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Wellington Freire

De Yamamoto a Khamenei: a evolução da guerra contra o comando

Wellington Freire - 28 de Fevereiro de 2026 | 19h 39
De Yamamoto a Khamenei: a evolução da guerra contra o comando
Foto: Handout

Se confirmada a morte de Ali Khamenei, não estaremos apenas diante da eliminação de um líder, mas da possível consolidação de uma prática: a decapitação seletiva como instrumento ordinário de política internacional.

Os próprios contornos da operação indicam algo significativo. Não se trata, ao menos até o momento, de guerra declarada, invasão territorial ou ocupação prolongada. Estados Unidos e Israel parecem ter conduzido uma ação limitada, com objetivo preciso: atingir o centro decisório do regime. Uma operação cirúrgica destinada não a destruir o Estado iraniano em sua materialidade, mas a produzir um vazio no topo. O gesto é militar; o efeito pretendido é político.

Historicamente, a eliminação deliberada de chefes de Estado sempre foi tratada com extremo cuidado. O precedente frequentemente lembrado é o abate do almirante Isoroku Yamamoto, em 1943, um comandante militar em teatro ativo de guerra, morto numa operação de inteligência que visava enfraquecer a Marinha Imperial Japonesa. Ainda assim, Yamamoto não era o chefe político do Japão.

Durante a Segunda Guerra Mundial, não houve doutrina aliada sistemática de assassinato de Adolf Hitler ou Benito Mussolini como política oficialmente assumida. Mesmo quando Mussolini caiu, foi capturado por seus próprios compatriotas. O tabu existia, não por sentimentalismo, mas por cálculo: matar o chefe supremo de um Estado alterava a natureza do conflito e criava precedentes perigosos.

A distinção clássica era clara: eliminar um comandante militar em combate é ato de guerra; eliminar o soberano é um gesto que toca o cerne da soberania. O primeiro pertence ao campo operacional; o segundo, ao simbólico e ao jurídico.

O que parece emergir agora é o colapso dessa distinção. A “operação cirúrgica” substitui a guerra formal. O ataque limitado substitui a campanha prolongada. A linguagem da precisão tecnológica mascara o que, na substância, pode ser um ato de regicídio internacional. Se a liderança suprema torna-se alvo legítimo sob a justificativa de ameaça estratégica,  nuclear, regional ou ideológica , abre-se uma nova etapa na prática do poder global.

Há, evidentemente, argumentos pragmáticos a favor da decapitação estratégica. Eliminar o vértice decisório pode reduzir a capacidade de coordenação do inimigo, produzir desorientação interna e abreviar confrontos maiores. No caso iraniano, a reação observada até aqui sugere cálculo: uma retaliação suficientemente visível para preservar honra e dissuasão, mas aparentemente calibrada para evitar guerra total. Isso reforça a hipótese de que a ofensiva não buscava um conflito amplo, mas uma alteração controlada do equilíbrio interno.

Ainda assim, a questão central não é apenas tática; é estrutural. Se o assassinato seletivo do chefe máximo de um Estado passa a integrar o repertório aceitável das grandes potências, a imunidade soberana sofre erosão profunda. O que impede que outros líderes, considerados ameaças existenciais por seus adversários, passem a figurar como alvos legítimos? A fronteira entre dissuasão e eliminação preventiva torna-se perigosamente tênue.

Alguns argumentarão que não há novidade: mudanças de regime sempre fizeram parte da política internacional. Mas há diferença entre fomentar pressões internas, apoiar opositores ou intervir em guerras civis e atingir diretamente o líder supremo de um Estado funcional, sem declaração formal de guerra. A primeira lógica pertence ao campo da influência; a segunda, ao da supressão física do soberano.

Nesse sentido, não estamos simplesmente diante de um retorno ao passado. O regicídio era prática comum em eras pré-modernas, quando a política era personalista e dinástica. A ordem internacional contemporânea, estruturada sobre a ideia de soberania jurídica, buscou afastar essa lógica. A possível morte de Khamenei sinaliza, talvez, o retorno de uma política personalizada em ambiente tecnológico avançado: precisão balística combinada com cálculo geopolítico.

A pergunta que se impõe é inevitável: estamos assistindo à formação de uma doutrina informal de mudança de regime por decapitação seletiva? Se a resposta for afirmativa, o sistema internacional ingressa em fase de maior volatilidade. Chefes de Estado passam a viver sob ameaça permanente; crises deixam de ser apenas disputas entre aparelhos militares e tornam-se confrontos diretos entre vértices de poder.

Não se trata apenas do destino de um homem. Trata-se do destino de um princípio. Se a liderança suprema pode ser removida por ataque externo em nome da estabilidade, a própria ideia de estabilidade passa a depender da capacidade de cada regime proteger fisicamente seu topo. A política internacional, então, aproxima-se menos do direito e mais da anatomia.



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