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Wellington Freire

O que deixei de viver

Wellington Freire - 30 de Junho de 2026 | 13h 58
O que deixei de viver
Foto: Reprodução/G1

Como um soldado que, muito depois da batalha, ainda distingue, ao longe, o eco de uma explosão, dou-me conta, com sobressalto, de que, hoje, é o último dia de junho. Enquanto a cidade viveu suas noites iluminadas por fogueiras e bandeirolas, passei o mês inteiro encerrado entre os arquivos do professor José Jerônimo, personagem de uma pesquisa biográfica que venho escrevendo. Durante semanas, minha existência se resumiu a cartas amareladas, fotografias sem legenda, manuscritos quase ilegíveis e jornais esquecidos pelo tempo. Habitei mais o passado do que o presente. Agora, ao caminhar solitariamente pelos subúrbios da cidade, encontro apenas restos de fogueiras apagadas, mastros abandonados e o cheiro persistente da fumaça. Esses vestígios não me recordam o que vivi, mas precisamente aquilo que deixei de viver.

Há uma estranha solidão em quem passa dias escavando uma vida alheia. Aos poucos, as fronteiras entre pesquisador e personagem começam a se desfazer. As horas deixam de obedecer ao relógio e passam a ser medidas pelos documentos encontrados. Uma carta conduz a outra; uma fotografia abre caminho para uma lembrança; um nome perdido numa margem de papel obriga a percorrer novas trilhas. É um trabalho silencioso, quase monástico. Enquanto o mundo celebra, o biógrafo desce às catacumbas da memória.

Talvez por isso junho sempre me pareça um mês envolto por uma névoa particular. Não é exatamente tristeza. É uma sensação difícil de nomear, como o anúncio de um ataque que jamais acontece, mas cuja ameaça permanece suspensa no ar. Desde menino, o fim de junho me provoca esse desconforto. As festas terminam antes que possamos compreendê-las. As fogueiras viram cinzas. As bandeirinhas, que há poucos dias tremulavam orgulhosas sobre as ruas, começam a desbotar sob o vento. Existe uma melancolia própria das coisas festivas quando deixam de cumprir sua função.

Sempre achei curioso que as maiores alegrias populares sejam construídas sobre materiais destinados ao desaparecimento. A fogueira nasce para virar cinza. Os fogos de artifício existem apenas enquanto explodem. A música termina. O arraial é desmontado. Talvez a beleza das festas resida justamente nisso: elas nos lembram que toda alegria é provisória.

Enquanto caminhava nesta tarde, pensei que os subúrbios guardam melhor a memória das festas do que os centros das cidades. No centro, tudo é rapidamente substituído por outra urgência. Nos bairros periféricos, porém, permanecem os sinais discretos do que passou: um balão de papel preso aos fios elétricos, uma bandeirinha esquecida num telhado, uma fogueira reduzida a um círculo escuro no chão. São pequenas ruínas do cotidiano. Gosto dessas sobrevivências. Elas me fazem pensar que o tempo nunca consegue apagar completamente aquilo que toca.

Talvez seja por isso que gosto tanto dos arquivos. Também eles são uma coleção de ruínas. Um arquivo não preserva a vida; preserva apenas aquilo que resistiu à sua destruição. Toda biografia é construída menos pelo que encontramos do que pelo que desapareceu para sempre. Entre uma carta preservada e outra perdida existe um silêncio impossível de reconstruir. O historiador aprende cedo que a memória humana é feita tanto de presenças quanto de ausências.

Dias atrás encontrei, numa epígrafe de um poema de Roberval Pereyr, uma frase que desde então não me abandona: "Não há manhãs de sol no país dos mortos." Li essas palavras uma única vez, mas elas continuaram caminhando ao meu lado enquanto eu remexia caixas de documentos e respirava o pó acumulado de décadas.

Desde então, fiquei imaginando aquele país silencioso. Se ali não existem manhãs, talvez também não existam segundas-feiras, aniversários, festas juninas ou calendários. Talvez os mortos permaneçam para sempre suspensos na quietude de um domingo interminável.

É uma hipótese melancólica, reconheço. Mas enquanto volto para casa entre fogueiras reduzidas a cinzas e percebo que junho terminou sem que eu realmente o tivesse vivido, descubro que algumas perguntas chegam tarde demais para serem respondidas.

Uma delas continua comigo.

Como serão, afinal, os domingos da morte?



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