Maior expressão do Partido dos Trabalhadores em Feira de Santana e região, o atuante deputado federal Zé Neto vem administrando, com bom jogo de cintura e tranquilidade, eventuais reações pelo brusco retorno, ao partido, do deputado estadual e ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Ângelo Almeida. "Foi um competente secretário, que contribuiu com a cidade e com a Bahia, é um bom quadro da nossa política e, portanto, muito bem-vindo de volta", disse hoje à coluna, enquanto se dirigia para a Câmara, em Brasília.
O discurso conciliador da principal liderança petista regional é importante para apagar algumas chamas que se espalharam em seu grupo político após a filiação de Ângelo, que surpreendentemente deixou o PSB. Na primeira passagem do deputado estadual pelo PT foram oito anos integrando a legenda, pela qual se elegeu vereador em Feira de Santana. Em 2015, migrou para o Partido Socialista Brasileiro, onde permaneceu por uma década.
"Vamos manter em Feira de Santana o grupo comandado pelo governador Jerônimo Rodrigues em harmonia e diálogo", prega o deputado, jogando por terra qualquer aposta feita em uma reação contrária ao movimento político de Ângelo Almeida, ao apagar das luzes do prazo para migrações partidárias visando as eleições de outubro.
A leitura que fazem alguns personagens do grupo comandado por Zé Neto é que a chegada de última hora do deputado ex-PSB, candidato à reeleição, poderia dificultar a vida de outros dois candidatos locais à Assembleia Legislativa. Robinson Almeida, igualmente, busca a renovação do mandato, enquanto o vereador Sílvio Dias, policial rodoviário aposentado, vem buscando, inteligentemente, espaço maior no time em que joga.
É este incêndio que o deputado federal trabalha para controlar, até porque a filiação de Ângelo tem origem no patamar mais alto das hostes do PT no Estado, contra as quais o enfrentamento não seria uma ação prudente. "É saber como trafegar as três candidaturas, temos porte para isto", diz Zé Neto, ao registrar o valor dos outros dois postulantes à AL que já se encontravam na legenda.
"Robinson tem feito um extraordinário trabalho por Feira e região, inclusive mantém escritório político permanente aqui. Sílvio é um parceiro de todas as horas", disse ele, sobre estes aliados. Acredita que os "ruídos" dos primeiros momentos pela volta de Ângelo Almeida já se dissiparam e ele será um "reforço valioso" para os desafios de 2026 no município, as reeleições do presidente Lula e do governador Jerônimo.
O deputado também considera a presença de Ângelo no PT como relevante para 2028, quando acontece a disputa pela Prefeitura: "Já estivemos, um dia, muito distantes de conquistar nas urnas a oportunidade de administrar a nossa cidade, algo como 210 mil votos do outro lado contra 40 e poucos mil da gente. Na última eleição essa diferença foi de apenas 11 mil votos. Estamos chegando lá".
As últimas horas da data máxima para desincompatibilizações e
mudança de partido, visando às eleições de outubro, foram bastante agitadas, em
Feira de Santana, com algumas surpresas interessantes no tabuleiro político. O
ex-prefeito Colbert Filho, egresso do MDB, é uma das novidades.
Aproximadamente um mês após assumir o Democracia Cristã (DC),
migrou, agora, para o PSDB. Ele disse à imprensa que essa movimentação teria
sido acordada com o prefeito de Salvador, Bruno Reis, e com ACM Neto, estrelas
do União Brasil no Estado. Colberzinho, nomeado no gabinete de Bruno desde o
ano passado, parece fortemente vinculado a essas duas lideranças.
Imediatamente depois de ter a sua ficha de filiação abonada
pelo deputado federal Adolfo Neto, agora seu companheiro de legenda, o
ex-prefeito anunciou o desejo de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
Deve ter mudado de ideia. Acertadamente, diga-se, pois parece mais prudente
decidir por um voo mais modesto.
Recentemente, a esta coluna, havia dito que, caso o aliado
Pablo Roberto desistisse de candidatar-se a deputado federal, ele próprio
entraria nessa briga. No entanto, logo após o vice-prefeito ter anunciado que
não irá concorrer, Colbert movimentou-se, deixando o DC para tornar-se tucano
e, diferentemente do previsto, apresentando-se pré-candidato a deputado
estadual.
O cenário deve estar deixando preocupado o vereador Jurandy
Carvalho, também do PSDB, até então pré-candidato a deputado estadual, ungido
por Pablo. O vice-prefeito tem uma razoável dívida de gratidão com Colbert, que
certamente espera reciprocidade agora, nesta sua tentativa de retornar ao Poder
Legislativo. Portanto, Colbert surge com mais força, no mesmo grupo do qual faz
parte o atuante e jovem político filho do distrito João Durval.
Na cadeira de chefe do Executivo feirense, o então prefeito
trabalhou duro, com a máquina governamental, pela expressiva votação que Pablo
obteve na cidade, a maior da história de um político feirense para a
Assembleia, 42,6 mil votos. Evidentemente, uma divisão de votos não atenderia
as expectativas de nenhum dos dois postulantes, que poderiam morrer abraçados
em sua luta para chegar à praia.
Importante observar, o vice-prefeito e ex-pré-candidato a
deputado federal disse logo após a surpreendente desistência de chegar a
Brasília que a primeira das condições para qualquer político contar com seu
apoio em 2026 é estar filiado ao seu partido, o PSDB. Foi com esse argumento
que ele descartou, de pronto, ajudar a campanha do Zé Chico, do União Brasil.
Ronaldista como ele, o empresário vive, há mais de uma década, o sonho de
alcançar a Câmara dos Deputados.
Colbert, uma raposa velha e felpuda da política na Bahia, estrategicamente, tratou de habilitar-se, pouco importando que tenha passado o menor tempo de filiação a um partido, em sua trajetória. Se muito, chegou a dois meses no Democracia Cristã. Nessa altura, deve estar aguardando pela manifestação pública daquele a quem muito generosamente estendeu a mão, em 2022.
Estaria o vice-prefeito Pablo Roberto arrependido da decisão
de desistir de candidatura a deputado federal, anunciada na quinta-feira? A
pergunta surge oportuna depois de publicação, em suas redes sociais, de um
enigmático post, em que insinua ter sofrido traição no
processo. "Antes do domingo, há uma quinta-feira de traição",
escreveu o secretário municipal de Educação. Não há outra conclusão possível:
ele praticamente afirma ter sido traído, no dia em que anunciou o recuo, que
pelo visto não ocorreu de forma espontânea como tentou em princípio sinalizar.
"Uma sexta-feira de dor", acrescentou, dando a
entender que o dia seguinte à "traição" não lhe foi nada fácil
digerir. Após o "silêncio" do sábado, garante "vencer todas
as fases", como fez Jesus: "o domingo está chegando". Não
significa que amanhã deverá acontecer algo extraordinário. Certamente, ele
remete a um futuro próximo. Discurso um tanto contraditório daquilo que disse
Pablo Roberto em seu "dia do fico".
"Espero que essa decisão (de desistir de ser deputado
federal agora) seja entendida pelo povo de Feira de Santana. O nosso
sentimento, nosso desejo, nesse momento, é que possamos continuar aqui”, ele
disse, ao justificar a decisão. Na mesma entrevista, tratou de isentar
completamente Zé Ronaldo, de qualquer problema que possa ter ocorrido no processo.
"O prefeito sempre me deu a liberdade de escolher, como sempre, muito
sensato, muito pé no chão, muito consciente da realidade. Me ajudou nessa
decisão, que tomamos juntos.”
Nas explicações dadas na quinta-feira, agora chamado
indiretamente de dia da "traição", ele alegou que o seu próprio grupo
teria recomendado a desistência. Afirmou que "muitas pessoas" que
ouviu "cobraram muito isso, da confiança que foi depositada na última
eleição, que ainda está muito recente, de ter escolhido o prefeito José Ronaldo
para gerenciar a cidade e Pablo Roberto para vice-prefeito". Então,
enfatizou, "por respeito também à população de Feira de Santana, a nossa
decisão nesse momento é continuar aqui em Feira”.
Algo que também reforça a tese de um recuo sob pressão, por parte do vice-prefeito, é a negativa, de pronto, a um apoio àquele que sonhou com sua desistência como forma de evitar concorrência interna na disputa por vaga em Brasília. Rejeitou, peremptoriamente, ajudar Zé Chico na caminhada, sob alegação de que só terá chance de obter sua valiosa ajuda, para deputado federal ou estadual, quem for correligionário no PSDB.
O vice-prefeito de Feira de Santana, Pablo Roberto, desiste, pela segunda vez, de uma candidatura que ele mesmo anunciou como certa. Assim como ocorreu quando se lançou à Prefeitura, em 2024, não mais vai concorrer a deputado federal, no pleito de outubro. Nada há de errado nisso. O político pode, sim, mudar de planos, antes e depois de eleições, muito embora as pessoas gostem de rotular a quem recua seguidamente de um propósito. Nada que possa representar qualquer prejuízo efetivo ao ex-deputado estadual, que abandonou a Assembleia Legislativa após se eleger vice de Zé Ronaldo em 2024. Até porque a jovem liderança não enganou a quem quer que seja, nem faltou com a palavra a ninguém.
Isto posto, vamos tentar entender o gesto aparentemente nobre de Pablo. O leitor mais atento se recorda, é claro, que nas últimas semanas uma polêmica dominou o noticiário político: a possível dupla candidatura a deputado federal no grupo comandado por Ronaldo. Pablo e Zé Chico estavam determinados a disputar uma vaga no Congresso mas eles mesmos duvidavam que pudessem se eleger juntos. Na verdade, admitiam que poderiam morrer abraçados, caso um não convencesse o outro, ou uma terceira figura não conseguisse o consenso - papel exercido com muita competência pelo prefeito.
Ao comunicar que não vai mais concorrer, nesta quinta-feira, Pablo apresentou uma justificativa até certo ponto lógica, mas não acreditada pelos jornalistas que acompanham o processo: “Eu vou continuar em Feira de Santana, na condição de secretário municipal, ao lado do prefeito, ajudando na gestão e na educação. Espero que essa decisão seja entendida pelo povo. O nosso sentimento, nosso desejo, é que, nesse momento possamos continuar aqui”, reproduz o "Acorda Cidade".
Disse ainda que “muita gente cobrou isso também, da confiança que foi depositada na última eleição, que ainda está muito recente; de ter escolhido o prefeito José Ronaldo para gerenciar a cidade e Pablo Roberto para vice-prefeito". Então, ele assinala, "por respeito à população, a nossa decisão nesse momento é seguir”. É um argumento e tanto, mas não pode não colar. As pessoas devem estar imaginando uma série de motivos para seu afastamento da disputa, não exatamente este. Com muita boa vontade, podem até admitir que esta tenha sido uma das razões, não a única.
Há uma diferença, capital entre a negativa de Ronaldo aos convites para que concorresse a vice-governador e a desistência de Pablo em sua candidatura a deputado federal. O prefeito, assediado por União Brasil e PT (do governador Jerônimo Rodrigues, senador Jaques Wagner e ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa), pôde arguir o que pregou em sua campanha, que não renunciaria ao mandato, se fosse eleito para o Paço Municipal. Pablo não fez este compromisso e, em tese, não precisaria se preocupar com uma reação popular.
Mas, então, o que pode ter sido, de fato, a causa de mais esta desistência do vice-prefeito? É um diagnóstico difícil. Se lá atrás, em 2024, ele pode ter recebido a promessa de contar com o apoio maciço do prefeito para deputado federal este ano, agora é complicado prever o teor de um possível acordo político - essas desistências geralmente são acompanhadas de entendimentos para um futuro próximo. Em política, a compensação é algo que faz parte dos processos, embora nem sempre se alcance o objetivo final.
Depois desta eleição nacional, virão as municipais, em 2028. Parece distante, mas, acredite, leitor, muitos já trabalham pensando neste pleito. Poderia se pensar em algo como Pablo se tornar o candidato do grupo à sucessão de Ronaldo. Mas a tendência é que o atual chefe do Executivo busque a reeleição, alguém vai lembrar, com sensatez. Bem, uma coisa é certa. Zé Chico é quem mais lucra com o vice-prefeito fora do páreo. Sobre quem Pablo deverá apoiar para a Câmara Federal, aliás, ele faz mistério, por enquanto. “As coisas ainda estão se encaixando e no momento oportuno vamos anunciar a decisão com relação à minha participação e à do nosso grupo nas eleições de 2026”, desconversa.
Em conversa com a Tribuna, neste final de tarde, Pablo rechaçou especulações em torno de compensações. "O prefeito Ronaldo tem sido muito leal e correto em seus compromissos. Jamais conversaríamos nestes termos". Segundo ele, o que pesou mesmo foi a sua determinação em continuar "buscando resultados expressivos para a educação do município, maior desafio da minha vida pública".
Ronaldo marca um gol de placa, com esta conciliação. Afinal, evitando dois concorrentes do mesmo grupo, ele reduz significativamente o risco de o seu time mais uma vez não eleger ninguém para deputado federal, como ocorreu nos dois últimos pleitos. Para fechar com chave de ouro, basta conseguir que Pablo se integre à campanha do "candidato único" Zé Chico.