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Wellington Freire

A guerra dos drones e o fim do espetáculo militar

Wellington Freire - 09 de Maio de 2026 | 07h 00
A guerra dos drones e o fim do espetáculo militar
Foto: Reprodução

Durante décadas, os desfiles militares na Praça Vermelha funcionaram como uma espécie de teatro do poder imperial russo. Não eram apenas cerimônias patrióticas. Eram encenações estratégicas. Colunas de tanques atravessando Moscou, mísseis intercontinentais deslizando, lentamente, diante das muralhas do Kremlin, formações mecânicas perfeitamente sincronizadas, tudo aquilo comunicava uma ideia muito específica: a de um Estado cuja força podia ser vista.

O poder militar moderno sempre dependeu da visibilidade. O século XX foi, em grande medida, a era da guerra espetacular. A guerra dos grandes objetos. Couraçados gigantescos, esquadrilhas de bombardeiros, colunas blindadas, porta-aviões monumentais. A potência de uma nação era medida pela capacidade de exibir massa, aço e movimento. O tanque tornou-se o grande símbolo visual dessa civilização militar industrial.

Não por acaso, a União Soviética transformou o T-34 quase num ícone civilizacional. O blindado que atravessou Berlim em 1945 condensava a narrativa épica da vitória soviética: força mecânica, resistência coletiva e avanço irresistível da indústria de guerra. O tanque era mais do que uma arma; era uma metáfora histórica.

Por isso o recente desfile russo sem tanques possui um significado que ultrapassa a mera logística militar. O vazio das colunas blindadas revela uma mutação profunda na própria natureza da guerra contemporânea. Os tanques não desapareceram apenas porque muitos foram destruídos na Ucrânia ou porque Moscou teme ataques durante as comemorações. Eles desaparecem porque a centralidade simbólica do campo de batalha mudou.

Hoje, o instrumento decisivo da guerra já não é necessariamente aquilo que impressiona os olhos. O drone sintetiza essa transformação. Pequeno, silencioso, frequentemente invisível, operado a quilômetros de distância, ele representa uma ruptura estética na história militar. Diferentemente do tanque, o drone não desfila bem. Não produz majestade visual. Não encarna heroísmo épico. Seu poder reside justamente na ausência de teatralidade.

A guerra entrou numa era de invisibilidade operacional. Os vídeos da guerra na Ucrânia ilustram isso de forma brutal. Em vez de grandes ofensivas cinematográficas, vemos imagens granuladas captadas por câmeras aéreas: um veículo isolado destruído num campo vazio, soldados correndo entre crateras, explosões súbitas vistas de cima como se fossem coordenadas abstratas num videogame sombrio. A guerra tornou-se fragmentária, remota e tecnicamente impessoal.

Há aqui uma transformação histórica comparável a outra grande ruptura militar do passado: o declínio da cavalaria aristocrática na Antiguidade. Durante séculos, o cavaleiro representou o ideal heroico da guerra. O guerreiro montado condensava status social, prestígio e excelência militar. Da aristocracia homérica aos companheiros de Alexandre, o combate estava profundamente ligado à visibilidade individual do herói. A guerra era espetáculo de coragem pessoal.

Mas a ascensão da infantaria massiva alterou esse paradigma. As falanges gregas e, depois, as legiões romanas reduziram progressivamente o espaço do heroísmo individual. A eficiência coletiva começou a substituir o brilho aristocrático do guerreiro singular. O combate tornou-se mais disciplinado, mecânico e anônimo.

Algo semelhante ocorre agora. O drone elimina progressivamente o imaginário heroico herdado da guerra industrial. O operador que destrói um blindado talvez esteja sentado a centenas de quilômetros do alvo, olhando para uma tela. Não há carga de cavalaria. Não há avanço glorioso de colunas blindadas. Não há sequer contato visual com o inimigo.

A guerra moderna caminha para uma condição paradoxal: torna-se cada vez mais letal e cada vez menos épica. Isso produz consequências culturais profundas. Durante o século XX, as grandes potências legitimavam sua força por meio do espetáculo militar. Desfiles, filmes de guerra, cartazes patrióticos e monumentos exaltavam a grandiosidade visual da máquina bélica. A própria ideia de superpotência estava ligada à capacidade de impressionar.

Mas como transformar drones em símbolos emocionais duradouros? Como construir mitologias heroicas em torno de algoritmos, sensores e ataques remotos? Talvez estejamos testemunhando o fim da guerra como espetáculo de massa. O futuro do combate pode ser tecnicamente eficiente, mas visualmente anticlimático. Menos colunas triunfais, mais operações invisíveis. Menos heroísmo cinematográfico, mais destruição automatizada.

O desaparecimento dos tanques da Praça Vermelha talvez simbolize exatamente isso: não apenas o desgaste russo na Ucrânia, mas o encerramento gradual de toda uma era estética da guerra. O século XX venerava máquinas monumentais. O século XXI parece preferir máquinas discretas. E talvez nenhuma transformação revele tanto sobre nosso tempo quanto essa passagem do poder visível para o poder invisível.



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