O terreno tinha cerca de dois metros de largura. Construção inacabada: à frente, a caixa de antigo relógio de energia, encaixada numa coluna cimentada de blocos. No interior, um caminho estreito ladeado por restos de construção, ervas daninhas e modestas touceiras de capim, que findava dois metros adiante. Chegava-se, por fim, ao cômodo aberto à frente, mas coberto por uma laje. Nele havia mais restos de construção, paredes manchadas e um abertura ao fundo, vedada por tábuas.
Era na Rua Arivaldo de Carvalho, no começo do Sobradinho. Por ali, naquela época – era 1987 - predominavam as residências, solenes algumas, acanhadas outras, construídas décadas antes. Nos quintais grandes, muitas árvores frutíferas – manga, goiaba, mamão, pinha – e pássaros multicoloridos que animavam manhãs e tardes com seus trinados. A construção inacabada despontava como exceção.
Justamente ali abrigou-se uma espécie de ermitão urbano. Chegou em silêncio, o saco pejado de despojos às costas. Transpôs o caminho em silêncio e se instalou nos fundos do cômodo, no ângulo à esquerda entre duas paredes. À noite – chegou nas noites frias de agosto – acendia uma fogueira miúda, que projetava sombras fantasmagóricas nas paredes; em seguida, preparava seu desjejum.
Não conversava com a vizinhança, não incomodava ninguém e, também, não era incomodado. Vestia-se com andrajos e suas barbas e cabelos longos espantavam. Acumulava montanhas de tralhas que – provavelmente – vendia por uns poucos cruzados em depósitos de recicláveis. O ciclo de acumulação se repetiu algumas vezes ao longo dos meses em que ficou por lá.
Numa madrugada, houve festa na vizinhança. Música alta, vozes, risos, gente pelas calçadas. Acordou, reacendeu a fogueira, em silêncio, com estoica resignação. Depois resolveu assar nas chamas qualquer coisa que desprendia um cheiro desagradável. Um garoto que estava na festa – num daqueles impulsos infantis de autoafirmação – fungou alto, para demonstrar seu desagrado com o cheiro.
O sujeito, do fundo do cubículo, avermelhado pelas chamas curtas que dançavam no seu rosto, olhou o garoto nos olhos. Não havia ódio, raiva, censura, nem mesmo rancor naquele olhar. Só uma expressão de surpresa, que embutia uma vaga repreensão. Permaneceu em silêncio, sereno, dedicando-se à sua refeição cujo odor repugnava.
Numa de suas ausências, chegaram alguns sujeitos por lá. Limparam o terreno e removeram as tralhas; ali – deduz-se – o ermitão entendeu a mensagem que findara sua estada. Desapareceu silenciosamente pelas ruas da Feira de Santana, sem deixar rastros.
Vagabundo ou morador de rua? Nenhuma definição parecia precisa. Uma leitura, tempos depois, trouxe um conceito mais preciso. O sujeito lembrava Simão, um ermitão de “A Ilha Perdida”, da escritora Maria José Dupré. Assemelhava-se, com seu silêncio e sua resignação, a um ermitão, ermitão urbano que vagava pelas ruas da Feira de Santana.