Os navios chineses que, recentemente, cruzaram rotas
sensíveis próximas ao arquipélago japonês não transportavam apenas mísseis,
radares e marinheiros. Levavam consigo algo mais antigo e mais pesado: memória.
No Extremo Oriente, nenhuma manobra naval é puramente técnica. Toda
movimentação de frota também desloca fantasmas.
Entre China e Japão, 1937 jamais terminou inteiramente. Foi
naquele ano que a Segunda Guerra Sino-Japonesa explodiu em escala total. O
Império Japonês, já instalado na Manchúria desde 1931, lançou nova ofensiva
sobre a China continental. Seguiram-se Xangai em chamas, Nanquim devastada,
cidades destruídas, populações massacradas e uma ferida histórica que Pequim
jamais permitiu cicatrizar por completo. Para a China contemporânea, a
lembrança da invasão japonesa não é apenas passado: é fundamento político.
Toda potência precisa de mitos de origem. A China de Xi
Jinping possui um deles: o “século das humilhações”, narrativa que vai das
Guerras do Ópio às agressões estrangeiras do século XX. Nesse roteiro nacional,
o Japão ocupa papel central como agressor asiático que explorou a fraqueza
chinesa. Não surpreende que cada gesto militar de Tóquio seja lido em Pequim
não só como cálculo estratégico, mas como eco histórico.
Do lado japonês, o movimento é inverso. O Japão do pós-1945
construiu-se sobre uma identidade pacifista, limitada por sua Constituição e
protegida pela sombra estratégica americana. Durante décadas, Tóquio preferiu
fábricas a quartéis, Toyota a couraçados, semicondutores a porta-aviões. Mas a
História, como o mar, nunca permanece imóvel. O crescimento militar chinês, a
pressão sobre Taiwan, a imprevisibilidade dos Estados Unidos e a guerra em
outras regiões convenceram parte da elite japonesa de que o pacifismo absoluto
tornou-se luxo perigoso.
O resultado está diante de nós: um Japão que se rearma
gradualmente e uma China que interpreta esse rearmamento à luz de 1937. É aqui
que reside o perigo. Armas são mensuráveis; memórias, não. Um míssil possui
alcance definido. Um ressentimento histórico, não. Estratégias podem ser negociadas;
traumas nacionais tendem a reaparecer nos momentos de crise. Quando navios
chineses cruzam novas rotas e o Japão amplia exportações militares, ambos
enviam sinais ao presente, mas ambos escutam ruídos do passado.
Os estrategistas chamam de “primeira cadeia de ilhas” a linha
geográfica que vai do Japão às Filipinas e limita a projeção naval chinesa no
Pacífico. A expressão é correta, porém incompleta. Existe também uma segunda
cadeia, invisível e muito mais perigosa: a cadeia das memórias não resolvidas.
Essa prende China e Japão a ciclos recorrentes de suspeita.
A Europa, depois de 1945, investiu em reconciliação
institucional entre antigos inimigos. A Ásia Oriental jamais concluiu processo
semelhante. Houve comércio, investimentos, interdependência industrial. Faltou
catarse histórica. Faltou algo equivalente ao gesto franco-alemão. Onde não há
reconciliação, o passado permanece mobilizável.
Por isso, o fantasma de 1937 navega hoje no Pacífico. Não
aparece nos radares, não surge nas imagens de satélite, não consta nos
comunicados oficiais. Mas influencia decisões, endurece discursos e amplia
riscos.
O século XXI talvez seja decidido menos por batalhas abertas
do que por crises mal administradas entre potências armadas e orgulhosas. Se
isso ocorrer no Leste Asiático, entenderemos tarde demais que certos anos nunca
acabam. Alguns apenas mudam de uniforme.