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Wellington Freire

A guerra que escapa das mãos: múltiplos teatros, nenhum desfecho

Wellington Freire - 20 de Março de 2026 | 09h 34
A guerra que escapa das mãos: múltiplos teatros, nenhum desfecho
Foto: Reprodução

Há guerras que avançam em linhas  e há guerras que se expandem em superfícies. O conflito atual envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos abandonou a geometria clássica do confronto direto e assumiu a forma mais complexa e difusa daquilo que se pode chamar de guerra em rede. Não se trata mais de dois polos em colisão, mas de um sistema de tensões que se propaga lateralmente, ativando atores, territórios e infraestruturas em múltiplos pontos simultâneos.

A chave para compreender essa mutação está no uso sistemático de forças indiretas. O Irã não responde apenas com seus próprios meios convencionais; responde através de uma arquitetura de alianças, milícias e organizações armadas distribuídas pelo Oriente Médio. Esse dispositivo, construído ao longo de décadas, permite a Teerã projetar poder sem expor diretamente o seu território a uma escalada irreversível. O ataque não parte necessariamente do centro ele emerge das bordas.

É nesse sentido que a guerra se desloca do eixo para a periferia. O Líbano, por meio da atuação do Hezbollah, transforma-se em frente ativa contra Israel. O Golfo Pérsico, com seus portos e rotas energéticas, converte-se em zona de pressão contínua. Infraestruturas críticas, navios comerciais, terminais de gás, corredores marítimos, deixam de ser apenas alvos econômicos e passam a integrar o campo de batalha. A guerra, assim, já não se limita ao território nacional dos beligerantes: ela infiltra o sistema que sustenta a ordem regional e global.

Essa lógica não é inteiramente nova, mas atinge agora um grau de sofisticação e abrangência inéditos. Um paralelo instrutivo pode ser traçado com a Guerra do Peloponeso, onde o confronto entre Atenas e Esparta rapidamente ultrapassou os limites das duas potências e se transformou em uma guerra de alianças, revoltas locais e intervenções indiretas. Cidades aparentemente periféricas tornaram-se decisivas, não por sua força intrínseca, mas por sua posição dentro de uma rede de dependências e lealdades. A guerra deixava de ser um duelo e passava a ser um sistema.

No caso contemporâneo, porém, a diferença fundamental reside na densidade das conexões. Enquanto no mundo grego a rede era política e militar, hoje ela é também econômica e energética. O Estreito de Hormuz, por onde transita uma parcela significativa do petróleo mundial, não é apenas um ponto estratégico: é um nó vital de uma rede global. Interferir em seu funcionamento não significa apenas pressionar um adversário, significa afetar cadeias de abastecimento, mercados financeiros e decisões políticas em escala planetária.

A guerra em rede, portanto, opera por dispersão e interdependência. Cada ataque local reverbera em múltiplas direções. Um bombardeio em uma instalação portuária no Golfo não é apenas um evento tático; é um sinal enviado a mercados, governos e populações. Do mesmo modo, o lançamento de mísseis a partir de um território aliado não é apenas uma ação militar: é uma mensagem sobre alcance, coordenação e capacidade de escalada.

Esse modelo produz uma consequência estratégica decisiva: a dificuldade de alcançar uma vitória clara. Em guerras lineares, o objetivo pode ser a destruição do exército inimigo ou a ocupação de sua capital. Em guerras em rede, tais objetivos tornam-se insuficientes. Mesmo que um centro seja atingido, a rede permanece funcional, redistribuindo suas capacidades e mantendo a pressão por meio de outros nós. A resiliência substitui a concentração como princípio organizador da guerra.

Além disso, a utilização de “proxies”, forças que atuam em nome ou em alinhamento com uma potência, oferece uma vantagem ambígua: permite agir sem assumir plenamente os custos políticos e militares da ação direta, mas ao mesmo tempo dificulta o controle da escalada. Cada ator periférico possui sua própria lógica, seus próprios interesses e sua própria dinâmica interna. A guerra, assim, torna-se parcialmente descentralizada, escapando ao controle absoluto dos seus patrocinadores.

O resultado é uma forma de conflito que combina intensidade e contenção. Intensidade, porque os ataques são reais, letais e contínuos. Contenção, porque nenhum dos atores principais parece disposto, ou capaz, de transformar essa guerra em um confronto total e decisivo. A rede, paradoxalmente, protege e expõe ao mesmo tempo: amplia o alcance da guerra, mas dilui a responsabilidade por sua escalada.

Nesse cenário, a pergunta clássica, quem vencerá?, perde parte de seu sentido. Mais pertinente é perguntar: quem conseguirá sustentar a rede por mais tempo? Quem será capaz de absorver os choques, manter suas conexões e continuar operando sob pressão constante?

A guerra contemporânea, ao espalhar-se lateralmente, deixa de ser apenas um confronto de forças para se tornar um teste de sistemas. Não vence necessariamente o mais forte, mas o mais adaptável, aquele que melhor compreende que, no mundo atual, o campo de batalha não é uma linha de frente, mas uma teia.



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