Há uma geografia silenciosa que poucos leem. Ela não está nas manchetes sobre tensões no Oriente Médio, nem nos debates sobre ogivas nucleares na Europa. Está gravada em mapas, placas e relatórios oficiais, disfarçada de mera informação logística. Refiro-me aos nomes das bases militares que os Estados Unidos espalham pelo mundo, 128 delas, em 51 países, segundo o levantamento mais recente do Congresso norte-americano. Al Udeid, Ramstein, Thule, Incirlik, Camp Bondsteel. O que esses nomes dizem? Muito mais do que supomos.
A toponímia militar é um gênero textual negligenciado. Como todo ato de nomear, ela revela relações de poder, narrativas de pertencimento e, não raro, um profundo estranhamento entre o nomeador e o território nomeado. Quando o Pentágono batiza uma instalação no deserto do Catar com o nome local Al Udeid, que designa a própria região onde a base se ergue, está operando uma estratégia de mimese: o nome árabe confere à presença estrangeira uma falsa aura de enraizamento, como se aquelas pistas de pouso e hangares sempre tivessem feito parte da paisagem. É a violência simbólica disfarçada de respeito toponímico.
Ramstein, na Alemanha, conta outra história. O nome vem da localidade renana onde a base foi construída, mas carrega camadas de significado que transcendem a geografia. Para os alemães, Ramstein evoca o desastre aéreo de 1988, quando um show aéreo terminou em tragédia com 70 mortos. Para os americanos, é sinônimo de comando e projeção de poder, a sede da Força Aérea dos EUA na Europa. O mesmo nome, dois mundos de significado. É o que Mikhail Bakhtin chamaria de heteroglossia: a palavra habitada por múltiplas vozes, muitas vezes conflitantes.
Thule talvez seja o caso mais fascinante. A base na Groenlândia, território autônomo dinamarquês que Donald Trump, não por acaso, tentou comprar, carrega um nome que remete à mitologia grega e medieval. Thule era, para os antigos, a terra mais setentrional, o limite do mundo conhecido. Ao batizar assim a instalação no Ártico, os americanos inscrevem sua presença numa linhagem mítica de exploração e conquista dos confins da Terra. É como se dissessem: aqui, onde o mundo acaba, começa o Império.
Há também os nomes que celebram heróis americanos em solo estrangeiro. A Base Aérea de Incirlik, na Turquia, homenageia um piloto turco? Não. "Incirlik" significa "figueira" em turco, mas a base abriga nomes de ruas e instalações internas que reverenciam figuras como o general Billy Mitchell, pioneiro da aviação militar. É a toponímia imperial em camadas: o nome local na fachada, a memória americana nos corredores.
Camp Bondsteel, no Kosovo, leva o nome de um sargento condecorado postumamente, mas para os sérvios locais a base permanece um símbolo de ocupação. O nome do herói americano soa, para ouvidos balcânicos, como lembrança da OTAN que bombardeou Belgrado em 1999. Novamente, o estranhamento: o que é homenagem para uns, é afronta para outros.
A literatura de guerra nos ajuda a ler esses nomes com outros olhos. Quando Michael Herr, em "Despachos do front", descreve as bases americanas no Vietnã, ele as retrata como bolhas flutuantes de americanidade em meio à paisagem hostil. Os nomes que os soldados davam aos locais, "Dogpatch", "The Rockpile", revelavam uma tentativa desesperada de domesticar o inóspito. As bases oficiais, com seus nomes burocráticos ou transliterações locais, operavam em registro oposto: impor ordem e permanência onde tudo era provisório e caótico.
Há ainda os nomes que mudam com o tempo, revelando mutações geopolíticas. A Base de Dhahran, na Arábia Saudita, foi palco da presença americana durante a Guerra do Golfo, mas os sauditas, pressionados por facções internas, pediram a retirada das tropas em 2003. O nome da base permanece nos registros históricos, mas sua sonoridade evoca agora um capítulo encerrado, ou temporariamente suspenso, das relações bilaterais.
O que a toponímia militar americana revela, em última análise, é a tensão insolúvel entre permanência e transitoriedade. As bases são concebidas como estruturas duráveis, mas sua presença em solo estrangeiro é sempre contingente, sempre negociada. Os nomes tentam fixar no território aquilo que a geopolítica constantemente desloca. São âncoras simbólicas num mundo de areias movediças.
Para os países anfitriões, esses nomes funcionam como lembretes diários de uma soberania partilhada ou violada. Para os soldados americanos, são endereços temporários que nunca se tornam realmente "lar". E para o observador atento, são textos culturais que, uma vez decifrados, revelam as camadas de significado que a linguagem burocrática da defesa insiste em ocultar.
Numa época em que a guerra se torna cada vez mais abstrata, travada por drones controlados a milhares de quilômetros de distância, os nomes das bases militares nos lembram que o poder ainda precisa de chão. Precisa de lugares. Precisa de palavras que os designem. E essas palavras, longe de serem neutras, carregam consigo séculos de conquista, resistência e negociação silenciosa.
Ler os mapas militares com olhos de crítico literário é, portanto, um ato de resistência intelectual. É recusar a transparência da informação geográfica e insistir na opacidade do simbólico. É perguntar, diante de cada nome: quem nomeou? Por quê? O que esse nome silencia? Que outras línguas foram apagadas para que este nome pudesse surgir?
Al Udeid, Ramstein, Thule. Palavras que designam bases, mas que também são bases fundamentos sobre os quais se ergue o discurso do poder americano. Cabe a nós, leitores do mundo, desmontá-las palavra por palavra, sílaba por sílaba, até que revelem aquilo que sempre esconderam: que por trás de cada nome há uma história de violência e negociação, de pertencimento negado e estranhamento imposto. E que, no final, as bases são feitas não apenas de concreto e aço, mas de linguagem, essa matéria tão frágil quanto as areias do deserto onde Al Udeid se ergue, esperando, talvez, o dia em que o vento da história leve embora não apenas as tendas, mas também os nomes.
Nota: ao longo do texto fiz uma citação: Herr, Michael. Despachos do Front. São Paulo: Editora Planeta, 2006