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Esporte

Capítulos da rica história do Touro do Sertão que o tempo pode apagar

Zadir Marques Porto - 01 de Julho de 2026 | 08h 16
Capítulos da rica história do Touro do Sertão que o tempo pode apagar
Foto: Divulgação - Arquivo ZMP

Por Zadir Marques Porto

Um clube com uma rica história de 85 anos de existência merece tê-la sempre lembrada, pelo menos em alguns episódios ameaçados de esquecimento pela "erosão" do tempo. Estreia no profissionalismo, prisão em campo, zagueiro assassinado, títulos conquistados, "praga" de um babalorixá, "armações" sofridas: são alguns fatos desse magnífico acervo do Touro do Sertão. Mas lembrá-los é como ter uma joia preciosa e, periodicamente, admirá-la, para que não haja esquecimento.

Primeiro representante de Feira de Santana no futebol profissional, com dois títulos estaduais — 1963 e 1969 —, várias vezes vice-campeão, bicampeão de aspirantes, vice nos juvenis e ganhador de diversos torneios, o Fluminense, nos seus 85 anos de existência, tem colecionado expressivas vitórias, o que lhe garante muitas glórias e episódios marcantes, que não podem ser esquecidos pela sua relevância. O primeiro deles refere-se ao nome do clube, batizado como Palestrinha, inspirado no Palestra Itália, fundado por imigrantes italianos na cidade de São Paulo.

Com a deflagração da II Guerra Mundial e a Itália no Eixo, ao lado da Alemanha de Adolfo Hitler, líder do nazifascismo, combatido pelos Aliados, dos quais fez parte o Brasil, enviando aos campos de guerra da Itália a vitoriosa Força Expedicionária Brasileira (FEB), o Palestra Itália tornou-se Palmeiras, uma das mais importantes agremiações futebolísticas do continente.

Já não existia clima amigável para os italianos no Brasil, o que, felizmente, foi recuperado e é mantido. Assim, em 1941, a rapaziada do Palestrinha, encabeçada pelos irmãos Wilson, Newton, Manoel e João, filhos do comerciante João Marinho Falcão, resolveu adotar o nome Fluminense, homônimo ao clube carioca, então dotado de grande torcida na cidade.

Em 1953, o clube foi buscar no futebol de Ilhéus, onde era praticado o "futebol marrom" (amadorismo com salário), o zagueiro Arialdo. Mas o jogador foi assassinado com um tiro de revólver por um desconhecido, quando passava pelo bairro Pilão. O fato gerou insatisfação em Ilhéus, deixando Feira de Santana com má fama no sul do estado.

Em 1954, após conquistar o tricampeonato local, derrotando o Bahia de Feira por 3 a 1, no dia 3 de janeiro, no Estádio Almachio Alves Boaventura, o tricolor foi convidado pela Federação Baiana de Futebol (FBF) para disputar o Campeonato de Profissionais, até então restrito aos clubes da capital: Bahia, Vitória, Ypiranga, Galícia, Botafogo, Guarany e São Cristóvão.

Um memorável capítulo ocorreu no dia 6 de junho de 1954, no antigo Estádio da Fonte Nova, onde, exposto à aversão da torcida da capital, a uma arbitragem tendenciosa e à extrema parcialidade de quase toda a crônica esportiva soteropolitana, o estreante empatou em 1 a 1 com o Vitória, deixando estupefatos e raivosos muitos soteropolitanos. O gol foi de Alfredo Cesarinho, pai do cronista esportivo Jair Cesariniano. O time tricolor formou com: Batista; Augusto, Júlio e Elias I; Edinho, Zezinho e Hosanah Bahia; Maneca, Pelúcio, Alfredo e Elias II. O presidente era o médico Wilson Falcão, e o técnico, Durval Cunha.

Ainda em 1954, o time tricolor foi preso no jogo contra o Ypiranga. Perdendo por 2 a 0 e sendo terrivelmente prejudicado pelo juiz Peixoto Nova, o Flu teve um gol legal de Elias anulado. O diretor Ariston Carvalho ordenou que os jogadores se sentassem no gramado. O juiz chamou a polícia, que prendeu todos os atletas.

Em 1955, o tricolor foi quarto colocado no certame estadual e, em 1957, terceiro colocado, além de servir de base para a Seleção Baiana que representou o Brasil na Taça Bernardo O'Higgins, disputada contra a seleção do Chile, em Santiago.

Em 1961, foi bicampeão invicto de aspirantes. Em 1963, o tricolor sagrou-se campeão estadual derrotando o Bahia, na Fonte Nova, por 2 a 1, com gols de Iroldo e Renato Azevedo. Em 1968, foi vice-campeão e, em 1969, conquistou o segundo título estadual, recebendo o cognome de Touro do Sertão e o hino, de autoria do cantor Antônio Moreira.

Em 1972, com a venda dos grandes nomes do elenco — João Daniel, Sapatão, Mário Braga, Gilson Porto e Delorme —, quase não disputou o campeonato. Mas, em uma reunião na Biblioteca Municipal, Antônio Alcione Cedraz assumiu a presidência e conseguiu contornar a situação.

Na década de 1970, o babalorixá Paulo Caveira, que vivia o dia a dia do clube, foi impedido de ocupar o lugar de um diretor no ônibus da delegação e, insatisfeito, proclamou publicamente: "Acabou. O Fluminense nunca mais será campeão. Enterrei uma cabeça de burro no Joia!".

Anos depois, durante a reforma do gramado, lá estava a ossada de um animal. Mas, segundo entendidos, já havia passado o tempo de anular os efeitos do "trabalho" e, até hoje, o tricolor tenta conquistar um novo título estadual.

Em 1971, vice-campeão baiano, mesmo "garfado", o tricolor disputou 30 jogos com a marca de time mais disciplinado da Bahia, não registrando uma só expulsão.

O Touro tem sido vítima de incontáveis "armações". Em 1990, na Fonte Nova, depois de encerrar a partida, o árbitro paulista Edmundo Filho foi obrigado pelo dirigente Paulo Carneiro a recomeçar o jogo. O Fluminense já estava no vestiário e não voltou a campo. O time da capital foi campeão.

São apenas alguns fatos que fazem parte da história do clube e merecem ser lembrados para que não desapareçam.




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