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Wellington Freire

O fantasma de Albuquerque no Golfo Pérsico

Wellington Freire - 12 de Março de 2026 | 09h 50
O fantasma de Albuquerque no Golfo Pérsico
Foto: Reprodução

A história estratégica possui uma curiosa capacidade de repetição. Mudam as tecnologias, mudam os impérios, mas certos lugares do mapa mantêm uma persistência quase imutável. Entre esses pontos raros encontra-se o Estreito de Hormuz, gargalo marítimo que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e que, desde o início da modernidade, constitui um dos vértices permanentes da geopolítica global.

No início do século XVI, o primeiro estadista a compreender plenamente o valor estratégico desse estreito foi Afonso de Albuquerque, arquiteto do sistema imperial português no Índico. Diferentemente de muitos conquistadores de seu tempo, Albuquerque não pensava em termos de ocupação territorial extensiva. Portugal era um reino pequeno, com recursos humanos limitados para dominar vastos territórios asiáticos. Sua solução foi conceber um império essencialmente marítimo, fundado não na posse de terras, mas no domínio das rotas.

O projeto estratégico era de uma simplicidade quase geométrica. Se o comércio entre o Oriente e o Mediterrâneo passava inevitavelmente por certos estreitos e passagens, bastaria controlar esses “portões marítimos” para influenciar todo o sistema. Assim nasceu o plano português de dominar três gargalos do sistema asiático: Hormuz, à entrada do Golfo; o Estreito de Malaca, passagem entre o Índico e o mar da China; e Aden, chave da entrada do Mar Vermelho.

Essa concepção guiou as campanhas de Albuquerque. Em 1507, forças portuguesas ocuparam a ilha de Hormuz, iniciando a construção de uma fortaleza destinada a vigiar e taxar a passagem marítima. Em 1511, a conquista de Malaca garantiu o controle da principal rota das especiarias entre o Sudeste Asiático e a Índia. O único elo que escapou a esse sistema foi Aden, cuja tentativa de conquista fracassou em 1513. Ainda assim, o resultado foi notável: um império composto por poucos entrepostos costeiros, mas capaz de influenciar vastas correntes comerciais.

Essa arquitetura estratégica transformou o oceano Índico. O poder português não residia na ocupação territorial, mas na capacidade de vigiar os gargalos do comércio marítimo e impor taxas, bloqueios ou escoltas. Em linguagem moderna, Albuquerque havia concebido um sistema de controle de “choke points”, no qual geografia e poder naval se combinavam para regular fluxos econômicos inteiros.

Cinco séculos depois, a crise contemporânea no Golfo revela a permanência dessa lógica. Hoje, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo atravessa o Estreito de Hormuz, transformando-o em uma das artérias energéticas do planeta. Nesse contexto, a estratégia naval do Irã baseia-se precisamente na exploração dessa vulnerabilidade geográfica.

Teerã sabe que não pode enfrentar diretamente o poder naval dos Estados Unidos ou de suas alianças regionais. Em vez disso, aposta em uma doutrina de negação marítima: tornar o estreito perigoso demais para ser usado livremente. O instrumento dessa estratégia não é a batalha naval clássica, mas um conjunto de meios assimétricos, minas marítimas, drones, mísseis costeiros, submarinos leves e enxames de embarcações rápidas.

O objetivo não é dominar o mar, mas ameaçar sua utilização. Em termos estratégicos, trata-se de transformar o estreito num espaço de risco permanente, onde cada navio que atravessa carrega consigo a possibilidade de escalada militar e choque econômico global.

Nesse ponto emerge uma analogia histórica reveladora. Albuquerque compreendeu que quem controla os gargalos marítimos pode regular o comércio. A estratégia iraniana parte do mesmo princípio geográfico, mas invertendo sua finalidade. Onde o vice-rei português buscava monopolizar rotas, Teerã procura demonstrar que pode interrompê-las.

A diferença fundamental reside na escala do sistema internacional. No século XVI, o controle de Hormuz afetava sobretudo o comércio regional das especiarias. No século XXI, qualquer perturbação no estreito repercute imediatamente nos mercados globais de energia, nos preços do petróleo e na estabilidade econômica internacional.

Assim, o Golfo Pérsico tornou-se novamente um laboratório de história estratégica. O estreito que figurava nos cálculos imperiais de Albuquerque ressurge hoje como um dos epicentros da política mundial. A tecnologia militar mudou radicalmente, das caravelas armadas com canhões às redes de drones e mísseis, mas a lógica geopolítica permanece notavelmente estável.

A geografia, afinal, é a estrutura mais duradoura da história. E poucos lugares demonstram essa continuidade com tanta clareza quanto as águas estreitas de Hormuz, onde, separados por cinco séculos, um almirante português e estrategistas iranianos parecem dialogar silenciosamente através da mesma realidade imutável do mapa.




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