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Wellington Freire

Feira de Santana e o avanço do vazio

25 de Março de 2026 | 07h 10
Feira de Santana e o avanço do vazio

Ontem, este jornal publicou um artigo do competente colunista André Pomponet trazendo um dado que deveria nos inquietar mais do que inquieta: segundo o censo do IBGE, cerca de 25% das casas em Feira de Santana encontram-se vazias. Não se trata de um detalhe estatístico, trata-se de um sintoma. E, como todo sintoma urbano, aponta para uma transformação mais profunda, silenciosa e, talvez, irreversível. A cidade não cresce apenas: ela se desloca.

Na década de 1970, quando foi construído o conjunto Feira I, fora do anel de contorno, a população lhe deu um nome revelador: “Cidade Nova”. O batismo popular captava algo essencial, a percepção de que o centro vital da cidade não é fixo, mas móvel. Hoje, esse mesmo movimento parece repetir-se, com maior intensidade e velocidade, em direção a regiões como a Avenida Noide Cerqueira, o Papagaio e o SIM. Ali, ergue-se uma nova centralidade, planejada, protegida, homogênea. Mas toda nova centralidade cobra um preço: ela esvazia outra.

O fenômeno que presenciamos não é apenas expansão urbana; é redistribuição de presença. A proliferação de condomínios fechados, impulsionada pelo medo, sobretudo o medo da violência, reorganiza o tecido social. As classes médias e altas migram para espaços murados, onde a cidade é filtrada, vigiada, controlada. O que fica para trás não é apenas um estoque de imóveis desocupados, mas uma paisagem social rarefeita. Casas vazias não são apenas estruturas inertes: são sinais de retirada.

E a retirada, na história das cidades, raramente é neutra. Ela inaugura processos. O primeiro deles é a perda de densidade humana, menos gente circulando, menos comércio ativo, menos vigilância informal. Em seguida, vem a degradação progressiva: imóveis abandonados deterioram-se, atividades ilícitas encontram abrigo, e a percepção de insegurança se retroalimenta. Forma-se, assim, um ciclo de abandono.

O entorno da estação rodoviária já oferece um vislumbre desse destino possível: áreas que, outrora, eram zonas de passagem e vitalidade convertem-se em espaços marcados pela marginalidade e pelo estigma. O termo “cracolândia”, ainda que impreciso e carregado, indica algo real: a transformação de vazios urbanos em territórios de exceção social. A questão central, portanto, não é apenas quantas casas estão vazias, mas o que esses vazios produzem.

A cidade moderna, ao contrário da cidade antiga, não teme crescer  teme concentrar. Por isso, ela se expande horizontalmente, criando novos polos e abandonando antigos. Mas esse modelo gera uma tensão estrutural: de um lado, enclaves de ordem e previsibilidade; de outro, zonas de indeterminação crescente. A oposição entre a “cidade nova” e a “cidade esvaziada” não é apenas espacial  é simbólica. Uma representa o desejo de controle; a outra, o risco do abandono.

Há, aqui, um paralelo histórico que não deve ser ignorado. Grandes centros urbanos ao longo do século XX, de Detroit a São Paulo, experimentaram processos semelhantes: deslocamento de elites, esvaziamento de áreas centrais, surgimento de bolsões de degradação. Em todos esses casos, o resultado foi o mesmo: a fragmentação da cidade enquanto experiência comum. Uma cidade fragmentada é, em última instância, uma cidade politicamente enfraquecida.

Porque a cidade não é apenas um espaço físico  é um pacto tácito de convivência. Quando parcelas significativas da população se retiram para espaços autossuficientes, esse pacto se rompe. O espaço público perde centralidade, e com ele perde-se também a ideia de pertencimento compartilhado. Feira de Santana encontra-se, ao que tudo indica, nesse limiar.

A pergunta que se impõe não é se a cidade continuará a crescer, isso é inevitável. A pergunta é se ela conseguirá evitar que seu crescimento produza desertos internos. Porque os vazios urbanos não permanecem vazios por muito tempo: eles são ocupados, redefinidos, apropriados, nem sempre pelas forças que a cidade desejaria. Ignorar esses vazios é permitir que eles se tornem destino. E talvez o verdadeiro desafio da cidade moderna não seja construir o novo, mas impedir que o antigo se transforme em ruína social.







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