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Wellington Freire

O retorno das guerras por procuração

10 de Março de 2026 | 09h 28
O retorno das guerras por procuração

As guerras raramente são apenas aquilo que parecem ser. Em muitos momentos da história, os combates diretos ocultam um jogo mais amplo, no qual potências maiores medem forças sem se enfrentarem frontalmente. O conflito atual no Oriente Médio apresenta precisamente esse padrão: por trás dos ataques e das retaliações entre o Irã e seus adversários regionais, desenha-se uma guerra indireta, na qual diferentes atores operam como instrumentos de um confronto estratégico mais amplo.

Essa lógica não é nova. Durante grande parte do século XX, o mundo viveu sob o signo das chamadas guerras por procuração. Naquele período, os Estados Unidos e a União Soviética evitavam um confronto direto  que poderia escalar para uma guerra nuclear  e disputavam influência por meio de aliados regionais. Conflitos como os do Vietnã, do Afeganistão ou de Angola tornaram-se arenas onde potências globais testavam sua força sem entrar em combate direto. Algo semelhante começa a se desenhar novamente no Oriente Médio.

O Irã construiu, ao longo das últimas décadas, uma complexa rede de aliados armados e organizações militantes que ampliam seu alcance estratégico na região. Entre esses atores, destaca-se o Hezbollah, poderoso movimento político e militar libanês que funciona como uma das principais extensões da influência iraniana no Levante. Sua capacidade militar , construída ao longo de décadas de confrontos com Israel,  permite a Teerã exercer pressão indireta contra adversários regionais.

Esse modelo de projeção de poder tornou-se um dos pilares da estratégia iraniana. Em vez de depender apenas de suas forças armadas convencionais, o país opera por meio de redes de aliados, milícias e grupos armados espalhados pela região. Assim, a influência iraniana alcança não apenas o Líbano, mas também o Iraque, a Síria e o Iêmen.

Essa estratégia cria uma situação peculiar: ataques e operações militares podem ser realizados por atores que formalmente não representam o Estado iraniano, mas que estão alinhados com seus objetivos estratégicos. O resultado é um sistema de pressão constante sobre rivais regionais, sem necessariamente provocar uma guerra aberta entre Estados.

Do outro lado desse tabuleiro geopolítico estão as monarquias árabes do Golfo e os Estados Unidos. A presença militar americana na região permanece significativa, com bases distribuídas em países como Qatar, Bahrein e Kuwait. Essas instalações militares constituem não apenas instrumentos de defesa regional, mas também pontos estratégicos de projeção de poder no Golfo Pérsico.

Nesse contexto, qualquer ataque a essas bases assume um significado que vai além do aspecto tático. Ele representa um recado político e estratégico dirigido a Washington. Mesmo quando executadas por forças indiretas ou milícias aliadas, essas ações sinalizam a capacidade de desafiar a presença americana na região.

As monarquias do Golfo, por sua vez, ocupam uma posição delicada nesse cenário. Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuem alianças estratégicas com os Estados Unidos, mas também enfrentam diretamente a pressão regional exercida pelo Irã. Isso os transforma simultaneamente em parceiros de Washington e em alvos potenciais dentro dessa disputa indireta.

O resultado é um sistema de confrontos fragmentados. Ataques com drones, mísseis de médio alcance, operações de milícias e sabotagens contra infraestrutura energética tornam-se episódios de uma guerra difusa, na qual a linha entre conflito direto e indireto permanece deliberadamente ambígua.

Essa ambiguidade é estratégica. Ela permite aos atores envolvidos calibrar a intensidade da violência sem necessariamente ultrapassar o limiar de uma guerra total. Trata-se de uma forma de conflito controlado, no qual cada movimento é cuidadosamente calculado para evitar uma escalada irreversível.

A história demonstra que esse tipo de guerra indireta pode prolongar conflitos por décadas. Durante a Guerra Fria, a lógica das guerras por procuração transformou diversas regiões do mundo em campos de batalha prolongados. O Oriente Médio, marcado por rivalidades religiosas, disputas territoriais e competição energética, oferece hoje um terreno particularmente propício para esse tipo de dinâmica.

A escalada recente indica que a região pode estar entrando em uma nova fase dessa lógica estratégica. A diferença é que, ao contrário do passado, o sistema internacional atual envolve múltiplos centros de poder. Enquanto os Estados Unidos continuam sendo o principal ator militar externo na região, outras potências  especialmente a China e a Rússia  observam atentamente os desdobramentos do conflito.

Nesse cenário, o Oriente Médio volta a assumir um papel histórico recorrente: o de palco onde disputas globais são travadas de forma indireta. Como ocorreu tantas vezes ao longo do século XX, guerras aparentemente regionais revelam-se, na verdade, capítulos de uma competição geopolítica muito mais ampla.

E, como também ensina a história, guerras por procuração raramente permanecem limitadas por muito tempo. Quando múltiplos atores armados, interesses estratégicos e rivalidades ideológicas convergem no mesmo espaço, a fronteira entre conflito indireto e guerra aberta pode desaparecer com surpreendente rapidez.




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