Há tragédias que entram para a história e tragédias que mal
conseguem entrar no noticiário. Umas provocam discursos solenes, sessões
extraordinárias, vigílias televisionadas, bandeiras nas varandas e campanhas
digitais em dezenas de idiomas. Outras acumulam cadáveres no silêncio, sem
comoção proporcional, sem mobilização duradoura, sem a liturgia pública da
indignação. O Sudão, mergulhado há três anos numa guerra devastadora,
converteu-se em símbolo cruel desse segundo destino: a catástrofe sem plateia.
Milhares morreram, 14 milhões foram deslocados, hospitais
ruíram, a fome avança, crianças sucumbem à desnutrição e a violência sexual
tornou-se arma recorrente. Ainda assim, o conflito permanece à margem da
consciência global. Não por falta de horror, mas por falta de atenção. Em
nossa época, o sofrimento não basta para ser visto. É preciso também ser
midiaticamente legível.
Vivemos a era da instantaneidade moral. Em poucas horas, uma explosão em
qualquer ponto do planeta pode gerar hashtags
planetárias, avatares temáticos, manifestações espontâneas e a sensação de
pertencimento a uma comunidade ética universal. Parece um avanço
civilizacional. E em parte é. Mas há uma fissura incômoda nesse edifício: a
sensibilidade contemporânea é profundamente seletiva. Algumas dores
viralizam; outras mal conseguem conexão estável. Algumas vítimas recebem nome,
rosto e biografia; outras aparecem apenas como número tardio em relatórios
humanitários.
O Sudão expõe aquilo que preferimos não nomear: existe um apartheid da compaixão. Não se trata de
decreto oficial nem de plano consciente, mas de uma estrutura invisível de
atenção desigual. Certas vidas parecem mais próximas, mais reconhecíveis, mais
“parecidas conosco”. Outras permanecem distantes, mesmo quando a distância é
apenas imaginária. Uma guerra europeia tende a ser percebida como abalo da
ordem mundial. Uma guerra africana, com frequência, é tratada como reincidência
de um caos presumido, como se a violência ali brotasse da paisagem e não de
decisões políticas, disputas militares e responsabilidades concretas.
Há, nesse mecanismo, um componente racial difícil de negar. O
Ocidente pós-colonial gosta de proclamar universalismo moral, mas
frequentemente reage com intensidade diferente conforme a cor, a geografia e a
familiaridade cultural das vítimas. Corpos brancos, cidades reconhecíveis,
igrejas semelhantes, ruas que lembram cartões-postais europeus produzem identificação
imediata. Já populações africanas, árabes ou periféricas continuam muitas vezes
aprisionadas no olhar distante da estatística.
A geopolítica reforça essa triagem emocional. Conflitos que
envolvem potências nucleares, corredores energéticos decisivos ou impacto
direto sobre mercados centrais recebem cobertura contínua. Guerras internas em
países periféricos, ainda que matem mais, tendem a ser classificadas como ruído
regional. O interesse estratégico decide a intensidade da empatia pública. Onde
há risco para bolsas de valores, há urgência. Onde há apenas civis morrendo,
costuma haver demora.
Também pesa a gramática narrativa. O público contemporâneo
prefere guerras explicáveis em um minuto: mocinhos nítidos, vilões
reconhecíveis, mapas simples, slogans exportáveis. O Sudão oferece o contrário:
facções rivais, alianças móveis, rivalidades históricas, múltiplos centros de
poder, fronteiras étnicas e regionais complexas. Como explicar exige
esforço, muitos escolhem ignorar. A complexidade converte-se em abandono.
Mas o problema não está em sentir pelos conflitos que ocupam
as manchetes. Toda solidariedade é valiosa. O escândalo está na solidariedade
distribuída por critérios implícitos de proximidade e utilidade. Não precisamos
sofrer menos por alguns; precisamos sofrer mais por outros.
Toda civilização revela sua ética pela forma como hierarquiza
vidas. A nossa mede sofrimento por algoritmos, interesse estratégico e
reconhecimento cultural. O resultado é um mundo em que nem toda morte
produz comoção igual. E talvez esta seja uma das formas mais sofisticadas de
barbárie contemporânea: não matar diretamente, mas acostumar-se a não olhar.
O Sudão arde longe das câmeras. Mas o incêndio moral não está apenas lá. Está em nós.