O envio do avião de guerra Fairchild Republic A-10 Thunderbolt II não deve ser lido como um simples ajuste operacional na guerra do Irã, mas como um sintoma histórico de primeira ordem. Ele marca, com uma clareza quase brutal, o esgotamento de uma das grandes ilusões estratégicas do pós-Guerra Fria: a crença de que a guerra poderia ser conduzida à distância, com precisão cirúrgica, sob controle técnico e com mínima exposição humana. O A-10 surge exatamente onde essa promessa falha e, ao surgir, revela que a guerra voltou a exigir aquilo que a modernidade tentou suprimir: o corpo.
Desde a Guerra do Golfo, consolidou-se um paradigma operacional baseado na superioridade tecnológica, na vigilância total e na capacidade de atingir alvos com precisão milimétrica. A guerra tornou-se, ao menos em sua representação, um exercício de cálculo: sensores identificam, algoritmos processam, mísseis executam. Esse modelo encontrou sua forma mais acabada no uso extensivo de drones, que transformaram o campo de batalha em uma interface remota, onde o inimigo aparece como uma assinatura térmica e o combate se aproxima de uma operação técnica. A distância, nesse contexto, não é apenas espacial, ela é também moral e política.
Entretanto, esse modelo contém uma fragilidade estrutural: ele pressupõe um inimigo visível, fixável, inteligível dentro dos parâmetros da vigilância tecnológica. Quando o adversário se fragmenta, se dispersa e se confunde com o ambiente, como milícias, grupos irregulares ou forças híbridas, a guerra escapa a essa lógica. Ela deixa de ser um problema de precisão e se torna um problema de presença. É precisamente nesse ponto que o A-10 reaparece.
Concebido para o apoio aéreo aproximado, o A-10 opera em uma lógica radicalmente distinta daquela que define a guerra contemporânea de alta altitude. Ele voa baixo, lento, exposto. Seu célebre canhão de 30 mm não é uma arma de precisão estratégica, mas de saturação controlada, pensada para atuar sobre alvos próximos, móveis e muitas vezes indistintos. Seu emprego só faz sentido quando há tropas em solo, em contato direto com o inimigo, necessitando de cobertura constante, persistente e, sobretudo, imediata. Nesse sentido, o A-10 funciona como uma espécie de “anti-drone”: enquanto o drone amplia a distância, o A-10 a anula.
Essa reaproximação tem implicações profundas. Ela reinsere o corpo, do soldado e do piloto, no centro da equação estratégica. O combate volta a ser uma experiência de risco compartilhado, de exposição mútua, de dependência direta entre forças terrestres e apoio aéreo. A guerra deixa de ser mediada exclusivamente por sistemas e retorna, ainda que parcialmente, à sua dimensão mais concreta: a da proximidade física.
Esse movimento não é inédito. Durante a Guerra do Vietnã, os Estados Unidos já haviam experimentado o limite da superioridade tecnológica diante de um inimigo difuso, móvel e profundamente enraizado no terreno. O apoio aéreo aproximado tornou-se, então, um elemento vital para sustentar tropas em um ambiente onde a distinção entre frente e retaguarda praticamente desaparecia. Décadas depois, na fase insurgente da Guerra do Iraque, a mesma lógica se repetiu: a vitória inicial, obtida por meios convencionais e tecnológicos, deu lugar a um conflito fragmentado, no qual a presença contínua e a capacidade de reação imediata eram mais decisivas do que a destruição à distância.
O que se observa agora é a reativação desse padrão. A guerra desloca-se de uma lógica de neutralização estratégica para uma lógica de atrito prolongado. Alvos deixam de ser infraestruturas e passam a ser grupos, movimentos, intenções. O campo de batalha torna-se fluido, descontínuo, imprevisível. E, nesse ambiente, a distância perde eficácia como forma de controle.
É por isso que o A-10 deve ser interpretado menos como instrumento e mais como indicador. Ele não transforma a guerra; ele revela que a guerra já se transformou. Seu emprego sugere que o conflito ultrapassou o estágio em que mísseis e bombardeios são suficientes para produzir efeitos decisivos. Indica, sobretudo, que se está preparando, ou já se entrou, em uma fase em que tropas em solo não são apenas uma possibilidade, mas uma necessidade operacional.
Essa leitura ganha ainda mais densidade quando observada à luz da tradição clássica. Na Eneida, a guerra não se resolve em um único momento decisivo, mas se prolonga em uma série de combates locais, emboscadas e confrontos individuais que transformam a conquista em ocupação. A narrativa virgiliana expõe precisamente a passagem de uma guerra de decisão para uma guerra de gestão da violência, um processo em que o controle do território substitui a busca por uma vitória rápida e definitiva.
Essa analogia não é meramente literária. Ela permite compreender que o emprego do A-10 está associado a um tipo específico de guerra: aquela em que o objetivo não é vencer rapidamente, mas sustentar a presença, proteger posições, reagir a ameaças difusas e manter o controle sob pressão constante. Incursões limitadas, defesa de enclaves estratégicos, enfrentamento de milícias, todos esses cenários exigem exatamente o tipo de apoio que o A-10 oferece.
Nesse sentido, a presença dessa aeronave aponta para uma transformação qualitativa do conflito. A guerra “desce ao solo”, não como escolha deliberada, mas como imposição do próprio ambiente operacional. E, ao descer, ela se torna mais imprevisível, mais prolongada e mais custosa.
O verdadeiro significado do A-10, portanto, é profundamente negativo: ele marca o fim de uma era. O fim da distância como garantia de segurança, da tecnologia como substituto do risco, da guerra como operação limpa e controlável. O que retorna, com ele, não é apenas um tipo de aeronave, mas uma forma mais antiga e persistente de conflito, aquela em que a vitória depende menos da precisão e mais da capacidade de permanecer, resistir e suportar o peso contínuo do combate.
Quando o A-10 entra em cena, a guerra já deixou de ser um problema de alcance. Ela voltou a ser, como sempre foi, um problema de presença.