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Wellington Freire

Antes de Clausewitz, houve Moisés: a invenção da guerra regulada

Wellington Freire - 03 de Abril de 2026 | 09h 45
Antes de Clausewitz, houve Moisés: a invenção da guerra regulada

A afirmação pode soar provocativa e, de fato, deve soar. Pois aquilo que se convencionou chamar de teoria moderna da guerra, sistematizada por pensadores como Carl von Clausewitz, repousa sobre um pressuposto que a tradição bíblica já havia intuído em forma rudimentar: a guerra não é apenas choque de forças, mas organização normativa da violência. E é precisamente nesse ponto que o Pentateuco, especialmente em Levítico e Deuteronômio, se revela não apenas como texto religioso, mas como um dos mais antigos sistemas de regulação da conduta coletiva em situação de conflito.

Longe de ser um conjunto disperso de mandamentos morais ou rituais, as chamadas ordenações mosaicas compõem uma arquitetura disciplinar que abrange todos os aspectos da vida inclusive, e de modo decisivo, a guerra. O que está em jogo não é apenas a relação do homem com o sagrado, mas a formação de um corpo coletivo capaz de agir de forma coordenada, previsível e, sobretudo, controlada em contextos de violência organizada. Em outras palavras: trata-se da construção de uma ética operacional da guerra.

Levítico, frequentemente lido como um código de pureza ritual, desempenha, nesse sentido, uma função que ultrapassa o domínio religioso. Ao regulamentar minuciosamente o comportamento individual, o que se come, com quem se convive, como se purifica o corpo, ele produz um tipo humano específico: disciplinado, obediente, integrado a uma ordem maior. Essa disciplina não é um fim em si mesma; ela é condição de possibilidade para qualquer ação coletiva eficaz. Um exército não se faz apenas com armas, mas com corpos treinados para obedecer. E, no mundo mosaico, essa obediência é internalizada como dever religioso.

Deuteronômio, por sua vez, explicita ainda mais essa dimensão normativa ao vincular diretamente conduta e resultado militar. A vitória não depende apenas de estratégia ou superioridade numérica, mas da adesão rigorosa às prescrições divinas. A desobediência não é apenas pecado, é falha operacional. Aqui, a guerra é concebida como extensão de um sistema jurídico-religioso que regula tanto o campo de batalha quanto a vida cotidiana. Não há separação entre esfera civil e militar, entre moral e estratégia: tudo se encontra submetido a uma mesma lógica normativa.

É nesse ponto que o modelo mosaico revela sua singularidade. Enquanto outras sociedades do Antigo Oriente Próximo concebiam a guerra como atividade legitimada pelos deuses, mas conduzida por homens segundo critérios pragmáticos, o sistema hebraico propõe algo mais radical: a subordinação integral da prática militar a um código de origem divina. Não se trata apenas de lutar com a bênção de Deus, mas de lutar segundo regras que Ele próprio teria estabelecido. A guerra deixa de ser apenas permitida, ela passa a ser regulamentada em seus mínimos detalhes por uma instância transcendente.

Essa regulamentação produz efeitos concretos. Em primeiro lugar, estabelece limites, ainda que paradoxais, para a violência. Ao definir o que pode e o que não pode ser feito, o código mosaico introduz uma forma de controle sobre a destruição, impedindo que ela se torne completamente arbitrária. Em segundo lugar, cria um mecanismo de coesão interna: todos os combatentes compartilham não apenas objetivos, mas normas comuns, cuja violação implica consequências não apenas sociais, mas teológicas. Por fim, e talvez mais importante, transforma a guerra em um campo de prova moral: vencer ou perder passa a ser interpretado como sinal de fidelidade ou desvio em relação à ordem divina.

Essa fusão entre norma e combate antecipa, em forma arcaica, uma intuição que a teoria militar moderna desenvolveria séculos depois: a de que a eficácia de uma força armada depende menos de sua capacidade destrutiva do que de sua organização interna. Carl von Clausewitz diria que a guerra é continuação da política por outros meios; o Pentateuco sugere algo ainda mais abrangente: a guerra é continuação da lei, ou, mais precisamente, da obediência à lei, por meios violentos.

Mas há um custo nessa concepção. Ao submeter a guerra a um código de origem divina, o sistema mosaico não apenas disciplina a violência, ele a legitima de forma absoluta. Se as regras vêm de Deus, sua aplicação torna-se incontestável. A obediência deixa de ser escolha e passa a ser imperativo. E, nesse contexto, a distinção entre ordem e destruição se torna perigosamente tênue: aquilo que é regulamentado como dever pode, ao mesmo tempo, operar como justificativa para atos extremos.

É por isso que ler Levítico e Deuteronômio apenas como textos religiosos é perder de vista sua dimensão mais inquietante. Eles são, ao mesmo tempo, códigos de santidade e manuais de conduta em um mundo onde a guerra é permanente possibilidade. São dispositivos que moldam corpos, regulam ações e definem os termos sob os quais a violência pode ser exercida. E, ao fazê-lo, inauguram uma tradição na qual o poder não se limita a ordenar — ele normatiza, disciplina e legitima.

Muito antes de a guerra ser pensada como fenômeno político ou estratégico, ela já havia sido inscrita no coração da lei. E, nesse sentido, a provocação inicial deixa de ser exagero e se torna constatação histórica: antes de Clausewitz, houve Moisés, e com ele, a primeira tentativa de transformar a guerra em um sistema regulado pela norma.

Ao leitor interessado em aprofundar o tema aqui apenas esboçado, remeto a duas obras, uma delas de minha autoria: Freire, Wellington. As Ordenações Mosaicas. (disponível na internet em PDF); De Vaux, Roland. As Instituições de Israel no Antigo Testamento.



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