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César Oliveira

Dissonância cognitiva, ad hominem e o abismo da desqualificação política

César Oliveira - 02 de Junho de 2026 | 13h 47
Dissonância cognitiva, ad hominem e o abismo da desqualificação política
Foto: Reprodução

A dissonância cognitiva é o desconforto mental gerado quando mantemos crenças, ideias ou valores que entram em conflito com a realidade ou com as nossas próprias ações. Como a nossa mente busca, incessantemente, a coerência, esse conflito gera uma forte tensão psicológica, que nos motiva a buscar formas de aliviar o mal-estar.

O conceito, formulado pelo psicólogo social Leon Festinger, em 1957, descreve um desconforto tão real, que o cérebro ativa o córtex frontal posterior e a ínsula — áreas intimamente ligadas a reações emocionais e de sobrevivência.

Não é à toa que os mecanismos de dominação política têm explorado, historicamente, o fenômeno do confronto, a exacerbação do discurso e o que podemos chamar de "coreografia moral" para justificar cenários que, em tese, seriam inaceitáveis.

A cineasta italiana Lina Wertmüller explorou, magistralmente, essa coreografia da degradação humana e do conformismo moral em face do fascismo e do nazismo, notadamente, em sua obra-prima Pasqualino Sete Belezas (1975).

Com o advento da internet e a universalização da comunicação, essa exploração do ódio político foi exacerbada e elevada ao estado da arte. Hoje, todas as pessoas estão expostas a algoritmos sofisticados e a "fazendas de celulares" programadas para emitir mensagens em massa, muitas vezes financiadas ou instrumentalizadas por grupos de poder e governos.

Essa exacerbação do ódio como instrumento de dominação é visível nas redes sociais e contamina, inclusive, jornalistas e intelectuais. Sintomas dessa retórica violenta aparecem em declarações de líderes  opostos, como  Jair Bolsonaro, quando falou em "fuzilar a petralhada", e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, que, em  fala infeliz, disse, ao se referir a adversários políticos:  "empurrar na vala, com pá carregadeira".

Toda vez que o poder e seus satélites se veem ameaçados ou expostos, partem para a desqualificação dos opositores, por meio da falácia do argumento ad hominem — quando se ataca o indivíduo, e não a matéria em debate. Todos nós, incluindo os profissionais da informação, somos tentados a cair nessa armadilha, diariamente, sendo fundamental um esforço consciente para resistir à desumanização do outro.

No Brasil, esse fenômeno se repete, de forma cruel, na base da sociedade. Costuma-se rotular eleitores de Lula ou Bolsonaro como "jumentos", "gado" ou "mentecaptos", como se os 60 milhões de cidadãos que votaram em cada um deles fossem incapacitados mentais.

Trata-se de  arrogância intelectual e de um gene de totalitarismo inaceitável. O fenômeno se torna ainda mais grave quando praticado por intelectuais — embora saibamos, pela história, que mentes brilhantes, frequentemente, se entregaram às perversões políticas e ao rebanho ideológico, sem qualquer pudor.

A desqualificação indiscriminada do eleitor do espectro oposto é um erro analítico e moral por três motivos centrais:

 - Reducionismo sociológico: 60 milhões de votos não cabem em um único diagnóstico psicológico ou moral. Trata-se de realidades econômicas, medos legítimos, heranças culturais e aspirações distintas que movem o voto. Reduzi-los à burrice é fechar os olhos para as causas reais do voto.

- A erosão do tecido democrático: Quando transformamos o vizinho, o colega de trabalho ou o familiar em um "inimigo incapaz", destruímos as pontes mínimas de convivência social necessárias para a democracia.

- A blindagem de ídolos: a ofensa ao eleitor adversário funciona como cortina de fumaça, que impede o indivíduo de enxergar as contradições e os erros escancarados de seus ídolos políticos, alimentando o ciclo da dissonância cognitiva.

 A desqualificação geral não legitima o argumento de ninguém.  Em tempos de overdose de informação e manipulação algorítmica, a firmeza, a crítica e a opinião devem se construir sobre o esclarecimento, o dado concreto e o debate aprofundado.

Precisamos abandonar o Fla-Flu de adjetivos e focar na robustez dos projetos de país, na consistência dos fatos e na indignação que constrói, em vez de destruir. É possível que, sob pressão dessa indústria do engajamento ou movidos por juvenis paixões ideológicas, caiamos no abismo dessa conduta.

No entanto, devemos fincar os pés à beira desse precipício e resistir, pois quando o argumento cai na desqualificação adjetiva, ele apenas escancara a doutrinação e a servidão ideológica que nos transforma em massa de manobra.

E quando cairmos em tentação — pois o ambiente digital é feito para nos fazer cair —, é preciso fazer o exercício da autocrítica e ajoelharmo-nos, figurativamente, sobre o milho, com o intuito de buscar a contrição intelectual que nos redima e devolva a dignidade ao debate.



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