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Wellington Freire

A guerra da Ucrânia como laboratório chinês

WELLINGTON FREIRE - 19 de Maio de 2026 | 14h 15
A guerra da Ucrânia como laboratório chinês
Foto: BBC

A guerra na Ucrânia não é observada atentamente apenas em Washington, Bruxelas ou Moscou. Em silêncio, Pequim talvez seja um dos atores que mais aprendem com o conflito. Enquanto cidades são destruídas no Donbass e soldados morrem nas trincheiras do leste europeu, estrategistas chineses tomam notas.

Para a China, a guerra tornou-se um gigantesco laboratório geopolítico. Não porque China deseje necessariamente repetir o modelo russo, mas porque o conflito oferece uma rara oportunidade de estudar, em tempo real, como o Ocidente reage a guerras entre grandes potências no século XXI. Cada sanção econômica, cada pacote militar enviado à Ucrânia, cada oscilação da OTAN e cada dificuldade logística observada no campo de batalha convertem-se em material de análise para Pequim.

A liderança chinesa compreende que a guerra moderna já não se limita a tanques e infantaria. Ela envolve cadeias produtivas, sistemas financeiros, tecnologia, informação, opinião pública global e capacidade industrial prolongada. A Ucrânia revelou algo decisivo: conflitos contemporâneos são guerras de resistência econômica tanto quanto de poder militar.

E isso interessa diretamente à China. A principal questão estratégica chinesa continua sendo Taiwan. Pequim observa a Ucrânia como quem analisa um possível ensaio indireto para futuras crises no Indo-Pacífico. Não porque os cenários sejam idênticos, não são, mas porque ambos envolvem disputas territoriais, rivalidade com os Estados Unidos e risco de confronto entre potências nucleares.

Os chineses observam, por exemplo, a velocidade e intensidade das sanções ocidentais contra a Rússia. O congelamento de reservas internacionais russas produziu enorme impacto em Pequim. Ali, muitos compreenderam que dependência excessiva do sistema financeiro ocidental representa vulnerabilidade estratégica. Não por acaso, a China acelera iniciativas de desdolarização, amplia acordos bilaterais em moedas nacionais e fortalece sistemas financeiros paralelos.

Outro aprendizado central está nos drones. A guerra da Ucrânia mostrou ao mundo que equipamentos relativamente baratos podem destruir blindados multimilionários e transformar completamente a dinâmica do campo de batalha. Pequim acompanha cuidadosamente o uso de drones suicidas, vigilância em tempo real, inteligência artificial aplicada à guerra e integração entre satélites, sensores e artilharia de precisão. 

Talvez nenhum conflito recente tenha revelado de maneira tão brutal a transformação tecnológica da guerra.

Há, ainda, a dimensão psicológica e informacional. A Rússia descobriu que guerras contemporâneas são travadas simultaneamente nas trincheiras e nas redes sociais. Narrativas tornaram-se armas estratégicas. Vídeos, imagens, vazamentos e campanhas digitais passaram a moldar percepções globais quase em tempo real. Pequim observa isso com enorme atenção, sobretudo porque compreende que uma eventual crise envolvendo Taiwan seria também uma batalha de legitimidade internacional.

Ao mesmo tempo, a guerra oferece à China a possibilidade de estudar limitações russas. Existe, aqui, uma ironia histórica poderosa. Pequim percebeu dificuldades logísticas de Moscou, problemas de coordenação militar, dependência excessiva de armamentos tradicionais e desgaste econômico prolongado. A relação sino-russa permanece estratégica, mas não é sentimental. Os chineses aprendem inclusive com os erros do aliado.

A Rússia luta uma guerra devastadora acreditando desafiar a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Mas talvez o principal beneficiário indireto desse conflito seja justamente a China, que acumula experiência estratégica sem disparar um único tiro.

Enquanto Moscou consome homens, recursos e prestígio internacional, Pequim aprende. Aprende sobre sanções. Aprende sobre guerra híbrida. Aprende sobre resistência econômica. Aprende sobre tecnologia militar. E aprende, sobretudo, sobre os limites do poder ocidental diante de conflitos prolongados. A guerra da Ucrânia pode estar moldando não apenas o destino da Europa, mas também o futuro equilíbrio de poder na Ásia.



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