No Oriente Médio, a paz costuma chegar com prazo de validade.
Não se apresenta como reconciliação, tratado duradouro ou reconstrução
política. Surge, quase sempre, como intervalo. Dez dias de trégua. Setenta e
duas horas de cessação de hostilidades. Uma pausa técnica entre bombardeios. Um
silêncio precário entre duas explosões.
O novo cessar-fogo anunciado entre Israel e Hezbollah,
acompanhado da retomada de negociações entre Estados Unidos e Irã, foi recebido
com alívio imediato. Sempre há alívio quando as armas silenciam. Famílias
retornam às casas, comboios humanitários avançam, mercados respiram e
diplomatas voltam a sorrir diante das câmeras. Mas o alívio não deve ser
confundido com solução.
A região tornou-se especialista em administrar crises sem
resolvê-las. Essa talvez seja a grande tragédia contemporânea do Oriente Médio:
a substituição da paz verdadeira por mecanismos de contenção temporária. Não se
elimina a causa do conflito; apenas se controla sua temperatura. Não se desarma
o antagonismo; regula-se sua intensidade.
Israel busca segurança definitiva, mas enfrenta inimigos que
sobrevivem mesmo quando militarmente atingidos. O Hezbollah pode perder
posições, bases e combatentes, mas preserva sua lógica política e sua utilidade
estratégica para o Irã. O Irã, por sua vez, negocia enquanto mantém
instrumentos indiretos de pressão regional. Os Estados Unidos tentam arbitrar o
tabuleiro sem pagar o custo total de ocupá-lo. Todos ganham tempo. Ninguém
resolve o problema.
Essa política do tempo é central. Ganhar tempo tornou-se mais
importante do que conquistar a paz. Governos ganham tempo para reorganizar
arsenais. Milícias ganham tempo para recompor estruturas. Potências ganham
tempo para reorganizar alianças. Mercados ganham tempo para recalcular riscos.
E populações civis ganham apenas o tempo necessário para enterrar mortos,
recolher escombros e preparar-se para a próxima rodada de violência.
O caso do Estreito de Ormuz ilustra esse drama. Em poucas
horas, abre-se, fecha-se, reabre-se parcialmente, volta à ameaça de bloqueio.
Não há estabilidade: há oscilação controlada. O mundo inteiro depende de rotas
energéticas vitais submetidas à lógica da crise permanente. O petróleo reage,
os fretes sobem, bolsas estremecem. A guerra local produz efeitos globais.
Donald Trump, fiel ao seu estilo, vende a imagem de acordos
rápidos e sucesso iminente. Mas a experiência recente mostra que grandes
anúncios nem sempre produzem grandes resultados. Diplomacia real exige tempo,
garantias, fiscalização, concessões dolorosas e continuidade institucional,
exatamente o oposto da política performática de Trump.
A frase “paz de dez dias” resume mais do que uma trégua.
Resume uma era. Vivemos tempos em que conflitos prolongados produzem pequenas
pausas vendidas como grandes vitórias. A guerra deixa de ser exceção e passa a
ser estrutura; a paz deixa de ser horizonte e passa a ser intervalo.
Enquanto isso não mudar, cada cessar-fogo será celebrado com
esperança e observado com ceticismo. Porque todos sabem que, naquela região,
dez dias podem parecer muito, justamente porque décadas de guerra ensinaram a
esperar tão pouco.