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Wellington Freire

Da catábase ao riso: Campos de Carvalho e a descida impossível

19 de Abril de 2026 | 08h 59
Da catábase ao riso: Campos de Carvalho e a descida impossível

Entre os grandes temas da literatura ocidental, poucos possuem tanta permanência quanto a catábase: a descida ao mundo inferior em busca de conhecimento, redenção ou destino. Ulisses consulta Tirésias entre os mortos; Enéias desce ao Hades para contemplar o futuro de Roma; Dante atravessa o Inferno guiado por Virgílio. Em todos os casos, a jornada subterrânea pressupõe uma verdade decisiva: é preciso atravessar as trevas para regressar transformado.

A modernidade, porém, herdou a forma e perdeu a fé.É sob essa chave que se pode reler O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, uma das obras mais singulares da literatura brasileira. O romance parece narrar uma expedição extravagante: um homem decide verificar a existência da Bulgária e de um misterioso púcaro búlgaro. O enredo, deliberadamente absurdo, encena algo mais profundo: a tentativa moderna de repetir antigos ritos iniciáticos num mundo já incapaz de transcendência.

A Bulgária funciona menos como país real que como espaço simbólico: lugar remoto, obscuro, quase mítico, equivalente moderno daquele “alhures” para onde partiam heróis antigos. O púcaro, por sua vez, ocupa a posição estrutural dos grandes objetos de demanda: o Graal medieval, o velocino de ouro, a relíquia capaz de restaurar uma ordem perdida. Há chamado, há promessa, há preparação ritual. O que não há é consumação.

A viagem jamais se realiza.Eis a genialidade de Campos de Carvalho: converter a catábase em farsa, ou melhor, em anti-catábase. Se a descida clássica conduzia ao conhecimento, aqui ela se dissolve em reuniões inúteis, listas extravagantes, discursos vazios e preparativos intermináveis. O homem moderno conserva o vocabulário do heroísmo, mas perdeu a energia espiritual que o sustentava. Ainda fala em missão; já não sabe partir.

Nesse cenário surge Radamés, figura memorável do romance. Seu papel recorda os grandes guias iniciáticos da tradição: Tirésias, a Sibila, Virgílio. É ele quem detém o saber especializado, quem anima a expedição, quem parece dominar os mistérios da Bulgária. Mas tudo nele é inversão caricatural. Em vez de sabedoria, pedantismo; em vez de autoridade serena, teatralidade; em vez de ascese, apetites grotescos. Radamés é um anti-Virgílio tropical: conduz sem conduzir, ensina sem iluminar, orienta para lugar nenhum.

Não se trata apenas de humor. Trata-se de diagnóstico civilizacional. Campos de Carvalho percebeu que o drama moderno não consiste mais em enfrentar monstros exteriores, mas em padecer de impotência interior. Ulisses combate ciclopes; o homem contemporâneo sucumbe à dispersão, ao tédio e à verborragia. Enéias retorna do Hades com destino; o protagonista moderno mal sai da sala de reuniões.

Por isso O Púcaro Búlgaro permanece atual. Em época saturada de planos estratégicos, promessas grandiosas e projetos que nunca se cumprem, o romance parece menos absurdo que documental. A Bulgária continua sendo o nome elegante que damos às nossas evasões.

Campos de Carvalho entendeu algo decisivo: quando uma cultura perde a crença no sagrado, o épico não desaparece, apenas regressa sob forma de riso.




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