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Wellington Freire

A China e as lições militares da guerra do Irã

09 de Março de 2026 | 07h 38
A China e as lições militares da guerra do Irã

Guerras raramente permanecem confinadas ao lugar onde começam. Mesmo quando não participam diretamente de um conflito, as grandes potências observam cada detalhe, erros, acertos, custos e reações internacionais. A atual guerra envolvendo o Irã tornou-se, nesse sentido, um laboratório estratégico para Pequim. A liderança chinesa acompanha a crise com atenção não apenas por causa do petróleo ou da estabilidade do Oriente Médio, mas sobretudo por um motivo mais sensível: Taiwan.

Para o governo de Xi Jinping, a reunificação com a ilha governada autonomamente permanece um objetivo histórico e estratégico. Pequim considera Taiwan parte inseparável da China, enquanto os Estados Unidos mantêm uma política ambígua de apoio militar e político à ilha. Nesse contexto, qualquer guerra envolvendo Washington fornece pistas sobre como a superpotência americana reage a crises militares internacionais.

O primeiro elemento que os estrategistas chineses observam é a velocidade da reação americana. A intervenção dos Estados Unidos ao lado de Israel mostra que Washington ainda possui capacidade de mobilização militar global em tempo relativamente curto. Bases espalhadas pelo Golfo, capacidade naval no Mediterrâneo e poder aéreo estratégico continuam permitindo aos EUA atuar rapidamente em diferentes teatros. Para Pequim, isso reforça uma realidade incômoda: em caso de crise no estreito de Taiwan, a presença militar americana no Pacífico ainda seria decisiva.

O segundo ponto é a eficácia do poder militar americano e de seus aliados. Conflitos contemporâneos têm revelado uma característica constante: a importância da supremacia tecnológica. Sistemas de defesa antimísseis, inteligência por satélite, drones e guerra eletrônica desempenham papel central. A China investe pesadamente nesses mesmos setores, mas observa atentamente como esses sistemas funcionam em combate real. A guerra no Oriente Médio fornece dados valiosos sobre defesa aérea, interceptação de mísseis e ataques de precisão — todos elementos cruciais em qualquer cenário envolvendo Taiwan.

Há também um terceiro fator, frequentemente subestimado, que interessa a Pequim: o custo político das guerras para os Estados Unidos. A política externa americana historicamente oscila entre momentos de intervenção ativa e períodos de retração estratégica. Após conflitos longos e impopulares, cresce a pressão doméstica por contenção. Se a guerra no Oriente Médio se prolongar, aumentando custos financeiros e desgaste político, Pequim poderá interpretar isso como um sinal de que Washington estaria menos disposto a abrir outro grande teatro de conflito no Indo-Pacífico.

A história oferece precedentes claros para esse tipo de cálculo estratégico. Durante a Guerra Fria, potências rivais frequentemente observavam conflitos periféricos para avaliar o comportamento do adversário. A União Soviética estudou atentamente a reação americana à Guerra do Vietnã. Da mesma forma, Washington analisou o desempenho soviético no Afeganistão. Hoje, em escala global, o mesmo mecanismo de observação estratégica está em funcionamento.

Isso não significa, naturalmente, que a China pretenda agir de imediato contra Taiwan. Pelo contrário, a tradição estratégica chinesa valoriza paciência e cálculo de longo prazo. O objetivo de Pequim é acumular vantagens econômicas, tecnológicas e militares antes de qualquer decisão irreversível. No entanto, cada guerra fornece informações importantes sobre a dinâmica do poder internacional.

Outro aspecto que interessa à liderança chinesa é a resposta da comunidade internacional. Sanções econômicas, alinhamentos diplomáticos e reações de aliados regionais revelam como diferentes países se posicionam diante de uma crise militar. Para Pequim, compreender o comportamento de potências intermediárias, especialmente no Sudeste Asiático e na Europa, é fundamental para prever o grau de isolamento que enfrentaria em um eventual conflito envolvendo Taiwan.

Nesse sentido, a guerra no Oriente Médio reforça uma lição clássica da geopolítica: conflitos regionais frequentemente produzem efeitos globais. Mesmo quando não participa diretamente, uma potência emergente como a China utiliza cada crise internacional como oportunidade de aprendizado estratégico.

No final das contas, a guerra atual talvez não altere imediatamente o equilíbrio de poder no Indo-Pacífico. Mas ela oferece algo igualmente valioso para os estrategistas chineses: um raro vislumbre de como os Estados Unidos reagirão quando confrontados com uma crise militar de grandes proporções no século XXI.

E, para Pequim, compreender esse comportamento pode ser tão importante quanto qualquer arma.



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