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Wellington Freire

Meditações de um prisioneiro de guerra

07 de Fevereiro de 2026 | 16h 43
Meditações de um prisioneiro de guerra

Domingo, 30 de janeiro do ano da graça de 2026, cidade de Salvador, antiga capital de uma possessão colonial ultramarina. Como o integrante de uma coluna de prisioneiros de guerra que marchava pelas ruas sendo exibido à população de uma cidade inimiga, você caminha cabisbaixo e sombrio pelos corredores de um shopping center.

Você se deslocou até aquela cidade por motivos de ordem laboral e sua presença ali, naquele centro de compras, é mera imposição circunstancial; exausto, você se deixa cair pesadamente em uma cadeira e tenta se recompor interiormente enquanto lança olhares ao redor de si: há muito barulho, desordem, luzes de brilho intenso e muitas pessoas - jovens e velhos - sentados ao redor de mesas quadradas e redondas; e sobre elas você vê grandes quantidades de alimentos industrializados, alimentos ultraprocessados, daqueles potencialmente capazes de provocarem doenças do trato digestivo em médio prazo. Eles chamam aquele lugar de praça de alimentação.

Todas as mesas estão ocupadas e todos os ocupantes comem alegremente.Você olha e se pergunta: porque tanta gente rindo sob aquelas luzes de lâmpadas potentes? porque tanta gente rindo enquanto ingere venenos de efeito retaardado? porque tanta alegria? Será que eles estão comemorando a coroação do Kaiser Guilherme II? Com atraso você se recorda que o Kaiser foi deposto após os acontecimentos de novembro de 1914 e que se ele se exilou na Dinamarca. Toda essa algazarra, esses sons desarmoniosos, essa discordante melodia de vozes fere  seus ouvidos. Você se ergue com dificuldade, o peso da angústia dificulta seus movimentos de homem velho, e se afasta dali com passos lentos. Você percorre os corredores tão amplamente iluminados que ferem sua sensibilidade ocular.

Os ruídos estão por toda parte; para onde quer que você olhe há sons discordantes e multidões caminhando e rindo enquanto levam pacotes nas mãos. Custosamente você consegue chegar à saída, mas lá fora o quadro é ainda mais desolador: uma multidão se espreme em um passeio à espera de veículos de transporte de passageiros; ali é uma espécie de ponto de espera de carros de transporte por aplicativos. Você se sente como um soldado em um campo de prisioneiros de guerra cercado por arames farpados; ou como se todos ali - inclusive você - estivessem na outra margem do rio aguardando a barca de Caronte. Seu veículo chega; você embarca nele para longe dali; mas antes você lança para a multidão que se espreme naquele passeio e você se recorda do discurso de Caronte, em um dos cantos de A Divina Comédia: “Ai de vós, almas malditas. A luz do sol novamente jamais vereis”.

O veículo começa a se mover lentamente, vencendo com dificuldade o emaranhado humano que se comprime no passeio. Pela janela, você observa os rostos iluminados pelos celulares, pela expectativa da corrida aceita, pela ansiedade difusa de quem espera ser chamado. Ninguém parece perceber ninguém. Não há hostilidade, tampouco fraternidade. Apenas coexistência.

À medida que o carro se afasta, o ruído vai diminuindo, como se alguém girasse lentamente o botão de um rádio mal sintonizado. Ainda assim, os sons permanecem dentro de você, martelando os tímpanos com ecos tardios. A luz artificial do shopping, mesmo distante, continua a ferir seus olhos por dentro. Você pisca várias vezes, como quem tenta se readaptar à penumbra depois de um bombardeio noturno.

É então que lhe ocorre, com um atraso incômodo, que talvez a metáfora do campo de prisioneiros não seja inteiramente justa. Ou talvez seja, mas não da forma que você imaginara. Você não está cercado por inimigos. Está cercado por sobreviventes. Cada um ali, rindo sob lâmpadas agressivas e ingerindo alimentos de procedência duvidosa, talvez esteja apenas tentando preencher o vazio de um domingo qualquer, de uma vida qualquer, em uma época que já não promete sentido algum.

A praça de alimentação lhe retorna à mente não mais como inferno, mas como trincheira. Um espaço de ruído constante, excesso visual, luz artificial e comida ultraprocessada, sim, mas também um lugar onde homens e mulheres descansam as armas invisíveis com as quais enfrentam seus próprios dias. Não celebram imperadores depostos nem vitórias militares. Celebram intervalos.

Você se pergunta, então, se o prisioneiro de guerra é realmente aquele que caminha cabisbaixo entre vitrines e mesas engorduradas, ou se é aquele que observa tudo isso incapaz de participar, aprisionado em sua lucidez amarga, em sua memória histórica, em sua recusa íntima de aceitar o mundo como ele se apresenta.

Talvez, pensa você, não haja barca alguma esperando na outra margem. Talvez Caronte esteja desempregado há séculos, esquecido em algum canto da mitologia, enquanto os vivos inventam seus próprios infernos,  e também suas próprias formas precárias de atravessá-los.

Você fecha os olhos por um instante, sabendo que isso não é descanso, mas contenção. O prisioneiro não sonha com fuga nem com resgate. Aprende a existir dentro dos limites impostos, a carregar consigo o mapa do mundo que perdeu e a avançar sem esperança, porque até a esperança pode ser uma forma sutil de capitulação.

 



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