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Wellington Freire

Trump quer um acordo - mas um acordo sob bombardeio

Wellington Freire - 28 de Maio de 2026 | 07h 06
Trump quer um acordo - mas um acordo sob bombardeio
Foto: Getty Images

Existe algo profundamente característico do século XXI na imagem de diplomatas negociando enquanto aviões cruzam o céu carregando bombas. Durante boa parte da história moderna, guerra e diplomacia eram momentos distintos. Primeiro vinham os combates; depois, as conferências. A paz surgia como consequência do esgotamento militar. Hoje, porém, a lógica parece outra: negocia-se durante o bombardeio. A guerra deixou de interromper a diplomacia. Tornou-se parte dela.

É exatamente isso que emerge da nova crise entre Estados Unidos e Irã. Donald Trump afirma desejar um acordo. Seus enviados conversam. Os canais diplomáticos permanecem abertos. Mas, simultaneamente, destróieres americanos operam no Golfo Pérsico, drones são abatidos, instalações militares iranianas são atacadas e o Estreito de Ormuz continua sob tensão permanente. A mensagem implícita é brutal: negocia-se sob pressão aérea.

Talvez este seja o verdadeiro paradigma geopolítico contemporâneo: a paz coercitiva.Não se trata mais da velha diplomacia europeia do século XIX, baseada em congressos e tratados duradouros. Tampouco é a guerra total do século XX, quando Estados inteiros eram mobilizados até a rendição absoluta do inimigo. O que vemos agora é um modelo híbrido, no qual ataques limitados convivem com negociações abertas. A guerra transforma-se numa linguagem diplomática.

Trump não inventou esse mecanismo. Apenas o radicalizou. Richard Nixon já operava assim durante a Guerra do Vietnã. Enquanto falava em negociações de paz em Paris, ampliava os bombardeios sobre Camboja e Laos. A violência militar era usada como instrumento psicológico de pressão. Décadas depois, Bill Clinton empregaria lógica semelhante em Kosovo: a OTAN bombardeava a Sérvia enquanto exigia concessões políticas imediatas. George W. Bush levaria o método ao extremo no Iraque, quando a doutrina do “choque e pavor” procurou transformar destruição em mecanismo de reorganização política.

Mas existe algo de singular na estratégia trumpista. Ela mistura espetáculo, imprevisibilidade e coerção permanente. Trump negocia como quem mantém um revólver sobre a mesa. Seus discursos oscilam entre anúncios otimistas de paz e ameaças explícitas de novos ataques. O adversário nunca sabe exatamente onde termina a diplomacia e onde começa a guerra.

Essa ambiguidade não é acidental. Ela constitui a própria estratégia. No fundo, os Estados Unidos parecem compreender que o poder contemporâneo não depende apenas da capacidade de destruir, mas da capacidade de produzir incerteza contínua. A coerção moderna é psicológica antes de ser militar. Não é necessário invadir Teerã. Basta tornar instável a vida estratégica do Irã: seus portos, suas rotas marítimas, sua economia, sua percepção de segurança.

O curioso é que o Irã também aprendeu essa lógica. Seus drones, suas ameaças ao Estreito de Ormuz e suas operações indiretas funcionam como formas de diplomacia armada. O regime iraniano sabe que talvez não possa vencer os Estados Unidos numa guerra convencional. Mas também sabe que pode elevar drasticamente os custos da presença americana no Golfo.

Assim, ambos negociam enquanto demonstram capacidade de destruição mútua. Clausewitz talvez reconhecesse parte desse cenário, mas provavelmente se espantaria com sua inversão contemporânea. Ele escreveu que a guerra era a continuação da política por outros meios. Hoje, às vezes parece que a política tornou-se apenas a continuação da guerra por meios menos visíveis.

E talvez resida aí a grande tragédia estratégica do nosso tempo: a paz já não surge quando cessam os bombardeios. A paz moderna tornou-se apenas outra forma de pressão.



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