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Wellington Freire

Professor José Jerônimo de Moraes, um Mestre na Periferia do Capitalismo

28 de Março de 2026 | 08h 18
Professor José Jerônimo de Moraes, um Mestre na Periferia do Capitalismo

Há mestres que ensinam e outros, mais raros,  que fundam destinos. Na tradição antiga, os heróis da Hélade não eram entregues às multidões, mas confiados a uma figura singular: Quíron, o sábio entre os selvagens, o educador entre os guerreiros. A ele coube formar Aquiles, Asclépio, Jasão, não apenas nas armas, mas na medida interior que separa o homem comum daquele que atravessa a história. Em nossa época, desencantada e apressada, essas figuras parecem extintas. Mas não estão. Às vezes, habitam lugares improváveis, as periférias.

Conheci um desses homens nos anos idos de minha graduação em Letras, na Universidade Estadual de Feira de Santana. O professor emérito José Gerônimo de Moraes não se apresentava como um vestígio do passado  mas era, no sentido mais alto, um continuador de uma linhagem antiga. Humanista rigoroso, senhor do latim e conhecedor das fontes clássicas, ele não apenas ensinava uma língua: introduzia seus alunos em uma outra ordem do tempo, onde as palavras não se gastam e as ideias não se submetem à urgência.

Se Virgílio guiou Dante Alighieri através da selva escura, essa metáfora perfeita da confusão inicial, da ignorância e do extravio, posso dizer, sem exagero retórico, que também eu encontrei o meu guia. Não há formação intelectual que não comece, de algum modo, em uma floresta. E não há saída sem a mão segura de um mestre.

Foi ele quem me apresentou à literatura latina, sobretudo àquela forma de condensação estética e rigor emocional que encontramos em Horácio e Catulo. Mas seria injusto reduzir sua influência ao plano das leituras. O verdadeiro ensino não se dá apenas pelo conteúdo, ele se realiza pelo ambiente espiritual que o mestre cria ao seu redor.

Nesse sentido, a biblioteca do professor Jerônimo foi, para mim, mais do que um espaço de consulta: foi uma caverna na qual realizei um rito de  iniciação. Ali, entre estantes densas e volumes silenciosos, compreendi que o saber não é um acúmulo, mas uma forma de vida. Há bibliotecas que armazenam livros; outras, mais raras, formam espíritos. A sua era destas últimas.

O professor Jerônimo e eu somos de outra raça; pertencemos, e só mais tarde nos damos conta disso, a uma espécie particular: a dos homens que carregam no coração o pó das bibliotecas. Não o pó do abandono, mas o da permanência. O resíduo material de tudo aquilo que resistiu ao tempo, às modas, às pressões utilitárias. E foi sob essa poeira, quase sagrada, que muitos de nós fomos formados.

Há, porém, um aspecto ainda mais notável nessa trajetória. Em um mundo acadêmico cada vez mais orientado pela lógica do mercado, pela produtividade mensurável e pela utilidade imediata, o professor Gerônimo representava outra coisa: a fidelidade a um ideal de formação que não se curva ao presente. Ensinar latim, hoje, é um gesto que beira o anacronismo  e é precisamente por isso que se torna um ato de resistência. Pois o latim não serve; ele forma. Não prepara para o mercado; prepara para a compreensão daquilo que permanece.

Nesse ponto, sua formação beneditina não é um detalhe biográfico, mas uma chave interpretativa. Há, em sua figura, algo do monge que preserva, copia, transmite, não por nostalgia, mas por dever. Entre o claustro e a sala de aula, há mais continuidade do que se supõe. Em ambos os espaços, o que está em jogo é a disciplina do espírito, o cultivo da interioridade, a recusa da dispersão. Chamar um homem assim de professor é correto, mas insuficiente. Ele pertence àquela categoria cada vez mais rara de mestres que não apenas ensinam, mas orientam existências. Sua presença redefine o que entendemos por formação; sua memória, o que entendemos por gratidão.

Se hoje escrevo, publico livros, ensino, investigo, devo reconhecer que não comecei sozinho. Como tantos antes de mim, atravessei minha própria selva escura  e dela não teria saído sem a companhia certa. Pois há caminhos que só se tornam visíveis quando alguém, vindo de mais longe, nos indica a direção.

E é por isso que, ao recordar sua figura, não encontro palavras mais justas,  nem mais altas, do que aquelas que Dante Alighieri dirige ao seu guia, Virgílio,  na Divina Comédia:

“Meu Mestre, meu guia, meu maestro.”



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