Desde janeiro, quando passei a integrar o quadro de colunistas deste jornal, tenho me dedicado a análises diárias da conjuntura geopolítica mundial. Para um general o maior pesadelo é lutar sempre a guerra anterior; para um historiador o mal a ser evitado é o de ser confundido com mero comentarista de acontecimentos contemporâneos. Seu ofício, sua tarefa é a de estabelecer análises sistêmicas para além da “merda petrificada do presente”, como diz o verso de Maiakovski.
A guerra em curso no Oriente Médio entra em uma nova fase e, mais do que a sucessão de eventos, o que se impõe é a necessidade de inteligibilidade. Não se trata de reconstituir a cronologia da violência, mas de compreender o mecanismo que a organiza. O leitor não precisa de mais fatos; precisa de um princípio de ordenação.
Um desses princípios foi recentemente formulado por Robert Pape sob a forma do que chamou de “Armadilha de Escalada”. O modelo é simples na aparência e perturbador nas suas implicações: uma potência inicia um ataque limitado com objetivos definidos; o adversário responde ampliando o campo de batalha; diante disso, a potência agressora escala o conflito na tentativa de recuperar a iniciativa e, ao fazê-lo, aprofunda o seu próprio enredamento.
É precisamente essa dinâmica que começa a se delinear no conflito com o Irã. A fase inicial da campanha, marcada por uma intensa utilização de poder aéreo e pela tentativa de desorganização da cadeia de comando adversária, produziu resultados táticos mensuráveis. No entanto, como tantas vezes na história militar, o sucesso operacional não se converteu automaticamente em vantagem estratégica.
Ao contrário: a reação iraniana deslocou o conflito para além do espaço originalmente previsto. A ampliação do teatro de operações, seja por meio de ações indiretas, seja pela pressão sobre infraestruturas energéticas e rotas críticas, alterou a equação inicial e elevou os custos do engajamento. A guerra deixou de ser um evento delimitado para tornar-se um processo.
É nesse ponto que o modelo de Pape encontra o seu valor explicativo. Ele desloca o foco da análise dos meios, armamentos, alvos, superioridade aérea, para a relação entre ação e reação em um ambiente de incerteza política. A questão central deixa de ser “quem destrói mais” e passa a ser “quem consegue controlar a trajetória do conflito”. E essa é, historicamente, uma tarefa muito mais rara.
Esse deslocamento analítico permite também qualificar melhor o papel do poder aéreo. Longe de ser irrelevante, ele permanece decisivo, mas dentro de limites bem definidos. Sua eficácia é elevada na produção de choques iniciais, na degradação de capacidades e na sinalização de força. Sua limitação aparece quando se exige dele a produção de efeitos políticos duradouros. Entre destruir alvos e reorganizar uma ordem há uma distância que nenhuma tecnologia conseguiu ainda eliminar.
A dificuldade americana em estabilizar seus objetivos revela um problema clássico da estratégia: a inadequação entre fins e meios. Oscilando entre metas maximalistas, como a transformação do regime iraniano, e objetivos mais restritos, como a contenção de capacidades militares, a condução da guerra passa a transmitir ambiguidade. E, em estratégia, a ambiguidade raramente é neutra: ela encarece o conflito, dificulta a formação de coalizões e amplia o espaço de manobra do adversário.
Esse quadro se insere, por sua vez, em uma configuração mais ampla do sistema internacional. A competição entre grandes potências não se traduz necessariamente em confronto direto, mas produz um ambiente de fricção permanente, no qual conflitos regionais funcionam como pontos de pressão. A isso se pode chamar, com alguma precisão, de paz armada: não a ausência de guerra, mas a sua gestão contínua em níveis controlados até que deixem de ser.
O caso iraniano é exemplar porque explicita uma assimetria fundamental. Para os Estados Unidos, a guerra implica custos crescentes materiais, políticos e sistêmicos. Para o Irã, a simples sobrevivência do regime já pode ser convertida em vitória estratégica. Trata-se de uma equação desigual, na qual o ator mais forte militarmente não é necessariamente aquele em melhor posição ao final do conflito.
É nesse sentido que a guerra atual pode ser compreendida como uma guerra de ocasiões perdidas. Não por ausência de capacidade, mas por incapacidade de converter superioridade em decisão. Cada movimento destinado a encerrar o conflito parece, paradoxalmente, reabrir suas possibilidades. E assim, passo a passo, a estratégia cede lugar à dinâmica e a dinâmica, como ensina a história, raramente obedece a quem a desencadeia.