Ao longo de seus vinte números, a revista Hera reuniu algumas das manifestações mais consistentes da poesia baiana contemporânea. Não se trata, contudo, de uma produção movida por nostalgias estéticas ou por exercícios de virtuosismo desligados do mundo. O que caracteriza esse conjunto de textos é justamente o contrário: uma poesia que se constrói a partir das tensões do presente e que faz do real, social, existencial e histórico, a sua matéria mais decisiva.
Há, sem dúvida, nos poetas ligados à revista, uma evidente preocupação com a elaboração formal do artefato literário. Mas essa exigência estética não conduz à atitude do nefelibata. O poeta não aparece aqui como figura afastada da realidade, mas como alguém profundamente inserido nela, ainda que não plenamente reconciliado com suas condições. A paisagem local, com a mitologia que inevitavelmente a acompanha, surge não como exotismo romântico, mas como ponto de ancoragem: uma forma de garantir que a linguagem não se dissocie da experiência concreta sob seus próprios pés.
É nesse contexto que se deve ler o poema “Ladainha”, de Marcos Porto. Mais do que um texto isolado, ele funciona como uma síntese exemplar de uma sensibilidade poética marcada pela tensão entre experiência individual e desencanto coletivo, entre memória íntima e recusa da idealização. Nele, encontram-se condensadas algumas das linhas de força que atravessam a produção da revista Hera: a recusa da evasão, o confronto direto com a realidade e a tentativa de reinventar a tradição a partir de uma voz radicalmente contemporânea.
Ladainha
A casa do pai
É muda
A casa do pai
É justa
A casa do pai
É surda
A casa do pai
É torta
A casa do pai
É bosta
A casa do pai
É do filho
E da puta.
O poema de Marcos Porto é uma demonstração de que embora o tema existencial seja uma das tônicas dominantes nas produções de Hera, esta pode assumir formas distintas sem que haja comprometimento de suas virtudes estéticas. O texto é poderoso nas suas intenções de agressividade. Sente-se a latência da insatisfação materializada em versos que se apresentam de modo cascateante como se estivessem a brotar em ondas dos recessos de um espírito aturdido. Ladainha é título mais que adequado porque a voz enunciadora parece estar, de fato, a rezar uma oração de lógica religiosa cristã invertida. As palavras parecem borbulhar na boca de quem as formula e verbaliza com intensidade das almas corrompidas pelo desgosto. O princípio da inversão adotado obedece a um sistema da enumeração seguida de uma espécie de carnavalização demoníaca. As imagens elencadas e postas em movimento mostram-se a serviço da desconstrução. Os adjetivos que povoam os versos e que concedem uma evidente musicalidade de ritual de Missa Negra são aplicados à casa do pai e são eles: muda, justa, surda, torta, bosta e puta.
Esse conjunto de epítetos aplicados ao ambiente doméstico ou ao lar do pai, portanto, ao centro do poder decisório familiar, é eminentemente negativo. Mesmo Justo não deve ser aceito na sua significação usual porque é evidente a intenção irônica do enunciador do discurso. A insatisfação que o corrói, certamente derivada de acúmulo de experiências que desabonam a possiblidade de reverência ao pater poder, o impede de propor qualquer outra alternativa que não seja a de apedrejamento. A casa do pai é muda, surda, torta, bosta e é do filho e também da puta. Todas as características costumeiramente definidoras daquilo que – no imaginário dos homens de fé – se associa a uma representação material e arquitetônica de um útero (a residência) são esvaziadas de significado. Em lugar da imagem de acolhimento ou de poderosa trincheira contra o mundo, o lar assume feições de espaço do demoníaco – simbolicamente falando –, zona de perdição, ou buraco negro simbólico que atrai os desavisados e os devolve na condição de massa amorfa e exaurida. Território dessacralizado de onde as virtudes humanas se ausentaram restando tão somente intenções malignas travestidas de bondade. Ou seja, recorrendo a uma imagem mítica, seria uma espécie de metamorfose da cabana da bruxa que habita as florestas dos contos de fadas e que atrai crianças incautas com suas ofertas sedutoras.
É preciso observar que a voz enunciadora se posiciona enquanto formuladora de discurso a partir de uma experiência já finda. Os sentimentos que ela nos transmite derivam do já vivido sob circunstâncias desfavoráveis. É um homem que regressa de uma experiência traumática que deixou marcas em sua psique. O que ele nos faz é um relato proferido sob pressão interior intensa, como se estivéssemos a ouvi-lo imediatamente após seu desembarque, recém vindo de alhures.
Por outro lado, é fundamental não se distanciar da dimensão mítica desse relato. A dimensão humana – a mais evidente – da casa do pai não nos deve fazer desdenhar de uma outra possibilidade interpretativa que se afigura complementar: a dimensão divina. “Na Casa do meu pai há muitas moradas”, diz o Cristo numa das passagens de um dos Evangelhos. A associação entre moradia humana, na qual a figura paterna exerce autoridade de líder condutor, se confunde com paisagem aprazível, com espaço sagrado por excelência no qual habita o divino. Nesse sentido, o processo de dessacralização da área de habitação levado a termo pela voz enunciadora é também extensivo a moradia celeste. Nessa revolta que ele alimenta contra a autoridade humana familiar há intenções paralelas de dirigi-la para o plano da supra realidade dos homens. Portanto, seria uma revolta prometeica contra aquilo por ele considerado como a causa última dos infortúnios do existir: a ausência de ordenamento cósmico realizado por um Pai que se mostra ausente e descompromissado com o homem.