Segundo a Bíblia, o perdão é um mandamento central,
reflexo do caráter de Deus e uma necessidade para a saúde espiritual e
emocional. Mais do que uma opção, perdoar é uma obediência que liberta o
ofendido de amarras negativas, como rancor e dor. Mateus 6:14-15 enfatiza
que, se perdoarmos as ofensas dos homens, o Pai Celestial também nos perdoará;
caso contrário, não seremos perdoados.
Não é apenas esquecer, mas "soltar" a pessoa do
rancor, libertando a si mesmo de um "veneno" emocional. É um processo
de cura e amadurecimento. É um ato de amor ao próximo e imitação de Deus, que é
compassivo e perdoador. Jesus ensinou que o perdão deve ser constante e incondicional,
exemplificado na resposta a Pedro de perdoar "setenta vezes
sete".
Embora o ser humano tenha memória, o perdão bíblico envolve
um compromisso de não usar mais a ofensa para ferir ou condenar. A promessa em
Hebreus 8:12 é que Deus, ao perdoar, escolhe não se lembrar mais das
iniquidades. O perdão humano deve espelhar isso, não remoendo o passado. A
Bíblia indica que o perdão não significa apagar a memória do ocorrido, mas sim
retirar a dor da ferida (não ser mais uma ferida aberta).
É uma decisão consciente de não se vingar, um processo que
muitas vezes exige tempo e a graça de Deus. Unilateral, o indivíduo ofendido
pode liberar perdão mesmo que o ofensor não reconheça a culpa ou não peça
perdão. Obrigatório, sim, mas a reconciliação (restauração da intimidade)
depende especialmente do arrependimento do ofensor.
No meio político, paira uma dúvida, desde o final das
eleições de 2022, quando o candidato das oposições ao Governo da Bahia, ACM
Neto, fora derrotado nas urnas pelo então ilustre desconhecido professor
Jerônimo Rodrigues: O ex-prefeito de Salvador e atual vice-presidente do União
Brasil teria pedido perdão ao prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo?
Poderia fazer bem a ambos.
Vamos contextualizar. Naquela oportunidade, o candidato ACM
Neto surpreendeu a todo o seu grupo e, mais que isto, feriu gravemente a
Ronaldo, tido por todos como nome certo na chapa, quando apresentou a
substituta dele, Ana Coelho, para vice-governadora. Trocou um político
vencedor, conhecido e respeitado no interior, por um "peixe fora
d'água" que poderia ter declinado do absurdo convite - convenhamos, é
difícil dizer não diante de um cavalo selado passando à nossa porta, (ACM
Neto era o favorito, naquele momento, para o Palácio de Ondina).
Foi o erro mais bizarro e complicado de explicar, que um
político brasileiro já cometeu, em uma campanha eleitoral. O candidato do União
Brasil a governador necessitava contemplar, é verdade, o aliado Republicanos.
Mas de tantas alternativas que poderiam existir, o aprovado ex-prefeito da
capital escolheu a menos provável. O resultado foi devastador. A candidata não
agregaria nada de mais importante. Simpatizantes de Ronaldo em Feira de Santana
e região se decepcionaram profundamente, o que certamente impactou nas urnas.
O que teria se passado na cabeça de ACM Neto, para cometer
tamanha bobagem? Desejaria ele um vice sem luz própria, que lhe fosse
obediente, em vez de alguém quase de sua estatura política, capaz de
questiona-lo, se necessário fosse, de acompanhar com olhar crítico a sua
atuação e de lhe fazer exigências?
Ronaldo jamais escondeu a frustração com o episódio. Teve o
equilíbrio de participar e até ser o coordenador daquela campanha de ACM
Neto, que por sua vez esteve em Feira de Santana atuando em favor do colega de
partido no embate local com o PT, em 2024. Mas a verdade é que a amizade e a
confiança entre eles foi afetada. Estamos em 2026 e vem aí uma nova disputa
para o Governo Estadual. Olha ACM Neto de novo candidato. Lição
aprendida, ele agora sonha com um "sim" de Ronaldo.
Ao "Correio 24h", disse que o seu vice precisa ter grande densidade no interior e agregar do ponto de vista eleitoral: “Seria uma alegria enorme poder contar com Zé Ronaldo". Na verdade, as portas para o prefeito de Feira estão abertas para cargo que desejar, vice ou senador. ACM reconhece que é difícil, pois o companheiro de legenda está focado na gestão municipal, mas não perde a esperança. Acredita que muitas conversas ainda vão acontecer "até o mês de março, quando nós vamos anunciar (a chapa)". Como opinei esta semana, aqui, o prefeito deverá cumprir o mandato até o fim.
Vejo jornalistas e radialistas feirenses, também os de
Salvador e de outras cidades do Estado, alimentando expectativas em torno de
uma possível candidatura do prefeito José Ronaldo a vice-governador ou senador,
em outubro próximo. Ou na chapa a ser encabeçada pelo ex-prefeito de Salvador,
ACM Neto, ou na do candidato à reeleição, governador Jerônimo Rodrigues.
Existem duas dúvidas em torno do que fará Ronaldo, nessas próximas eleições.
Uma delas, se será candidato a algo. A outra, a quem ele apoiará para governador
e presidente da República. Sua escolha em nível federal estará, certamente,
atrelada à que fará sobre a eleição para o Palácio de Ondina.
A primeira dúvida só existe porque a imprensa e a sociedade
estão fartas de casos em que prefeitos ou governadores, no exercício do
mandato, desistem de ficar até o fim para candidatarem-se a cargos maiores ou
mais atraentes para o seu currículo e prestígio político. Assim aconteceu três
vezes, na Prefeitura de Feira. Colbert Martins da Silva, o pai, em sua primeira
passagem pelo Governo Municipal, na década de 80, deixou o Palácio Maria
Quitéria para eleger-se deputado estadual.
Depois, foi a vez do então prefeito João Durval, em meados
dos anos 90. Motivado pelas pesquisas que lhe eram favoráveis, deixou a gestão
para tentar o Governo do Estado. Perdeu. Em ambos os casos, o
vice-prefeito José Raimundo foi o substituto. Deve ser o único político no país
a ser prefeito duas vezes sem ter que se eleger para tal mister. Por último, o
próprio José Ronaldo, em 2018, proporcionou o poder ao seu vice, Colbert Filho,
para buscar uma eleição a governador, que não aconteceu. Embora fora da
Prefeitura, ele foi candidato a senador em 2010, perdendo ele e outros fortes
candidatos (César Borges, José Carlos Aleluia e Edvaldo Brito), para os eleitos
Walter Pinheiro e Lídice da Mata.
A situação de Ronaldo, agora, porém, é muito especial. Alguns
alegam que o compromisso feito por ele e já reiterado várias vezes, de que
cumprirá integralmente este quinto mandato, nada significa, pois a mesma
promessa teria sido feita lá atrás, quando se lançou ao Senado. Vejo diferente.
O prefeito não foi tão enfático, naquela campanha eleitoral de mais de uma
década atrás, quanto a uma possibilidade de buscar um voo mais alto. Agora, até
para conter um temor no eleitorado, ele só faltou ajoelhar-se na Catedral de
Senhora Santana, em juramento, para convencer o público de que isto não ser
repetirá. Descumprir o acordo que fez com os feirenses, uma segunda vez,
poderia não lhe cair bem.
"Ah, mas pode alegar que faria mais por Feira de Santana
em um cargo maior", argumentariam os que creem na chance dele novamente
deixar a batuta com o vice, agora o jovem promissor Pablo Roberto, que abdicou
da Assembleia Legislativa, para a qual foi muito bem eleito. Não, ainda assim,
entendo que seria uma jogada de risco muito elevado para a sua credibilidade. E
se viesse a perder outra vez, entraria em uma "sinuca de bico" quase
impossível de escapar, logo quando se aproxima do final da carreira e tem pela
frente três anos muito alvissareiros, com obras de grande porte que deve
realizar, ampliando as chances de reeleição ou de fazer seu sucessor em
2028.
Desta forma, permitam-me, este humilde analista político não
leva a sério a hipótese. Deveremos ter um capítulo final desta mini-série após
o Carnaval, ou um pouco depois. O homem tem experiência, sensatez e olho de
águia. É capaz de encontrar soluções para os mais difíceis dilemas.
Resta, então, a outra decisão, esta, mais delicada e,
aparentemente, um jogo em aberto, de difícil prognóstico. Ronaldo fica com ACM
Neto, aquele que menosprezou seu enorme cabedal, principalmente em boa parte do
interior do Estado, rifando-o já na prorrogação, da candidatura a vice na chapa
oposicionista em 2022? Deixa a campanha ocorrer sem sua participação na disputa
do Governo (o que beneficiaria Jerônimo)? Ou vai preferir marchar com a
reeleição do governador, que lhe tem tratado com atenção, em busca de uma justa
valorização política e de promessas de grandes realizações para a sua cidade?
Vamos pensar no que dizer sobre isto.
O atuante senador baiano Otto Alencar, um dos destaques do Congresso, atenuou bastante as críticas que fazia lá atrás, em 2025, à possível exclusão, na chapa governista, do seu correligionário senador Ângelo Coronel, também do PSD, que busca a reeleição, mas encontrou portas fechadas na chapa governista. O PT optou por uma composição puro sangue depois que o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, decidiu que uma vaga seria dele. A outra é de Jaques Wagner que, como Coronel, vai tentar reeleição. Uma breve pesquisa na Internet revela a mudança de tom no discurso de Otto.
Declarações de apoio a Coronel, com ameaças veladas ao PT, foram dadas por ele em uma entrevista concedida ao "PodZé" (podcast do polêmico jornalista Zé Eduardo), que virou matéria no site "Muita Informação", em 30 de maio do ano passado. "Otto Alencar admite possível rompimento com Jerônimo caso PSD fique fora da chapa ao Senado em 2026", foi o título da reportagem no portal.
Na ocasião, diz o site, o dirigente do PSD baiano reafirmou apoio à reeleição de Coronel e apontou direito garantido pela legislação como argumento central. “Quem tem direito à reeleição deve ir para a reeleição. Tanto Jerônimo, como Geraldo, como Wagner, como Coronel. É direito legítimo dado pela legislação”, garantiu.
Disse também, conforme o portal, não ver "impedimentos em romper com o grupo político do governador Jerônimo Rodrigues (PT), caso o PSD fique de fora da composição majoritária para o Senado nas eleições de 2026". E revelou o teor de uma conversa com o colega e compadre: “Eu falei com Coronel que tem uma coisa realmente que doeu em mim. Não posso negar, e mais ainda nele, que fere o amor próprio da pessoa. Ele tendo mandato, têm direito a reeleição e dizer você não vai ser mais, vai ser o Wagner, vai ser o Rui…".
Segundo o jornalista Osvaldo Lyra, do "Muita Informação", Otto disse como reagiria diante de um "xeque-mate", sentença dada por Wagner, Rui, ou o próprio governador Jerônimo, que o PSD estaria fora da chapa. "Se dissesse isso textualmente e me ligasse dizendo ‘vocês não vão participar’, nós sairíamos agora mesmo". A forte frase ainda foi acrescida de outra para não deixar nenhuma margem de dúvida: "Caso haja uma manifestação explícita do governador sobre a saída do partido, a ruptura acontecerá".
Na mesma entrevista, Otto admitiu ter sofrido pressão de aliados para rompimento com o PT. Correligionários lhe cobraram uma "decisão imediata sobre a permanência na base governista".
Prefeitos, ex-prefeitos e deputados teriam pedido "uma reação mais dura" da parte dele, diante da possibilidade de o PSD ficar de fora da aliança. "Me pressionaram, inclusive, dizendo que eu não estava respondendo à altura". Como se sabe agora, ele resistiu e manteve a aliança.
Exatamente na sexta-feira, escrevi aquele que viria a ser o último capítulo, de número 5, da série envolvendo o senador Ângelo Coronel e o PT. "Candidato avulso no PSD, ou filiado a outra legenda, senador deve encerrar aliança com trio de ferro". Este foi o título do artigo. No dia seguinte, ele anunciou que estava deixando o PSD para muito provavelmente disputar a reeleição por uma outra legenda, do grupo de oposição, é claro, o que significa o seu rompimento político com o governador Jerônimo Rodrigues, o senador Jaques Wagner e o ministro-chefe da Casa Civil do presidente Lula, Rui Costa.
Evidentemente, foi uma coincidência. Havia uma previsão de que isto viesse a ocorrer, não parecia haver outra alternativa. Mas não com aquela rapidez. Irritado, impaciente e decepcionado, Coronel preferiu não esperar ou pagar pra ver. Afinal, seu destino estava selado fazia algum tempo, desde que Rui anunciou o desejo de se candidatar ao Senado. Sobraria pra ele ou para Wagner, que também cobiça a reeleição. Lógico, o ex-presidente da Assembleia Legislativa levava uma enorme desvantagem.
Somente haveria uma possibilidade de Coronel ter alguma chance de manter-se um dos candidatos do grupo ao Senado, preservando seu direito, entre aspas, de busca da reeleição: Otto Alencar lhe ser solidário e ameaçar sair junto, caso o colega de legenda fosse mesmo defenestrado. Isto, talvez, impusesse ao "trio de ferro" do PT pensar em uma outra solução. Mas não aconteceu. O cacique do PSD na Bahia, amigo do dirigente nacional Gilberto Kassab, como bom atacante do futebol que busca livrar-se de uma perigosa dividida, evitou o choque.
Dizem as más línguas que, para não deixar qualquer brecha para uma revolta de Otto, os petistas providenciaram um afago no poderoso senador, o convite para que seu filho assumisse o almejado cargo vitalício de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O jovem não pensou duas vezes: deixou imediatamente o cargo de deputado federal e já está, como ele disse à imprensa esta semana, "muito bem" adaptado à nova função.
É importante observar, nada existe de anormal na posição adotada por Otto pai. Direito inalienável dele permanecer onde está, independentemente da atitude do seu compadre. Até porque, se ele viesse a deixar o grupo que se encontra no poder, isto poderia lhe custar muito caro. Portanto, é compreensível que não tenha forçado a barra para Coronel ser candidato na chapa governista, o que parece estar sendo digerido sem maiores traumas pelo próprio amigo.
Mas, e agora, para onde vai Coronel? Vai pra oposição, isto é certo. Resta saber qual legenda irá escolher. Sim, escolher. Com o razoável arsenal que conseguiu montar nos oito anos de Senado, ele tem um certo cabedal e, portanto, vem sendo cortejado não apenas pelo União Brasil. É decisão para ser tomada com brevidade. Quanto mais tempo ele perde, pode se tornar mais complicada a operação.
Expressão popular que significa uma grande confusão, desordem, bagunça e, em alguns casos, situação caótica, "balaio de gatos" é o que parece melhor traduzir o momento vivido pelo forte PSD na Bahia. No plano regional, a legenda está em uma tremenda saia justa, com seus dois principais quadros, os senadores Otto Alencar e Ângelo Coronel, pressionados pelo PT, com a sua trinca de ferro formada pelo senador Jaques Wagner, pelo ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Rui Costa, e pelo governador Jerônimo Rodrigues - esta parece ser, extra-oficialmente, a ordem hierárquica.
O Partido dos Trabalhadores ainda não oficializou, mas o martelo está batido em torno das candidaturas de Wagner e Rui ao Senado, em outubro, rifando Coronel, que sonha com a reeleição. O rolo compressor petista está passando por cima do PSD baiano sem dó, nem piedade. Aproveita que Coronel não é Otto, e vice-versa, para afastar o ex-presidente da Assembleia Legislativa do jogo. Porque, se o nome a ser deletado fosse o de Otto, a história seria bem diferente.
Nenhum dos envolvidos vai admitir, mas como não existe jantar de graça, em política, 10 em 10 analistas creem que a ascenção de Otto Filho a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado faz parte da estratégia petista de conter o pai dele em uma eventual defesa do colega a ser defenestrado. Evidente, se Otto pai, que tem uma patente bem mais elevada que a de Coronel, entra em cena de maneira firme, em solidariedade ao compadre, as consequências para o projeto do PT seriam imprevisíveis.
O PT sabe que, o que está fazendo com Coronel, não se faz, mas não vê outra saída, desde que o ministro, seu primeiro (ou segundo?) mandatário, já disse que uma vaga para a chapa do Senado é sua e ninguém tasca. Se fosse para compensar o senador de abrir mão de disputar a reeleição, a única alternativa seria lhe oferecer a candidatura à vice-governadoria. No entanto, encobriria um santo para descobrir outro, e mais complicado ainda: o MDB de Geddel e do atual vice, Geraldinho Júnior. Nem pensar.
Há duas propostas na mesa, para a escolha de Coronel. Uma delas, de candidatura avulsa (descolada da chapa petista), partiu de Otto Alencar, com possível aval do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Coronel não disse sim, nem não. O problema é que o núcleo duro do PT não concorda. Ao "Bahia Notícias", Jaques Wagner considerou "dificil" esta possibilidade. Um outro petista influente teria afirmado que “não existe candidatura independente de partido da base”. Ou seja, caso seja levada adiante a proposta, é fim de linha para Coronel na base aliada.
A outra ideia é de Wagner, que vê como solução o aliado tornar-se candidato à sua suplência. Uma vez eleito, o ex-governador poderia vir a ser ministro de um quarto mandato do presidente Lula, abrindo vaga no Senado para Coronel, que, na mídia, rechaçou completamente esta solução. Mandato de senador é de oito anos. Lula reeleito e Wagner também, a garantia deste no ministério seria de apenas quatro anos. De fato, parece algo draconiano.
Restam, em tese, duas opções para Coronel conseguir candidatar-se à reeleição: desgarrar-se do PT e disputar o Senado de maneira avulsa, sem coligação, ou abandonar o PSD e abrigar-se em outra legenda. Em ambas alternativas, o mais provável é que apoie ACM Neto governador, abandone o 'trio de ferro' Wagner, Rui e Jerônimo e perca o encanto por seu compadre Otto. As bets, com sua jogatina online, poderia lançar essa aposta. Seria um sucesso.