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Wellington Freire

Negar Cuba, controlar o hemisfério: a lógica estratégica de Washington

17 de Março de 2026 | 07h 48
Negar Cuba, controlar o hemisfério: a lógica estratégica de Washington
Foto: Reprodução

A declaração de Donald Trump, de que teria “a honra” de “tomar Cuba”, pode soar como improviso retórico ou bravata eleitoral. Mas, à luz da história estratégica, ela revela algo mais profundo: a persistência de uma lógica imperial que os Estados Unidos jamais abandonaram por completo. Cuba não é apenas uma ilha em crise; é, há mais de um século, uma peça estrutural na arquitetura de segurança do hemisfério ocidental.

O precedente é claro. A Guerra Hispano-Americana marcou o momento em que Washington emergiu como potência imperial e projetou sua força para além do continente. Formalmente, Cuba foi “libertada” do domínio espanhol. Na prática, foi submetida a um regime de tutela. A chamada Emenda Platt institucionalizou esse arranjo: garantia aos EUA o direito de intervir nos assuntos internos da ilha e assegurava bases estratégicas  entre elas, Guantánamo. Não se tratava de anexação, mas de algo mais sofisticado: controle indireto sob o signo da estabilidade. Essa fórmula, nem colônia, nem soberania plena, define o que poderíamos chamar de geopolítica de protetorado. E é precisamente essa lógica que ressurge, sob novas formas, no contexto atual.

A crise energética cubana não é apenas um colapso administrativo; ela se tornou um instrumento estratégico. Ao bloquear o fluxo de petróleo e agravar a fragilidade da infraestrutura elétrica, os Estados Unidos operam num registro clássico de coerção: não é necessário invadir quando se pode asfixiar. A guerra contemporânea, como já se viu em múltiplos teatros, desloca-se da destruição física para a paralisia sistêmica. O apagão torna-se, assim, uma forma de pressão política. Mas reduzir essa dinâmica a uma disputa bilateral entre Washington e Havana seria um erro analítico. O que está em jogo é mais amplo: a inserção de Cuba no tabuleiro da competição entre grandes potências.

Controlar Cuba, direta ou indiretamente, significa, antes de tudo, negar sua utilização por rivais estratégicos. A proximidade geográfica da ilha com o território continental dos Estados Unidos a transforma em um ponto sensível. Durante a Crise dos Mísseis de Cuba, essa realidade tornou-se dramática: a possibilidade de uma presença militar soviética a poucos quilômetros da Flórida foi percebida como ameaça existencial. A resposta americana foi inequívoca  e estabeleceu um princípio duradouro: o Caribe não pode ser militarmente contestado por potências extra-hemisféricas.

Esse princípio permanece ativo, ainda que sob novas configurações. A ascensão da China como potência global e o reposicionamento estratégico da Rússia reacendem, sob outra forma, o problema clássico da negação de acesso. Uma Cuba economicamente colapsada e politicamente isolada torna-se vulnerável à penetração externa, seja por meio de investimentos, seja por cooperação militar. Para Washington, isso representa um risco intolerável.

Nesse sentido, a retórica de Trump não deve ser lida apenas como agressividade circunstancial, mas como expressão de uma doutrina implícita: evitar, a qualquer custo, que o Caribe volte a se tornar uma zona de projeção de poder adversário. Trata-se de uma atualização, em chave contemporânea, da velha lógica da exclusão estratégica hemisférica.

Há aqui uma continuidade notável com a tradição geopolítica norte-americana. Desde o século XIX, o entorno imediato dos Estados Unidos é concebido como espaço de segurança ampliada  um cinturão que deve permanecer livre de interferências hostis. Cuba, por sua posição e história, ocupa um lugar central nesse dispositivo. Não é apenas um vizinho problemático; é um potencial vetor de ameaça indireta.

A questão decisiva, contudo, é que os instrumentos mudaram. Se no passado o controle se dava por ocupação militar ou imposição jurídica, hoje ele se exerce por meios mais difusos: sanções, bloqueios energéticos, pressão econômica. A coerção substitui a ocupação; o colapso interno substitui a intervenção direta.

Mas a lógica permanece a mesma. A “tentação de Cuba” não é um impulso novo  é a reatualização de um padrão histórico. E, como todo padrão persistente, revela uma verdade incômoda: no sistema internacional, certas geografias não têm o privilégio da neutralidade. E Cuba é uma delas.




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