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Wellington Freire

O fantasma de 1937 no mar do Pacífico

Wellington Freire - 23 de Abril de 2026 | 07h 53
O fantasma de 1937 no mar do Pacífico
Foto: Reprodução

Os navios chineses que, recentemente, cruzaram rotas sensíveis próximas ao arquipélago japonês não transportavam apenas mísseis, radares e marinheiros. Levavam consigo algo mais antigo e mais pesado: memória. No Extremo Oriente, nenhuma manobra naval é puramente técnica. Toda movimentação de frota também desloca fantasmas.

Entre China e Japão, 1937 jamais terminou inteiramente. Foi naquele ano que a Segunda Guerra Sino-Japonesa explodiu em escala total. O Império Japonês, já instalado na Manchúria desde 1931, lançou nova ofensiva sobre a China continental. Seguiram-se Xangai em chamas, Nanquim devastada, cidades destruídas, populações massacradas e uma ferida histórica que Pequim jamais permitiu cicatrizar por completo. Para a China contemporânea, a lembrança da invasão japonesa não é apenas passado: é fundamento político.

Toda potência precisa de mitos de origem. A China de Xi Jinping possui um deles: o “século das humilhações”, narrativa que vai das Guerras do Ópio às agressões estrangeiras do século XX. Nesse roteiro nacional, o Japão ocupa papel central como agressor asiático que explorou a fraqueza chinesa. Não surpreende que cada gesto militar de Tóquio seja lido em Pequim não só como cálculo estratégico, mas como eco histórico.

Do lado japonês, o movimento é inverso. O Japão do pós-1945 construiu-se sobre uma identidade pacifista, limitada por sua Constituição e protegida pela sombra estratégica americana. Durante décadas, Tóquio preferiu fábricas a quartéis, Toyota a couraçados, semicondutores a porta-aviões. Mas a História, como o mar, nunca permanece imóvel. O crescimento militar chinês, a pressão sobre Taiwan, a imprevisibilidade dos Estados Unidos e a guerra em outras regiões convenceram parte da elite japonesa de que o pacifismo absoluto tornou-se luxo perigoso.

O resultado está diante de nós: um Japão que se rearma gradualmente e uma China que interpreta esse rearmamento à luz de 1937. É aqui que reside o perigo. Armas são mensuráveis; memórias, não. Um míssil possui alcance definido. Um ressentimento histórico, não. Estratégias podem ser negociadas; traumas nacionais tendem a reaparecer nos momentos de crise. Quando navios chineses cruzam novas rotas e o Japão amplia exportações militares, ambos enviam sinais ao presente, mas ambos escutam ruídos do passado.

Os estrategistas chamam de “primeira cadeia de ilhas” a linha geográfica que vai do Japão às Filipinas e limita a projeção naval chinesa no Pacífico. A expressão é correta, porém incompleta. Existe também uma segunda cadeia, invisível e muito mais perigosa: a cadeia das memórias não resolvidas. Essa prende China e Japão a ciclos recorrentes de suspeita.

A Europa, depois de 1945, investiu em reconciliação institucional entre antigos inimigos. A Ásia Oriental jamais concluiu processo semelhante. Houve comércio, investimentos, interdependência industrial. Faltou catarse histórica. Faltou algo equivalente ao gesto franco-alemão. Onde não há reconciliação, o passado permanece mobilizável.

Por isso, o fantasma de 1937 navega hoje no Pacífico. Não aparece nos radares, não surge nas imagens de satélite, não consta nos comunicados oficiais. Mas influencia decisões, endurece discursos e amplia riscos.

O século XXI talvez seja decidido menos por batalhas abertas do que por crises mal administradas entre potências armadas e orgulhosas. Se isso ocorrer no Leste Asiático, entenderemos tarde demais que certos anos nunca acabam. Alguns apenas mudam de uniforme.



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