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Wellington Freire

Tiros no jantar da Casa Branca

Wellington Freire - 26 de Abril de 2026 | 09h 24
Tiros no jantar da Casa Branca
Foto: Reprodução

Há lugares onde uma nação representa a si mesma. Não apenas governa, legisla ou administra, mas encena seus próprios valores. O Jantar dos Correspondentes da Casa Branca era um desses lugares. Durante décadas, o evento simbolizou algo raro: a convivência ritualizada entre poder e crítica. Presidentes dividiam o palco com jornalistas; eram satirizados, respondiam com humor, sorriam diante da imprensa que os investigava. Não se tratava de frivolidade, mas de liturgia republicana. A democracia também vive de símbolos.

Quando tiros ecoam nas proximidades de um salão assim, não é apenas a segurança que falha. É o teatro institucional que se rompe. O episódio ocorrido neste fim de semana, em Washington, possui força maior do que a crônica policial. Ele revela uma verdade incômoda: os Estados Unidos já não conseguem preservar seus próprios espaços simbólicos da contaminação da violência política e social. O país que exportou ao mundo a imagem de estabilidade constitucional convive, hoje, com cercas, detectores de metal, protocolos de evacuação e candidatos protegidos como generais em zona de guerra.

A frase atribuída a Donald Trump – “deixemos o show continuar” – condensa o espírito do tempo. Tudo se converteu em espetáculo: a política, a imprensa, a indignação, o medo. Mesmo diante dos disparos, a linguagem já não é a da gravidade republicana, mas a da continuidade da cena. O evento precisa prosseguir, porque a máquina da visibilidade não pode parar.

Roma conheceu algo semelhante. Na fase final da República, os ritos públicos continuavam existindo: eleições, discursos no Senado, cerimônias cívicas. Mas, por trás da aparência institucional, cresciam facções armadas, culto à personalidade, manipulação das massas e normalização da violência. As formas permaneciam; a substância se esvaziava. A toga ainda circulava entre punhais.

Nenhuma comparação histórica é perfeita, mas algumas são instrutivas. Quando a política deixa de ser disputa regulada e passa a ser guerra moral entre inimigos absolutos, a violência deixa de pé, porém em estado nervoso.

Há algo particularmente simbólico no fato de o incidente ocorrer diante da imprensa. O jantar dos correspondentes representava a tensão produtiva entre governo e jornalistas. Democracias maduras não eliminam esse conflito; civilizam-no. Quando esse espaço se converte em pânico, percebe-se que o problema não é apenas um homem armado, mas uma cultura pública deteriorada.

Os impérios raramente percebem o momento exato em que começam a envelhecer. Continuam ricos, poderosos, militarmente superiores. Mas seus sinais de desgaste aparecem em detalhes: linguagem brutalizada, instituições desacreditadas, medo cotidiano, cidadãos que já não reconhecem adversários como legítimos.

Quando os tiros entram no salão, eles não atingem somente paredes ou portas. Atingem o imaginário nacional. E quando uma democracia perde seus rituais, começa, lentamente, a perder também sua alma.



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