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Wellington Freire

A Doutrina Monroe voltou - agora contra a China

26 de Maio de 2026 | 06h 41
A Doutrina Monroe voltou - agora contra a China

Quando o porta-aviões USS Nimitz apareceu nas águas do Caribe, próximo a Cuba, muitos analistas enxergaram apenas mais um episódio da velha hostilidade entre Washington e Havana. Mas talvez estejamos diante de algo muito maior: o retorno explícito da lógica hemisférica americana. 

A questão central já não é Cuba. A questão é a China.Durante décadas, a Doutrina Monroe foi apresentada como um mecanismo destinado a impedir a presença das potências europeias nas Américas. Formulada em 1823, ela carregava a famosa ideia de “América para os americanos”. Na prática, significava algo mais direto: nenhuma potência rival deveria estabelecer presença estratégica no hemisfério ocidental.

Agora, dois séculos depois, a doutrina parece estar sendo reativada,não contra Londres, Paris ou Madri, mas contra Pequim. É impossível observar separadamente os movimentos recentes dos Estados Unidos em relação à Venezuela, ao Panamá, ao Irã e agora a Cuba. Em todos os casos, há um padrão recorrente: pressão econômica, cerco diplomático, demonstração naval e construção gradual de intimidação militar.

O USS Nimitz não foi deslocado apenas como instrumento bélico. Sua presença é uma mensagem geopolítica. Os porta-aviões americanos funcionam hoje como antigas fortalezas móveis do império. São recados flutuantes. Não precisam necessariamente atacar. Basta aparecerem no horizonte. O ponto mais importante talvez esteja sendo ignorado: Washington já compreendeu que a disputa do século XXI não será travada apenas no Indo-Pacífico. Ela ocorrerá também no Caribe, no Canal do Panamá, nas rotas energéticas latino-americanas e nas infraestruturas portuárias controladas ou financiadas pela China.

É exatamente aí que Cuba retorna ao centro do tabuleiro. Não por Fidel. Não pelo socialismo. Não pela nostalgia da Guerra Fria. Mas pela geografia. A ilha continua situada a cerca de 150 quilômetros da Flórida. Continua guardando entradas marítimas fundamentais do Golfo do México. Continua sendo um ponto estratégico de inteligência, vigilância e projeção naval.

Para Washington, a possibilidade de uma presença chinesa consolidada em Cuba representa algo intolerável. A lógica é simples: os Estados Unidos rejeitam uma “Taiwan chinesa” no Caribe da mesma maneira que Pequim rejeita uma “Cuba americana” diante do litoral continental chinês. Por isso o apoio chinês a Havana permanece limitado. Pequim envia arroz, painéis solares, ajuda energética e respaldo diplomático, mas evita cruzar determinadas linhas vermelhas. A liderança chinesa compreende perfeitamente que Cuba pertence à zona de sensibilidade estratégica máxima dos EUA

Xi Jinping parece determinado a evitar o erro soviético: sustentar aliados ideológicos deficitários em confrontos frontais com Washington. A China quer influência global.Não quer repetir o custo imperial da URSS. Enquanto isso, Trump parece operar segundo uma lógica muito mais clássica e brutal: reconstruir uma esfera de influência hemisférica onde a presença chinesa seja progressivamente reduzida ou neutralizada.

Nesse contexto, o Caribe volta a adquirir importância histórica. O século XXI está revivendo uma velha verdade da geopolítica: as grandes potências toleram comércio; não toleram rivais militares próximos de suas costas. Washington não teme Havana. Teme Pequim a 150 quilômetros da Flórida.







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