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Wellington Freire

O século dos pequenos perturbadores

21 de Abril de 2026 | 07h 40
O século dos pequenos perturbadores

Durante muito tempo, a imaginação política foi dominada por imagens monumentais. O poder tinha bandeiras, fronteiras nítidas, uniformes impecáveis, colunas de tanques e frotas oceânicas. Impérios se reconheciam pela arquitetura da força. Roma tinha legiões; a Grã-Bretanha, navios; os Estados Unidos, porta-aviões. O poder parecia inseparável da massa, da visibilidade e da capacidade de ocupar territórios.

O século XXI começou a desmontar essa iconografia. O novo poder, cada vez mais, atua nas sombras. Não avança necessariamente com divisões blindadas, mas com redes flexíveis, milícias terceirizadas, drones baratos, ataques cibernéticos, sabotagens logísticas e grupos capazes de negar autoria. Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen, milícias xiitas no Iraque, mercenários privados em diferentes continentes: são peças de uma geopolítica indireta, onde o centro de comando raramente coincide com o campo de batalha.

Chamamos isso de guerra por procuração, mas talvez o nome seja modesto demais. Não se trata apenas de terceirizar combates. Trata-se de uma transformação estrutural da soberania. Estados descobriram que podem projetar força sem arcar integralmente com os custos políticos de uma guerra formal. Podem ferir sem declarar guerra, pressionar sem invadir, desestabilizar sem assinar a autoria. A violência torna-se difusa, modular, plausivelmente negável.

Essa lógica corrói um dos pilares da ordem internacional moderna: a distinção entre paz e guerra. Em teoria, havia tempos de paz interrompidos por guerras oficialmente declaradas. Hoje proliferam zonas cinzentas: hostilidade permanente abaixo do limiar da guerra total. Um navio explode, uma rede elétrica cai, uma rota marítima é ameaçada, drones surgem do nada, mercados entram em pânico. Ninguém sabe exatamente quando começou, tampouco quando termina.

É por isso que o século XXI talvez seja o século dos pequenos perturbadores. Não é preciso possuir a maior economia, a aviação mais sofisticada ou o maior arsenal nuclear para produzir efeitos mundiais. Basta identificar o ponto vulnerável de sistemas complexos. Um estreito marítimo congestionado, um cabo submarino, uma cadeia logística dependente, uma opinião pública fatigável, um mercado sensível ao medo. O fraco já não precisa derrotar o forte; basta desorganizar-lhe o funcionamento.

A lição é antiga. Davi não venceu Golias tornando-se maior que Golias. Venceu recusando o tipo de combate que o gigante esperava. Toda guerra assimétrica repete esse gesto fundador: negar ao adversário o terreno no qual ele é superior. O forte prepara couraças; o fraco escolhe a funda. Há, porém, um preço civilizacional nessa mutação. Quando atores pequenos descobrem como paralisar sistemas gigantescos, todos se tornam vulneráveis. A interdependência global, celebrada como promessa de prosperidade, converte-se também em arquitetura da fragilidade. Quanto mais conectados, mais expostos.

Talvez este seja o paradoxo de nosso tempo: nunca houve poderes tão grandes, e nunca foi tão fácil perturbá-los. O império contemporâneo continua poderoso, mas agora precisa temer sombras.




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