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Wellington Freire

Refugiados, guerra e destino: a atualidade inesperada da Eneida

15 de Março de 2026 | 14h 41
Refugiados, guerra e destino: a atualidade inesperada da Eneida

No início da Eneida, o herói troiano Eneias não aparece em combate. Ele surge no mar, conduzindo um pequeno grupo de sobreviventes após a destruição de sua cidade. Troia caiu, sua pátria deixou de existir, e os que escaparam vagam pelas águas do Mediterrâneo em busca de um lugar onde possam recomeçar. O grande poema de Virgilio começa, portanto, não com uma vitória militar, mas com uma cena que hoje nos parece surpreendentemente familiar: a de um povo de refugiados.

Essa abertura já indica algo essencial sobre a natureza da epopeia virgiliana. Na tradição antiga, as narrativas heroicas costumam girar em torno de dois grandes movimentos: a viagem e a guerra. A errância pelo mundo e o confronto armado formam as duas faces da experiência épica. A Eneida reúne esses dois elementos em uma mesma trajetória: primeiro a longa peregrinação dos troianos expulsos de sua terra, depois as batalhas travadas na Itália para fundar uma nova pátria.

Mas o herói de Virgílio não se parece inteiramente com os grandes guerreiros da épica grega. Quando pensamos no modelo heroico antigo, a figura que imediatamente surge é a de Aquiles, o protagonista da Ilíada, poema atribuído a Homero. Aquiles luta movido por uma ética da glória individual. O campo de batalha é o lugar onde o guerreiro conquista fama imortal e afirma sua superioridade sobre os outros combatentes. Eneias é um personagem muito diferente.

Logo nos primeiros versos da Eneida, Virgílio define seu protagonista com um epíteto que se tornaria célebre: insignem pietate, “notável pela piedade”. A palavra latina pietas não significa apenas devoção religiosa. Ela designa um conjunto complexo de deveres: respeito pelos deuses, lealdade à família, fidelidade ao destino e responsabilidade para com a comunidade. Eneias é um herói que carrega consigo não apenas a própria ambição, mas a missão histórica de seu povo.

Essa característica aparece repetidamente no poema. Antes de tomar grandes decisões, o líder troiano consulta oráculos, interpreta sinais divinos e dirige preces aos deuses. Sua conduta está constantemente orientada por forças que ultrapassam sua vontade individual. Quando afirma, em certo momento, que não busca a Itália por desejo próprio, mas por imposição do destino, ele reconhece que sua vida está subordinada a um projeto maior.

A guerra que ocupa a segunda metade da Eneida deve ser compreendida à luz desse princípio. Ao chegar à península Itálica, Eneias não inicia imediatamente um conflito armado. Seu primeiro gesto é tentar estabelecer alianças e negociar com os governantes locais. O objetivo inicial é simples: obter um território onde os troianos possam se instalar pacificamente. A guerra começa apenas quando essas tentativas fracassam.

Esse detalhe altera profundamente o sentido das batalhas narradas por Virgílio. Na épica homérica, o combate muitas vezes aparece como a arena natural da honra heroica. Na Eneida, ele surge como uma solução extrema, imposta pelas circunstâncias. Eneias não luta para ampliar sua glória pessoal, mas para garantir a sobrevivência de seu povo e cumprir uma missão histórica: lançar as bases da futura Roma.

Isso não significa que o poema apresente a guerra de maneira simplista ou celebratória. Pelo contrário. À medida que o conflito se intensifica, Virgílio descreve com grande sensibilidade o sofrimento humano provocado pelos combates. Jovens guerreiros morrem, cidades são devastadas e alianças se desfazem em meio à violência.

A epopeia, nesse sentido, possui uma dimensão profundamente ambígua. A fundação de uma civilização exige sacrifícios, perdas e destruição. A glória de Roma nasce de um processo doloroso, marcado por deslocamentos, batalhas e mortes.

Talvez seja por isso que a Eneida continue a nos falar com tanta força. Muito antes de narrar a origem de um império, o poema conta a história de pessoas que perderam sua terra e tentam reconstruir a vida em outro lugar. Homens e mulheres que atravessam mares desconhecidos carregando consigo deuses domésticos, lembranças e esperanças.

Na tradição épica antiga, a guerra costuma ser apresentada como palco da glória individual. Virgílio, porém, oferece uma perspectiva diferente. Seu herói luta não apenas por si mesmo, mas por uma comunidade inteira e por um futuro que ainda não existe.A Ilíada celebra a grandeza do guerreiro. A Eneida narra o destino de um povo em busca de uma pátria.






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