erro dos contemporâneos seja confundir silêncio com reconciliação. Os campos de batalha silenciam. Os exércitos recolhem-se. Os mercados recuperam a confiança. Mas a história continua trabalhando em profundidade.
Por isso, os historiadores costumam olhar para os tratados com menos entusiasmo do que os diplomatas. Eles sabem que os documentos celebrados como marcos da paz frequentemente se transformam, anos depois, nos prólogos de novos conflitos.
Os homens gostam de acreditar que encerraram uma guerra. A história, porém, costuma responder com ironia. Porque aquilo que uma geração chama de paz muitas vezes será reconhecido pelas gerações futuras apenas como um intervalo entre duas batalhas.
E talvez esta seja uma das verdades mais desconfortáveis da experiência humana: toda paz carrega, silenciosamente, a próxima crise dentro de si. Afinal, as guerras terminam nos mapas e nos comunicados oficiais. Mas raramente terminam na memória, nos interesses e nas ambições dos homens.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar uma discussão sobre História Militar Moderna do Oriente Médio uma boa introdução está em\: FISK, Robert. Pobre Nação: As Guerras do Líbano no Século XX. Rio de Janeiro: Record, 2007