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Wellington Freire

Quando o mar se torna arma: a estratégia iraniana no Golfo

Wellington Freire - 11 de Março de 2026 | 15h 21
Quando o mar se torna arma: a estratégia iraniana no Golfo
Foto: Reprodução

A guerra que se desenrola no Oriente Médio entrou numa fase em que a lógica militar clássica, conquista territorial, destruição do inimigo, supremacia aérea, começa a ceder lugar a outra dimensão, mais sutil e potencialmente mais devastadora: a manipulação de gargalos estratégicos da economia mundial. O atual conflito mostra que, diante da superioridade militar de seus adversários, o Irã procura deslocar o campo de batalha para um terreno em que a assimetria pode ser revertida: o sistema energético global e suas vulnerabilidades logísticas.

Nesse contexto, o epicentro estratégico da crise é o Estreito de Hormuz. Mais do que uma simples passagem marítima, Hormuz constitui um dos grandes pontos de estrangulamento do comércio mundial. Por suas águas transitam cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, além de volumes significativos de gás natural liquefeito. Trata-se de uma artéria vital da economia internacional, comparável, em termos de importância sistêmica, ao Canal de Suez ou ao Canal do Panamá. Ao ameaçar esse corredor marítimo, Teerã não desafia apenas seus inimigos imediatos, mas a própria estabilidade do mercado energético global.

A história militar demonstra que os estreitos e passagens marítimas frequentemente se tornam instrumentos de poder desproporcionais à força material de quem os controla. Durante a Primeira Guerra Mundial, o bloqueio naval britânico contra a Alemanha transformou o controle do mar em uma arma estratégica capaz de estrangular uma economia inteira. Na Segunda Guerra Mundial, o Atlântico tornou-se o palco de uma guerra logística em que submarinos e comboios decidiram o destino industrial da Europa. Hoje, no Golfo, a mesma lógica reaparece sob novas formas tecnológicas.

O Irã parece ter compreendido que não precisa derrotar militarmente Estados Unidos ou Israel para alcançar resultados estratégicos relevantes. Basta tornar o custo econômico da guerra suficientemente elevado para pressionar governos, mercados e aliados. Ao atacar navios mercantes, ameaçar minerar rotas marítimas e militarizar a costa do Golfo, Teerã envia um sinal claro: se sua segurança estiver em risco, o sistema energético mundial também estará.

Essa lógica representa uma forma particular de guerra econômica. Ao contrário das sanções, instrumento tradicional das grandes potências, trata-se de uma estratégia que explora vulnerabilidades estruturais da globalização. O petróleo, apesar de décadas de debate sobre transição energética, continua sendo a base do funcionamento das economias industriais. Uma interrupção significativa no fluxo que atravessa Hormuz provocaria choques inflacionários, turbulência nos mercados e pressões políticas em países distantes do teatro militar.

Nesse sentido, a estratégia iraniana aproxima-se de um princípio clássico da guerra assimétrica: deslocar o conflito para um domínio em que a superioridade material do adversário perde parte de sua eficácia. Não é casual que a ameaça mais poderosa de Teerã não seja um ataque convencional de larga escala, mas a possibilidade de desorganizar o comércio global de energia.

Paralelamente, o conflito revela uma transformação profunda na natureza da guerra naval. Durante grande parte do século XX, o poder marítimo esteve associado a grandes navios de superfície, porta-aviões, cruzadores, destróieres, cuja construção exigia investimentos colossais e décadas de planejamento. Hoje, porém, tecnologias relativamente baratas começam a alterar esse equilíbrio.

Drones de ataque, embarcações rápidas e minas marítimas reaparecem como instrumentos capazes de desafiar marinhas tecnologicamente superiores. Em vez de confrontos diretos entre frotas, o cenário passa a privilegiar ações de interdição, sabotagem e saturação. Trata-se de uma lógica que lembra, em certa medida, a guerra submarina irrestrita que marcou o Atlântico durante a Segunda Guerra Mundial: um conflito voltado menos para destruir o inimigo militar do que para interromper o fluxo vital de suprimentos.

No Golfo, essa transformação assume contornos particularmente claros. Pequenos drones podem incendiar cargueiros; minas relativamente simples podem fechar rotas marítimas inteiras; enxames de embarcações leves podem saturar sistemas defensivos sofisticados. A relação entre custo e impacto estratégico torna-se profundamente assimétrica.

O resultado é um paradoxo da guerra contemporânea. Quanto mais complexas e caras se tornam as grandes plataformas militares, mais vulneráveis elas podem se tornar diante de tecnologias baratas e dispersas. A superioridade absoluta no campo convencional não garante controle total do espaço marítimo quando o adversário está disposto a transformar o comércio global em campo de batalha.

Assim, o que se desenrola no Golfo Pérsico não é apenas mais um episódio da longa instabilidade do Oriente Médio. Trata-se de um laboratório estratégico em que se combinam três tendências decisivas do século XXI: o uso de gargalos logísticos como instrumento de poder, a militarização da interdependência econômica e a ascensão de formas assimétricas de guerra naval.

Se o conflito continuar a escalar, o mundo poderá descobrir que, em tempos de globalização, o ponto mais vulnerável de uma potência não está necessariamente em suas fronteiras ou bases militares, mas nas rotas invisíveis que mantêm em funcionamento a economia internacional. E poucas dessas rotas são tão decisivas, ou tão frágeis, quanto as águas estreitas de Hormuz.

Nota: Minha primeira tese de doutorado tratou de estratégia militar naval no século XVI. Lá trato longamente da questão pela disputa do EStreito de Ormuz no século XVI. A quem interessar, minha tese se intitula " A Cavalaria do Mar". Está disponível na internet



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