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  • Feira de Santana, quinta, 11 de junho de 2026

César Oliveira

A reforma do Amélio Amorim, meu pai e o governador

César Oliveira - 11 de Junho de 2026 | 07h 39
A reforma do Amélio Amorim, meu pai e o governador
Antigo Restaurante Carro de Boi, projetado pelo arquiteto Amélio Amorim (Foto: Reprodução)

Amélio Amorim era amigo de meu pai, por terem origem comum, em Coração de Maria. Nascido em 21 de abril de 1929, Amélio foi arquiteto brilhante, dono de marca imemorial em nossa cidade. Dele, herdamos o monumental projeto do Clube de Campo Cajueiro; a Galeria Caribé; o prédio da Casa das Lâmpadas; a icônica casa suspensa, situada na Avenida Getúlio Vargas – lamentavelmente, já demolida –, logo após o cruzamento com a Avenida Maria Quitéria; e o seu sonho absoluto: o Complexo Carro de Boi.

Para colocar esse sonho de pé, Amélio sacrificou, muitas vezes, a totalidade da renda familiar, como me confidenciou Irma Amorim, sua esposa, já falecida — escritora, artesã, poetisa e amiga. Visionário, inquieto, Amélio deu à cidade um restaurante marcado pela figura iconográfica do carro de boi e pela inesquecível Boate Jerimum — palavra de origem tupi (yuru'mún), nome popular para a abóbora.

Ele partiu, precocemente, em 15 de maio de 1982, em um acidente automobilístico, mas consolidou-se como o grande pioneiro do modernismo, em Feira. Há quem diga, com razão, que Amélio expressava em traços de concreto a poesia de Irma, e que ela vestia em palavras a arquitetura dele.

Quando Amélio estava finalizando a construção, contou-me Irma, pediu a meu pai que comprasse dois carros de boi para o Complexo. Meu pai os comprou e lhe fez uma doação.  Com o abandono do espaço, não sei se permaneceram por lá, foram desmontados, ou doados a outra instituição.

Agora, após décadas de um descaso que roía a alma de quem valoriza a nossa identidade, o governador Jerônimo Rodrigues  promoveu uma reforma, que é um ato de reparação histórica. Devolver o Centro de Cultura Amélio Amorim à comunidade, com sua estrutura recuperada e uma ornamentação convidativa, vai além de uma obra pública.

Ela resgata a "abóbora" do nosso imaginário coletivo, reabrindo um centro de arte, convivência e vanguarda que parecia perdido. Essa revitalização cura uma ferida urbana que não cansava de doer.

Não sei se os carros de boi voltaram à sua moradia natural. Ainda não fui ao novo Amélio. Se estiverem lá, encontrarei um fio de meu pai, um tempo dele ainda no meu. Se não estiverem, ficarei sem o encontro, mas  continuarei guardando o detalhe da memória que ele deixou por ali. De todo modo, vou feliz ao novo Amélio Amorim,  governador!



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