Durante décadas, os desfiles
militares na Praça Vermelha funcionaram como uma espécie de teatro do poder
imperial russo. Não eram apenas cerimônias patrióticas. Eram encenações
estratégicas. Colunas de tanques atravessando Moscou, mísseis intercontinentais
deslizando, lentamente, diante das muralhas do Kremlin, formações mecânicas
perfeitamente sincronizadas, tudo aquilo comunicava uma ideia muito específica:
a de um Estado cuja força podia ser vista.
O poder militar moderno sempre
dependeu da visibilidade. O século XX foi, em grande medida, a era da guerra
espetacular. A guerra dos grandes objetos. Couraçados gigantescos, esquadrilhas
de bombardeiros, colunas blindadas, porta-aviões monumentais. A potência de uma
nação era medida pela capacidade de exibir massa, aço e movimento. O tanque
tornou-se o grande símbolo visual dessa civilização militar industrial.
Não por acaso, a União Soviética
transformou o T-34 quase num ícone civilizacional. O blindado que atravessou
Berlim em 1945 condensava a narrativa épica da vitória soviética: força
mecânica, resistência coletiva e avanço irresistível da indústria de guerra. O
tanque era mais do que uma arma; era uma metáfora histórica.
Por isso o recente desfile russo sem
tanques possui um significado que ultrapassa a mera logística militar. O vazio
das colunas blindadas revela uma mutação profunda na própria natureza da guerra
contemporânea. Os tanques não desapareceram apenas porque muitos foram
destruídos na Ucrânia ou porque Moscou teme ataques durante as comemorações.
Eles desaparecem porque a centralidade simbólica do campo de batalha mudou.
Hoje, o instrumento decisivo da
guerra já não é necessariamente aquilo que impressiona os olhos. O drone sintetiza essa transformação.
Pequeno, silencioso, frequentemente invisível, operado a quilômetros de
distância, ele representa uma ruptura estética na história militar.
Diferentemente do tanque, o drone não
desfila bem. Não produz majestade visual. Não encarna heroísmo épico. Seu poder
reside justamente na ausência de teatralidade.
A guerra entrou numa era de
invisibilidade operacional. Os vídeos da guerra na Ucrânia ilustram isso de
forma brutal. Em vez de grandes ofensivas cinematográficas, vemos imagens
granuladas captadas por câmeras aéreas: um veículo isolado destruído num campo
vazio, soldados correndo entre crateras, explosões súbitas vistas de cima como
se fossem coordenadas abstratas num videogame sombrio. A guerra tornou-se fragmentária,
remota e tecnicamente impessoal.
Há aqui uma transformação histórica
comparável a outra grande ruptura militar do passado: o declínio da cavalaria
aristocrática na Antiguidade. Durante séculos, o cavaleiro representou o ideal
heroico da guerra. O guerreiro montado condensava status social, prestígio e excelência militar. Da aristocracia
homérica aos companheiros de Alexandre, o combate estava profundamente ligado à
visibilidade individual do herói. A guerra era espetáculo de coragem pessoal.
Mas a ascensão da infantaria massiva
alterou esse paradigma. As falanges gregas e, depois, as legiões romanas
reduziram progressivamente o espaço do heroísmo individual. A eficiência
coletiva começou a substituir o brilho aristocrático do guerreiro singular. O
combate tornou-se mais disciplinado, mecânico e anônimo.
Algo semelhante ocorre agora. O drone elimina progressivamente o
imaginário heroico herdado da guerra industrial. O operador que destrói um
blindado talvez esteja sentado a centenas de quilômetros do alvo, olhando para
uma tela. Não há carga de cavalaria. Não há avanço glorioso de colunas
blindadas. Não há sequer contato visual com o inimigo.
A guerra moderna caminha para uma
condição paradoxal: torna-se cada vez mais letal e cada vez menos épica. Isso
produz consequências culturais profundas. Durante o século XX, as grandes
potências legitimavam sua força por meio do espetáculo militar. Desfiles,
filmes de guerra, cartazes patrióticos e monumentos exaltavam a grandiosidade
visual da máquina bélica. A própria ideia de superpotência estava ligada à
capacidade de impressionar.
Mas como transformar drones em símbolos emocionais
duradouros? Como construir mitologias heroicas em torno de algoritmos, sensores
e ataques remotos? Talvez estejamos testemunhando o fim da guerra como
espetáculo de massa. O futuro do combate pode ser tecnicamente eficiente, mas
visualmente anticlimático. Menos colunas triunfais, mais operações invisíveis.
Menos heroísmo cinematográfico, mais destruição automatizada.
O desaparecimento dos tanques da Praça Vermelha talvez simbolize exatamente isso: não apenas o desgaste russo na Ucrânia, mas o encerramento gradual de toda uma era estética da guerra. O século XX venerava máquinas monumentais. O século XXI parece preferir máquinas discretas. E talvez nenhuma transformação revele tanto sobre nosso tempo quanto essa passagem do poder visível para o poder invisível.