Existe algo profundamente característico do século XXI na
imagem de diplomatas negociando enquanto aviões cruzam o céu carregando bombas.
Durante boa parte da história moderna, guerra e diplomacia eram momentos
distintos. Primeiro vinham os combates; depois, as conferências. A paz surgia
como consequência do esgotamento militar. Hoje, porém, a lógica parece outra:
negocia-se durante o bombardeio. A guerra deixou de interromper a diplomacia.
Tornou-se parte dela.
É exatamente isso que emerge da nova crise entre Estados
Unidos e Irã. Donald Trump afirma desejar um acordo. Seus enviados conversam.
Os canais diplomáticos permanecem abertos. Mas, simultaneamente, destróieres
americanos operam no Golfo Pérsico, drones são abatidos, instalações militares
iranianas são atacadas e o Estreito de Ormuz continua sob tensão permanente. A
mensagem implícita é brutal: negocia-se sob pressão aérea.
Talvez este seja o verdadeiro paradigma geopolítico
contemporâneo: a paz coercitiva.Não se trata mais da velha diplomacia europeia
do século XIX, baseada em congressos e tratados duradouros. Tampouco é a guerra
total do século XX, quando Estados inteiros eram mobilizados até a rendição
absoluta do inimigo. O que vemos agora é um modelo híbrido, no qual ataques
limitados convivem com negociações abertas. A guerra transforma-se numa
linguagem diplomática.
Trump não inventou esse mecanismo. Apenas o radicalizou.
Richard Nixon já operava assim durante a Guerra do Vietnã. Enquanto falava em
negociações de paz em Paris, ampliava os bombardeios sobre Camboja e Laos. A
violência militar era usada como instrumento psicológico de pressão. Décadas
depois, Bill Clinton empregaria lógica semelhante em Kosovo: a OTAN bombardeava
a Sérvia enquanto exigia concessões políticas imediatas. George W. Bush levaria
o método ao extremo no Iraque, quando a doutrina do “choque e pavor” procurou
transformar destruição em mecanismo de reorganização política.
Mas existe algo de singular na estratégia trumpista. Ela
mistura espetáculo, imprevisibilidade e coerção permanente. Trump negocia como
quem mantém um revólver sobre a mesa. Seus discursos oscilam entre anúncios
otimistas de paz e ameaças explícitas de novos ataques. O adversário nunca sabe
exatamente onde termina a diplomacia e onde começa a guerra.
Essa ambiguidade não é acidental. Ela constitui a própria
estratégia. No fundo, os Estados Unidos parecem compreender que o poder
contemporâneo não depende apenas da capacidade de destruir, mas da capacidade
de produzir incerteza contínua. A coerção moderna é psicológica antes de ser
militar. Não é necessário invadir Teerã. Basta tornar instável a vida estratégica
do Irã: seus portos, suas rotas marítimas, sua economia, sua percepção de
segurança.
O curioso é que o Irã também aprendeu essa lógica. Seus
drones, suas ameaças ao Estreito de Ormuz e suas operações indiretas funcionam
como formas de diplomacia armada. O regime iraniano sabe que talvez não possa
vencer os Estados Unidos numa guerra convencional. Mas também sabe que pode
elevar drasticamente os custos da presença americana no Golfo.
Assim, ambos negociam enquanto demonstram capacidade de
destruição mútua. Clausewitz talvez reconhecesse parte desse cenário, mas
provavelmente se espantaria com sua inversão contemporânea. Ele escreveu que a
guerra era a continuação da política por outros meios. Hoje, às vezes parece
que a política tornou-se apenas a continuação da guerra por meios menos
visíveis.
E talvez resida aí a grande tragédia estratégica do nosso tempo: a paz já não surge quando cessam os bombardeios. A paz moderna tornou-se apenas outra forma de pressão.