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Wellington Freire

O Retorno de Homero: a guerra moderna e o piloto abandonado

04 de Abril de 2026 | 07h 21
O Retorno de Homero: a guerra moderna e o piloto abandonado

Há um instante, raríssimo, brutal, quase metafísico, em que a guerra tecnológica se rompe e deixa ver o seu núcleo arcaico. Esse instante é o da ejeção. Até ali, o piloto é extensão da máquina: sensores, velocidade, invisibilidade, cálculo. Um operador de sistemas no ápice da técnica. Mas, no momento em que o caça é atingido, tudo colapsa. O que resta não é o império da tecnologia mas, sim,  o corpo.

A ejeção é uma regressão histórica em frações de segundo. O piloto que, instantes antes, habitava o domínio abstrato da guerra aérea, satélites, guerra eletrônica, superioridade espectral, tudo é lançado de volta à condição primordial do guerreiro isolado. Ele cai. E, ao cair, atravessa milênios. O céu deixa de ser espaço estratégico e volta a ser abismo. O solo inimigo deixa de ser “teatro de operações” e se torna aquilo que sempre foi: território hostil, onde o indivíduo está só, caçado, vulnerável. É nesse ponto que a guerra contemporânea reencontra a Ilíada.

O piloto abatido é, estruturalmente, um herói homérico: separado de sua formação, arrancado da ordem coletiva, exposto à contingência absoluta. Como os guerreiros de Homero, ele depende agora não da máquina, mas de sua astúcia, resistência e, sobretudo, da fortuna, esse elemento incalculável que Carl von Clausewitz identificou como constitutivo da guerra. A tecnologia pode reduzir probabilidades; não pode abolir o acaso. A figura do piloto abatido condensa, portanto, uma contradição fundamental: ele é o produto máximo da guerra moderna e, simultaneamente, sua ruína mais antiga.

Poucos casos ilustram essa tragédia com tanta nitidez quanto o de John McCain. Em 1967, então tenente aviador, foi abatido sobre Hanói durante a Guerra do Vietnã. Seu avião, como tantos outros, representava o auge do poder aéreo americano; sua queda, porém, o lançou numa experiência que nada tinha de tecnológica: fraturas, captura, anos de cativeiro, tortura, isolamento. McCain não foi apenas derrubado, ele foi despojado. Despojado da velocidade, da altitude, da proteção, da cadeia de comando. Restou-lhe o que resta a todo guerreiro abatido desde a Antiguidade: o corpo ferido e a consciência de estar atrás das linhas inimigas, onde a guerra deixa de ser operação e passa a ser destino.

É aqui que a dimensão trágica se impõe com toda a sua força. Na épica, o herói isolado enfrenta o inimigo visível; na guerra moderna, ele enfrenta algo mais difuso: a possibilidade constante de captura, o tempo dilatado da espera, a incerteza radical. O piloto abatido não luta apenas contra soldados, luta contra o espaço, contra o silêncio, contra a própria duração. Cada minuto no solo inimigo é uma intensificação da tragédia. E há ainda um elemento decisivo: a inversão do poder.

No ar, o piloto é soberano. No solo, é presa. A assimetria é absoluta. Aquele que dominava o campo de batalha torna-se objeto de busca, tanto por seus compatriotas quanto por seus inimigos. Ele é, simultaneamente, sujeito e prêmio. Sua sobrevivência deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a ter valor estratégico, simbólico, político. É por isso que a figura do piloto abatido ocupa um lugar tão central na imaginação militar contemporânea. Ele encarna o ponto em que a guerra deixa de ser sistema e volta a ser experiência.

Se deslocarmos o olhar para a tradição latina, o contraste se torna ainda mais eloquente. Em Eneida, de Virgílio, o herói já não é apenas o guerreiro isolado, mas o portador de uma missão histórica, integrado a um projeto coletivo, Roma, o império, o destino. A guerra, aqui, tende à ordem, à teleologia. Mas o piloto abatido rompe essa lógica. No momento da queda, não há império, não há missão, não há teleologia. Há apenas a contingência nua. O herói virgiliano, orientado pelo futuro, dissolve-se; o herói homérico, exposto ao presente absoluto, reaparece.

É como se, no coração da guerra mais tecnologicamente avançada da história, persistisse uma verdade arcaica: nenhuma máquina é capaz de abolir a condição trágica do combatente.E talvez seja esse o ponto mais perturbador.

Porque, em última instância, a guerra contemporânea promete o contrário. Promete controle, precisão, distância. Promete uma guerra sem corpo. O piloto, elevado a quilômetros de altitude, parece ter transcendido a vulnerabilidade que definiu o guerreiro ao longo dos séculos.

Mas a ejeção desfaz essa ilusão.Ela revela que toda guerra, por mais tecnológica que seja, contém um momento de queda, literal e simbólico, em que o indivíduo é devolvido à sua condição essencial. Nesse instante, não há satélite que o proteja, não há algoritmo que o salve. Há apenas o terreno inimigo, o tempo que se arrasta e a esperança, sempre incerta, de resgate.

O piloto abatido é, assim, a figura trágica por excelência da guerra moderna: aquele que, tendo tocado o ápice da técnica, é lançado de volta ao abismo da história.




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