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Wellington Freire

Guerra justa ou desculpa justa?

Wellington Freire - 20 de Abril de 2026 | 08h 25
Guerra justa ou desculpa justa?

Toda guerra começa por uma narrativa. Nenhum governante anuncia bombardeios em nome da cobiça, da vaidade pessoal ou da disputa por recursos. As guerras sempre chegam embaladas em palavras nobres: defesa, segurança, libertação, honra, civilização, paz futura. O sangue costuma vir precedido por argumentos. Por isso, a ideia de “guerra justa” atravessa os séculos: não como autorização para matar, mas como tentativa de impor limites morais à violência humana. O problema é que, com frequência, esses limites se convertem em álibis retóricos do próprio massacre.

O tema remonta ao mundo clássico. Em Roma, Cícero defendia que uma guerra só poderia ser legítima se declarada por autoridade reconhecida e motivada por ofensa real sofrida pela comunidade política. Já ali se percebia uma intuição essencial: a guerra, para não ser mero banditismo em grande escala, precisaria de regras.

Com o cristianismo, a questão tornou-se mais delicada. Como conciliar a mensagem evangélica de paz com a existência de Estados armados? Santo Agostinho, escrevendo sob o impacto da crise do Império Romano, ofereceu uma resposta decisiva. A guerra poderia ser tolerada apenas como remédio extremo para restaurar a paz violada. Não se guerreia por glória, expansão territorial ou vingança, mas para corrigir uma injustiça e proteger inocentes. A guerra seria sempre um mal, às vezes inevitável, jamais desejável.

No século XIII, Tomás de Aquino sistematizou a doutrina em três critérios clássicos: autoridade legítima, causa justa e intenção reta. Posteriormente, juristas e teólogos acrescentaram outros requisitos: proporcionalidade entre meios e fins, último recurso depois de esgotadas negociações, chance razoável de sucesso e distinção entre combatentes e civis. Em teoria, trata-se de uma arquitetura moral severa, pensada para tornar a guerra rara e difícil.

Na prática, contudo, surge o labirinto da interpretação. Quase todo agressor se apresenta como defensor. Quase toda invasão se descreve como preventiva. Quase toda destruição promete estabilidade futura. Quase todo império afirma levar ordem aos povos conquistados. A linguagem moral raramente desaparece; ela apenas troca de uniforme.

Foi assim nas Cruzadas, quando a espada se cobriu de peregrinação. Foi assim nas expansões coloniais europeias, frequentemente justificadas como missão civilizatória ou evangelizadora. Foi assim nas guerras ideológicas do século XX, travadas em nome da liberdade, da revolução ou da segurança nacional. E segue sendo assim no século XXI, quando ataques “cirúrgicos” e intervenções “humanitárias” tentam suavizar, pela técnica verbal, o velho espetáculo da morte.

Depois de Verdun, Hiroshima, Dresden e Auschwitz, tornou-se ainda mais difícil sustentar a ideia de guerra plenamente justa em escala industrial. A capacidade tecnológica de destruição superou os quadros morais herdados da Antiguidade e da Idade Média. O filósofo Paul Ricoeur observou que a violência moderna tornou-se desproporcional à ética tradicional. Michael Walzer, em resposta, procurou atualizar a doutrina distinguindo a justiça para entrar na guerra da justiça na forma de conduzi-la. Mas drones, mísseis de longo alcance, guerra cibernética e bombardeios remotos embaralham novamente essas fronteiras.

O paradoxo permanece: a teoria da guerra justa nasceu para dificultar a guerra; seu uso político recorrente serve, muitas vezes, para facilitá-la. Princípios concebidos para conter a espada acabam sendo usados para polir sua lâmina.

Talvez a pergunta decisiva de nosso tempo não seja se existe guerra justa, mas se ainda existem critérios humanos capazes de domesticar máquinas de matar cada vez mais impessoais. Porque, quando toda guerra se declara moralmente necessária, a justiça já foi a primeira vítima. E quando Deus é convocado para legitimar bombas, não é a fé que triunfa, é apenas o poder falando em voz sagrada.




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