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Wellington Freire

Manobra, Fogo e Exaustão: o retorno da guerra de atrito

24 de Fevereiro de 2026 | 06h 56
Manobra, Fogo e Exaustão: o retorno da guerra de atrito

Durante três décadas, o Ocidente acreditou ter domesticado a guerra. Desde a campanha do Golfo, em 1991, consolidou-se a ideia de que conflitos entre Estados seriam decididos por velocidade, precisão e supremacia aérea. A tecnologia substituiria a massa; a informação, o atrito; o movimento, a estagnação. A guerra seria breve.

A Guerra da Ucrânia desmontou essa narrativa. Entrando em seu quinto ano, o conflito recoloca no centro da estratégia algo que parecia superado: a guerra de desgaste industrial. Em vez de manobras fulminantes, vemos um moedor lento de homens e material. Em vez de ruptura decisiva, ganhos medidos em quilômetros. O cenário lembra menos Bagdá em 2003 do que Verdun e o Somme, em 1915

A analogia com a Primeira Guerra Mundial não é retórica. Em 1914, os generais europeus ainda pensavam em termos de mobilidade napoleônica. A metralhadora e a artilharia pesada congelaram o avanço. Em 2026, drones, sensores e artilharia guiada por satélite cumprem função semelhante: tornam o campo de batalha transparente e letal. A ofensiva frontal volta a ser suicida.

A chamada “zona da morte”, faixa de 25 a 50 quilômetros entre as linhas, é a nova terra de ninguém. Nada se move sem ser detectado. Nada concentra forças sem ser alvejado. Em 1916, o impasse era físico, lama, arame farpado, crateras. Hoje é algorítmico: vigilância contínua, inteligência artificial, enxames de drones. Mudou a interface tecnológica; permaneceu a lógica estrutural do bloqueio.

Essa transformação altera o cálculo geopolítico. Guerras de atrito não premiam apenas inovação; premiam profundidade industrial, reservas humanas e capacidade de reposição. Em Verdun, a França resistiu porque conseguia substituir divisões destruídas. Na Ucrânia, a questão central já não é apenas tática, mas demográfica e produtiva: quem sustenta o ritmo por mais tempo?

Nesse contexto, o segundo mito a ruir é o da blitzkrieg, ou da guerra relâmpago.  A expectativa inicial de Moscou ecoava a confiança alemã no Plano Schlieffen, em 1914: campanha curta, colapso rápido do adversário, imposição de fato consumado. Em 1914, o avanço alemão atolou no Marne. Em 2022, a coluna russa estancou nos arredores de Kiev. A promessa de guerra relâmpago converteu-se em impasse estrutural.

A falha não foi apenas operacional. Foi conceitual. A blitzkrieg, consagrada em 1939–40 e romantizada como fórmula universal, pressupõe surpresa, superioridade aérea incontestável e desorganização defensiva. Na Ucrânia, a defesa dispersa, a inteligência em tempo real e a saturação por drones minaram a liberdade de manobra. O avanço blindado tornou-se vulnerável antes mesmo do contato direto.

O tanque, símbolo do século XX, vive momento semelhante ao da cavalaria em 1914. Não desaparece, mas perde centralidade. Assim como o cavalo precisou ceder espaço ao veículo motorizado, o blindado pesado precisa reinventar-se: mais leve, mais automatizado, integrado a sistemas antidrone e a redes digitais. Não lidera sozinho; opera em ecossistema.

Isso não significa o fim da manobra. Significa sua subordinação a uma preparação exaustiva por fogos e sistemas não tripulados. O território só é ocupado depois de saturado. A ruptura só ocorre quando a defesa foi erodida por semanas ou meses. O tempo estratégico se alonga.

Há aqui uma lição incômoda para planejadores militares e decisores políticos: a guerra entre potências voltou a ser estruturalmente cara, lenta e imprevisível. A crença na campanha cirúrgica, alimentada pelas intervenções assimétricas do início do século, revelou-se exceção histórica. Quando Estados com capacidade industrial comparável colidem, a tendência é o atrito prolongado.

A comparação com 1916 também ilumina um risco maior. A Primeira Guerra começou com ilusões de brevidade e terminou com impérios desfeitos. Guerras de desgaste corroem sociedades, radicalizam políticas e reconfiguram ordens internacionais. Se 1991 parecia anunciar a era da guerra tecnológica limpa, 2026 sugere retorno a uma lógica mais antiga: vence quem suporta mais.

A Ucrânia não é réplica das trincheiras europeias. Mas, ao recolocar a exaustão material no centro do cálculo estratégico, reabre um capítulo que muitos julgavam encerrado. A Ucrânia não é réplica das trincheiras europeias. Mas ao recolocar a exaustão material no centro do cálculo estratégico, reabre um capítulo que muitos julgavam encerrado. A modernidade não aboliu o atrito  apenas o digitalizou.

O que está em jogo não é apenas uma guerra regional, mas a desmontagem de uma ilusão histórica. Durante trinta anos, acreditou-se que a tecnologia havia superado a massa, que a velocidade substituíra a resistência, que a precisão eliminara o sacrifício. A experiência ucraniana sugere o contrário: quando grandes potências colidem, a guerra volta ao seu estado elementar: consumo de aço, energia e vidas.

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