Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, s�bado, 13 de junho de 2026

Wellington Freire

A guerra acabou? Hormuz diz que não

10 de Abril de 2026 | 06h 43
A guerra acabou? Hormuz diz que não

Há guerras que terminam com tratados. Outras, com ruínas. E há aquelas, mais perigosas, que terminam com declarações de vitória. O recente anúncio de cessar-fogo no conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã, mediado por potências como a China, expõe um fenômeno recorrente na história militar: a dissociação entre vitória proclamada e realidade estratégica. Enquanto Washington celebra uma “vitória esmagadora”, o controle do Estreito de Ormuz permanece incerto, o programa nuclear iraniano segue sem solução e o inimigo, longe de colapsar, reorganiza-se. A guerra, mais uma vez, escapa à narrativa de seus protagonistas.

Em Guerra do Peloponeso, Tucídides já havia demonstrado que os conflitos não se decidem apenas no campo de batalha, mas na capacidade de sustentar posições, controlar fluxos e moldar percepções. Atenas venceu combates decisivos  e ainda assim perdeu a guerra. Não por falta de força, mas por incapacidade de converter vitórias táticas em estabilidade estratégica. O mesmo padrão reaparece agora.

O Irã, alvo de uma campanha militar intensa, respondeu não com superioridade bélica convencional, mas com aquilo que poderíamos chamar de inteligência estrutural da guerra: a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz. Por essa estreita faixa marítima circula uma parcela decisiva da energia mundial. Controlá-la não é apenas uma vantagem militar  é uma forma de poder sistêmico. Não se trata de destruir o inimigo, mas de tornar sua vitória economicamente insustentável. Se a bomba nuclear representa o ápice da destruição, Hormuz representa o ápice da interrupção.

Essa lógica não é nova. Já no mundo antigo, os pontos de estrangulamento definiam o destino de impérios. Em Batalha das Termópilas, um exército reduzido foi capaz de conter uma força muito superior simplesmente por controlar o espaço de passagem. A geografia, aliada à estratégia, neutralizou a diferença de poder.

Hoje, a geografia persiste, mas ampliada por infraestruturas invisíveis: rotas marítimas, cabos submarinos, fluxos energéticos. A guerra deslocou-se do choque direto para a gestão dessas circulações. Nesse contexto, declarar vitória torna-se um ato político, não um fato militar.

A Eneida oferece uma chave interpretativa surpreendentemente atual. Ao narrar a fundação de Roma, Virgílio abandona o modelo heroico homérico, centrado no combate individual, e constrói uma nova ética: a do império. Eneias não vence por bravura momentânea, mas por suportar, recuar, negociar e, sobretudo, sobreviver. A verdadeira vitória não é o duelo vencido, mas a ordem estabelecida ao final.Entre Aquiles e Eneias, há uma transformação profunda na ideia de guerra: da glória imediata à eficácia duradoura.

O problema das guerras contemporâneas é que seus líderes ainda falam como Aquiles, mas operam em um mundo que exige Eneias.A retórica de aniquilação  - “varrer uma civilização do mapa” - pertence ao universo da guerra absoluta, onde o inimigo deve ser destruído. Mas a realidade estratégica impõe limites: interdependência econômica, pressão internacional, vulnerabilidade energética. O resultado é uma dissonância: ameaça-se como se fosse possível exterminar; negocia-se porque não é.

Essa tensão produz o que estamos vendo: guerras que não terminam, apenas se suspendem.O cessar-fogo de duas semanas não resolve o conflito. Ele o administra. E, ao fazê-lo, revela uma verdade incômoda: a guerra contemporânea não se decide no momento do ataque, mas na capacidade de controlar o que vem depois, fluxos, mercados, narrativas, equilíbrios frágeis. Nesse cenário, a vitória deixa de ser um evento e torna-se uma disputa contínua de interpretação.

Os Estados Unidos declaram vitória para encerrar a guerra. O Irã reivindica vitória para sobreviver a ela. Ambos têm razões. Nenhum tem controle pleno da situação.Talvez porque, no fundo, a guerra já não pertença inteiramente a nenhum dos dois.Ela pertence ao estreito.E é ali, nesse espaço aparentemente secundário, que se decide o essencial: não quem vence uma batalha, mas quem consegue tornar a vitória do outro impossível.






Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

charge

As mais lidas hoje