Se confirmada a morte de Ali Khamenei, não estaremos apenas
diante da eliminação de um líder, mas da possível consolidação de uma prática:
a decapitação seletiva como instrumento ordinário de política internacional.
Os próprios contornos da operação indicam algo significativo.
Não se trata, ao menos até o momento, de guerra declarada, invasão territorial
ou ocupação prolongada. Estados Unidos e Israel parecem ter conduzido uma ação
limitada, com objetivo preciso: atingir o centro decisório do regime. Uma
operação cirúrgica destinada não a destruir o Estado iraniano em sua
materialidade, mas a produzir um vazio no topo. O gesto é militar; o efeito
pretendido é político.
Historicamente, a eliminação deliberada de chefes de Estado
sempre foi tratada com extremo cuidado. O precedente frequentemente lembrado é
o abate do almirante Isoroku Yamamoto, em 1943, um comandante militar em teatro
ativo de guerra, morto numa operação de inteligência que visava enfraquecer a
Marinha Imperial Japonesa. Ainda assim, Yamamoto não era o chefe político do
Japão.
Durante a Segunda Guerra Mundial, não houve doutrina aliada
sistemática de assassinato de Adolf Hitler ou Benito Mussolini como política
oficialmente assumida. Mesmo quando Mussolini caiu, foi capturado por seus
próprios compatriotas. O tabu existia, não por sentimentalismo, mas por
cálculo: matar o chefe supremo de um Estado alterava a natureza do conflito e
criava precedentes perigosos.
A distinção clássica era clara: eliminar um comandante
militar em combate é ato de guerra; eliminar o soberano é um gesto que toca o
cerne da soberania. O primeiro pertence ao campo operacional; o segundo, ao
simbólico e ao jurídico.
O que parece emergir agora é o colapso dessa distinção. A
“operação cirúrgica” substitui a guerra formal. O ataque limitado substitui a
campanha prolongada. A linguagem da precisão tecnológica mascara o que, na
substância, pode ser um ato de regicídio internacional. Se a liderança suprema
torna-se alvo legítimo sob a justificativa de ameaça estratégica,
nuclear, regional ou ideológica , abre-se uma nova etapa na prática do poder
global.
Há, evidentemente, argumentos pragmáticos a favor da
decapitação estratégica. Eliminar o vértice decisório pode reduzir a capacidade
de coordenação do inimigo, produzir desorientação interna e abreviar confrontos
maiores. No caso iraniano, a reação observada até aqui sugere cálculo: uma
retaliação suficientemente visível para preservar honra e dissuasão, mas
aparentemente calibrada para evitar guerra total. Isso reforça a hipótese de
que a ofensiva não buscava um conflito amplo, mas uma alteração controlada do
equilíbrio interno.
Ainda assim, a questão central não é apenas tática; é
estrutural. Se o assassinato seletivo do chefe máximo de um Estado passa a
integrar o repertório aceitável das grandes potências, a imunidade soberana
sofre erosão profunda. O que impede que outros líderes, considerados ameaças
existenciais por seus adversários, passem a figurar como alvos legítimos? A
fronteira entre dissuasão e eliminação preventiva torna-se perigosamente tênue.
Alguns argumentarão que não há novidade: mudanças de regime
sempre fizeram parte da política internacional. Mas há diferença entre fomentar
pressões internas, apoiar opositores ou intervir em guerras civis e atingir
diretamente o líder supremo de um Estado funcional, sem declaração formal de
guerra. A primeira lógica pertence ao campo da influência; a segunda, ao da
supressão física do soberano.
Nesse sentido, não estamos simplesmente diante de um retorno
ao passado. O regicídio era prática comum em eras pré-modernas, quando a
política era personalista e dinástica. A ordem internacional contemporânea,
estruturada sobre a ideia de soberania jurídica, buscou afastar essa lógica. A
possível morte de Khamenei sinaliza, talvez, o retorno de uma política
personalizada em ambiente tecnológico avançado: precisão balística combinada
com cálculo geopolítico.
A pergunta que se impõe é inevitável: estamos assistindo à
formação de uma doutrina informal de mudança de regime por decapitação
seletiva? Se a resposta for afirmativa, o sistema internacional ingressa em
fase de maior volatilidade. Chefes de Estado passam a viver sob ameaça
permanente; crises deixam de ser apenas disputas entre aparelhos militares e
tornam-se confrontos diretos entre vértices de poder.
Não se trata apenas do destino de um homem. Trata-se do destino de um princípio. Se a liderança suprema pode ser removida por ataque externo em nome da estabilidade, a própria ideia de estabilidade passa a depender da capacidade de cada regime proteger fisicamente seu topo. A política internacional, então, aproxima-se menos do direito e mais da anatomia.