Dois dos maiores jornalistas que conheço, Valdomiro Silva,
fundador da Tribuna Feirense, e Glauco Wanderley, também ex-editor do jornal na
sua versão impressa — ambos autores de rara competência —, produziram
recentemente dois textos para este Portal discutindo a compensação ambiental em
uma área onde se pretende construir um condomínio no bairro SIM. Glauco alega
que o espaço poderia abrigar ao menos 8.000 árvores. Valdomiro, por sua vez, argumenta,
respaldado por um parecer técnico, que apenas 70 árvores deveriam ser
compensadas, uma vez que ali só existiam 14 espécimes, aplicando-se a exata
proporção compensatória de 5:1.
Ainda que não saibamos como uma área tão vasta tenha chegado
a tão poucas árvores, ou precisamente quando elas foram abatidas, quero abordar
esse tema sob uma outra perspectiva, que poderia ser adotada pelo poder
público.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) não determina um número
exato de árvores por habitante, mas recomenda que as cidades possuam uma
proporção mínima de 12 m² de área verde por cidadão. Para atingir esse índice,
estima-se que sejam necessárias ao menos três árvores por morador. Para um
paisagismo e um planejamento urbano verdadeiramente saudáveis, os especialistas
também utilizam a moderna diretriz 3-30-300:
* 3 árvores: Cada pessoa deve conseguir enxergar, no mínimo,
três árvores da janela de sua casa ou do ambiente de trabalho.
* 30% de verde: Cada bairro deve ter pelo menos 30% de sua
área coberta por copas de árvores.
* 300 metros: Todo cidadão deve residir a uma distância
máxima de 300 metros de um parque ou espaço verde público.
Portanto, não creio que o padrão ideal deva ser a mera
compensação pelas árvores encontradas no momento da vistoria — um modelo que,
na prática, favorece a limpeza ambiental prévia —, nem a exigência de uma
cobertura florestal total que inviabilize o desenvolvimento urbano. O que
precisamos, fundamentalmente, é adequar a cobertura vegetal ao padrão
habitacional e à densidade demográfica que o bairro passará a ter com o aporte
de novos moradores. Essa é a questão central e o verdadeiro parâmetro a ser
considerado.
Ao agir assim, o governo municipal demonstraria uma atenção
real e estratégica ao meio ambiente. Evidenciaria a compreensão de que o
paisagismo urbano não é mero adorno, mas ferramenta crucial na redução das
ilhas de calor — reduzindo a temperatura urbana em até alguns graus —, na
melhoria drástica da qualidade do ar e na drenagem pluvial. Mais do que isso,
alinhar-se-ia ao que a neurociência e a psicologia ambiental têm exaustivamente
demonstrado: o contato visual e a proximidade com a natureza reduzem os níveis
de cortisol, diminuem a incidência de distúrbios de ansiedade e depressão, e
restauram a fadiga cognitiva dos cidadãos.
Caso o planejamento municipal continue alheio a essas
premissas, Feira de Santana permanecerá lamentavelmente distante das
recomendações urbanísticas modernas, sacrificando o bem-estar coletivo no altar
de uma norma limitada e conveniente.