Durante muito tempo, líderes europeus insistiram em
interpretar a guerra da Ucrânia como um conflito regional. Uma disputa
territorial limitada ao espaço pós-soviético. Uma guerra de fronteiras. Mas os
acontecimentos recentes demonstram algo muito maior: Moscou já não combate
apenas Kiev. A Rússia passou a enfrentar o próprio sistema estratégico do
Ocidente.
A declaração da diretora do GCHQ (Quartel-General de
Comunicações do Governo Britânico), Anne Keast-Butler, afirmando que a Rússia
“ataca implacavelmente infraestruturas críticas, processos democráticos,
cadeias de abastecimento e a confiança pública”, possui enorme significado
histórico. Não se trata apenas de espionagem tradicional. Trata-se da consolidação
de uma guerra híbrida permanente entre Moscou e a ordem atlântica.
A frente de batalha contemporânea já não termina nas
trincheiras de Donetsk. Ela se estende até Londres, Varsóvia, Berlim, Bruxelas
e o Mar do Norte. A transformação mais importante da guerra moderna talvez seja
exatamente esta: a dissolução das fronteiras entre guerra e paz. No século XX,
conflitos começavam com declarações formais e invasões visíveis. Hoje, Estados
podem atacar uns aos outros sem jamais reconhecer oficialmente que estão em
guerra. A Rússia opera precisamente nesse espaço cinzento. Não é necessário
bombardear Londres para atingir o Reino Unido. Basta atacar: redes elétricas;
sistemas bancários; cadeias logísticas; A guerra híbrida permite desgastar
adversários sem desencadear imediatamente uma resposta militar direta da OTAN.
É nesse contexto que devem ser entendidos episódios
aparentemente desconexos das últimas duas décadas: o assassinato de Alexander
Litvinenko com polônio radioativo; a tentativa de assassinato de Sergei Skripal
com o agente químico Novichok; os ataques cibernéticos contra infraestruturas
europeias; as campanhas digitais de desinformação; e até a atuação da chamada
“frota paralela” russa para driblar sanções internacionais.
Nada disso é isolado. Tudo faz parte de uma mesma lógica
estratégica: pressionar o Ocidente abaixo do limiar da guerra convencional. A
Rússia compreendeu algo que muitas democracias ainda relutam em aceitar:
sociedades abertas são extremamente vulneráveis à sabotagem contínua. Democracias
dependem de estabilidade econômica, confiança institucional e normalidade
cotidiana. Quando essas estruturas começam a falhar, mesmo parcialmente,
instala-se um desgaste psicológico coletivo.
Por isso a guerra híbrida é tão eficiente. Ela transforma
energia em arma geopolítica. Transforma redes sociais em campo de batalha.
Transforma hackers em unidades estratégicas. Transforma migrantes, navios
mercantes, vazamentos de informação e até algoritmos em instrumentos de poder
estatal. A antiga distinção entre civil e militar começa a desaparecer.
Hoje, um cabo submarino de internet possui importância
estratégica semelhante à de uma ferrovia durante a Segunda Guerra Mundial. Um
ataque digital pode produzir danos econômicos equivalentes aos de um bombardeio
convencional. Um drone barato pode gerar efeitos psicológicos desproporcionais
sobre cidades inteiras. A própria noção de retaguarda praticamente deixou de
existir.
Guerras híbridas raramente possuem fronteiras definidas ou
armistícios claros. Elas avançam lentamente pelos sistemas nervosos das
sociedades modernas: energia, informação, logística, finanças e comunicação. A
guerra do século XXI talvez não seja marcada pelo avanço de colunas blindadas
sobre capitais inimigas. Talvez seja definida pela capacidade de paralisar
infraestrutura, manipular informação, sabotar economias e corroer a confiança
pública.
E nesse novo tipo de guerra, a distância entre Donetsk e Londres tornou-se muito menor do que imaginávamos.