Começa, nesta segunda-feira (22), em Brasília, o Acampamento
Terra Livre (ATL), principal mobilização dos povos originários brasileiros. Milhares
de participantes, que representam as centenas de etnias indígenas existentes no
território nacional, visam lutar, uma vez mais, contra o marco temporal. Pela
tese, os povos indígenas somente teriam direito à demarcação de terras já
ocupadas por eles na data da promulgação da Constituição Federal, em 5 de
outubro de 1988.
De acordo com a Agência Brasil, a expectativa da Articulação
Nacional dos Povos Indígenas (Apib), entidade organizadora do encontro, é que a
20ª edição do ATL seja a mais participativa da história, superando os mais de 6
mil indígenas que foram a Brasília no ano passado.
Com o lema "Nosso marco é ancestral, sempre estivemos
aqui", a mobilização de 2024 terá como prioridade pressionar para que o
marco temporal seja declarado, novamente, inconstitucional, pelo Supremo
Tribunal Federal (STF).
Em setembro de 2023, a Suprema Corte se posicionou, pela
primeira vez, sobre a tese. A maioria dos magistrados que julgaram a questão, naquele
momento, votou pela inconstitucionalidade do marco temporal. Este, no entanto,
foi inserido na legislação, por meio de um Projeto de Lei (PL) aprovado pelo
Congresso Nacional.
No mesmo ano, a medida foi vetada por Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), chefe do Executivo Nacional, mas acabou sendo mantida pelos
congressistas, que derrubaram o veto presidencial. Agora, a expectativa é que o STF reafirme a inconstitucionalidade do
marco.
O Acampamento Terra Livre desenvolverá, de 22 a 26 de abril, uma
série de atividades concentradas no Eixo Cultural Ibero-americano. A extensa
programação prevê debates; apresentação de relatórios; marchas à Praça dos Três
Poderes; e atividades políticas no Congresso Nacional.
Durante o evento, também serão realizadas uma sessão solene,
audiências públicas, reuniões, além de apresentações culturais e exposição de
artesanato e arte indígena de todos os biomas brasileiros.
Ainda conforme a Agência Brasil, o evento começa dias após de
o presidente Lula assinar a
demarcação de duas novas terras indígenas. A retomada das demarcações começou em
2023, justamente na edição anterior do ATL, quando seis decretos de demarcação foram assinados.
De lá pra cá, o Governo Federal contabilizou dez demarcações.
A expectativa do movimento indígena, no entanto, era de que o tivessem sido
concluídos, pelo menos, 14 demarcações de áreas, frutos de processos em fase
final.
Violência e saúde mental – Além do combate à lei que criou o marco temporal e a
pressão por mais demarcações, o ATL deve denunciar uma nova escalada de
violência contra os povos indígenas.
A Apib informou, citando levantamento feito pelo Coletivo
Proteja, que seis lideranças indígenas foram assassinadas no Brasil após a
edição da lei que instituiu o marco temporal, entre dezembro de 2023, quando a
legislação entrou em vigor, e o início de 2024. "No mesmo período, também
foram mapeados 13 conflitos em territórios localizados em sete estados. Um dos
assassinatos foi o da pajé Nega
Pataxó, do povo Hã-Hã-Hãe, durante ação criminosa da Polícia Militar do
Estado da Bahia com o grupo 'Invasão Zero'. A liderança foi assinada na
retomada do território Caramuru-Paraguaçu, município de Potiraguá", afirmou
a entidade.
Outro tema que abordado durante a mobilização será o suicídio
entre indígenas. A Apib destacou que um estudo realizado por pesquisadores da
Escola de Medicina de Harvard (EUA) e do Centro de Integração de Dados e
Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs/Fiocruz) aponta que a
população indígena lidera os índices de sucídio e autolesões no Brasil.
Apesar disso, diz a organização, há menos hospitalizações de indivíduos pertencentes às varias etnias dos povos originários. "Conforme o estudo, isso revela a precariedade no atendimento médico e no suporte à saúde mental para as famílias indígenas. A pesquisa foi feita com dados entre 2011 e 2022 e publicada na revista The Lancet. Com isso, as lideranças demonstram preocupação com a saúde mental dos indígenas, principalmente aqueles que enfrentam invasões em seus territórios e lutam pelos seus direitos", disse a entidade indígena.